Julita

Ainda sobre (o dia das) mães

Mamãe, mamãe, mamãe, tu és a rainha do lar, cantava Ângela Maria com toda convicção. Sua voz potente, clara e límpida chegava aos meus ouvidos infantis provocando inquietações e tumultos que só bem mais tarde se transformaram em questões. E, só há bem pouco tempo ouso revirar pelo avesso essa maternidade que nos foi impingida e, tento tornar mais humana essa mãe que sou e a mãe que eu tive.

Minha mãe tem quase 90 anos.
Eu recentemente fiz cinquenta e oito.
Uma longa e delicadíssima relação…

Dia-à-dia me surpreendo encontrando entre mim e ela semelhanças antes inadmissíveis. Sempre me disseram que me parecia com meu pai. Tão irascível, tão temperamental!Minha mãe era dócil, meiga. Nenhuma insureição. Nenhuma reinvindicação. Dentro de mim um transtorno. Para nós duas um obstáculo. Foi por aí que me afirmei. Fiz minhas todas as suas impossibilidades. Gritei. Esbravejei.

Inevitavelmente troquei, muitas vezes, as mãos pelos pés.
Inevitavelmente também o tempo passou.

Fisicamente fui ficando parecida com ela. Quando inadvertida me olhava num espelho era ela que eu via. Desconcertante. Não era a mim que encontrava. Era ela.
Hoje, em alguns momentos sinto seus gestos, seu olhar, seu alheamento brotarem de mim como se os houvesse apreendido e me apropriado do significado, da intenção, do gesto. Daquilo que lhe escapara das entranhas sem o seu consentimento.

Dentro dela já não caibo. Mas ela sim, cabe dentro de mim. Ainda esbravejo, porém com mais parcimônia. Continuo reivindicando. Sou assim, cheia de opiniões.

Cada vez menos troco os pés pelas mãos.
Cada vez mais sou uma filha da mãe!

P.S. -Esse escrito foi de 2002. Minha mãe já faleceu há muito e certamente hoje acrescentaria outras tantas descobertas. Contudo é sempre com a mesma emoção que o releio e portanto os sentimentos nele contidos permanecem vivos, se bem que tomaram outros rumos.

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