Julita

Ah! o amor.

Amar é um deserto e seus temores- ouvindo pela primeira vez essa música de Djavan e por ele cantada, senti um baque. Pensei, sem nem pensar, ele roubou meu pensamento, esses versos poderiam ser meus. Sem falsa modéstia, já havia rodeado o amor em tantas e indecifráveis voltas que, ouvi-lo dizer assim foi como um fecho, um arremate para minhas infindáveis tentativas de apreender o que é mesmo o amor.

Costumo sempre dizer: o amor é um horror, um desassossego. Amor de mãe, então… Mas, o dia das mães já passou e, mais uma vez, sobrevivemos aos desencontros da data marcada, ao equívoco do amor incondicional.

O mês de maio traz com ele uma visão romântica do amor – mês das mães, das noivas, dos namorados, das flores, … _ com a qual o comércio compactua e não se poupa em mirabolantes campanhas publicitárias para lucrar sempre mais fazendo-nos acreditar que o amor é isso: presentear, consumir, festejar. Esquecemos que o amor é uma celebração. Um ato de fé, eu diria.

Na noite de Santo Antônio é do enamoramento que se trata, de ser só um e não dois. E quando jovens, tempos em que as certezas prevalecem, o amor chega pronto como um presente e, se envolto em laços de fita, comemorado com champanhe, chocolate e sexo, é perfeito.

Ah!, o amor… Será que é isso mesmo? Apenas isso? Será que isso não é paixão, um mistério gozoso? O tempo vai passando e nos quedamos, de vez em quando, diante dessa questão essencial. O amor agora já tomou outros rumos ou muitos outros enamoramentos, paixões. A vida se desenrolando, se transformando, a maturidade (ou não) se estabelecendo, e com ela, par e passo, a responsabilidade e, porque não dizer, o peso do amor. Ou seja, um deserto e seus temores. Medo de vivê-lo e de perdê-lo. Não que não nos oferte uma dose generosa de felicidade e alegria, mesmo quando a maturidade não foi buscada e nos deixamos embalar por aquilo de infantil que o amor traz de sua origem, vestígios da primeira relação com a mãe que adivinhava nossas dores, nos acudia e alimentava, e, se alegrava com nossa alegria. Disso precisamos para sobreviver, pois nós, seres humanos, somos os animais mais frágeis da natureza, nascemos inacabados. Talvez porque só o humano é capaz de pensar com lógica e distanciamento, de articular razão com paixão, e saber o que é solidão, sofrimento, dor, tristeza, alegria. E para isso se faz necessário vivências, experiências, desilusões. Tempo, essencialmente.

Sim, o amor tem um peso. Nem sempre nos faz feliz, nos deixa alegre ou seguro. Satisfeito. Não são poucas as vezes que nos faz perder a noite, o sono, o rumo, a razão –amar é um deserto e seus temores. Títeres ou mamulengos em suas mãos , coitados de nós, somos sempre presas.

O amor carece, como a vida, de coragem e de cuidados. Às vezes, ele parece uma maria-sem-vegonha que dá em todo canteiro, enche de alegria nossos olhos e de emoção nossos corações. Outras tantas, cactus, cheios de espinhos só florescendo na seca e suas agruras.

Sobre meu ombro, debruçada sobre o meu texto, Julita, a parte mais leve de mim, começa a dar seus palpites. Diz que está longo demais, que estou espaçosa demais e que nem toquei na emoção que senti quando vi, pela primeira vez, subindo das 200 pras 300, imensas faixas verdes e amarelas tremulando de um lado para o outro da entre quadra.

Ela, Julita, zombeteiramente, me relembra um trecho de uma música cantada por Isaurinha Garcia:
Se não é amor, por que é que sinto essa vontade de chorar?
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Mas se for amor, responde coração, responde coração, o que é que eu faço?

Uma opinião para “Ah! o amor.”

  1. Cléa Sá
    Clea
    16/07/2014 at 16:27 #

    Julita, Julita

    Como você acerta sempre? como você consegue dizer as coisas essenciais em poucas e poéticas palavras? Lindo texto. Compartilho com você e Djavan: o amor é um deserto e seus temores. Obrigada
    Cléa

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