Cléa Sá

Do tempo, de mudanças e de natais  

Sonho com uma iminente guerra mundial. Parece que nada pode ser feito e o  mundo provavelmente vai acabar.

Acordo,  penso no sonho e vejo que não há a nada a temer.  Mundos acabam e são substituídos por outros.   Quantos já tivemos?  Do Big-Bang ao Homo Sapiens grande mudanças aconteceram. E dos Impérios que pareciam eternos – persas, mongóis, romanos -,  o que restam?  Figuras como Hitler, Mussolini atemorizaram um mundo que felizmente já acabou. E muitos outros ainda virão e serão substituídos. Nada é para sempre.

Numa escala menor, vendo apenas a nossa história individual, vejo que daquele mundo onde meu pai viveu nos começos dos anos 1900 do século passado, apenas restam lembranças que se extinguirão também quando nos formos.

Meu pai precisou abandonar a escola muito cedo para trabalhar. Era ajudante de um tropeiro que transportava mercadorias de uma cidade para outra. A ele cabia cuidar e tanger os burros de carga por aqueles sertões de Pernambuco. E contava que nas paradas para descanso, depois de dar comida e água para os animais, os desencilhava e os deixava à solta por algum tempo. Então se sentava à sombra de alguma árvore e relia páginas do seu livro de leitura, de Felisberto de Carvalho, que ele ciosamente levava consigo. Tinha saudades da escola. Daí o seu amor pelos estudos e o desejo que realizou de dar educação para os filhos.  “A única herança que quero deixar para meus filhos é o estudo; já vi muita família se desagregar por causa de dinheiro herdado”, sempre dizia.

Também o mundo onde os natais eram modestos e feitos de coisas simples, brinquedos feitos em casa, bolas de meia, bonecas de pano, peru assado com farofa, sangria para crianças é um mundo extinto que também só vive agora nas esparsas lembrança de quem os viveu. Deles me lembro.

Minha mãe cultivava o Natal. Meses antes ela começava os preparativos. Nos   anos da nossa infância só havia o presépio: ela fazia casinhas de papelão, procurava pequenas pedras, plantava arroz para se fazer passar por campos de trigo, tinha  pequenos animais de celuloide, ovelhas e burrinhos, e no início de dezembro fazia a montagem. Era uma pequena cidade que saía de suas mãos e lá, em um lugar privilegiado, a gruta, feita de  estreitas ripas de madeira e telhado de  folha de alguma palmeira, e nela as figuras de Jesus, Maria e José, essas sim de louça, que embrulhadas em papel de seda tinham dormido por um ano em uma caixa de sapatos guardada no alto do guarda-roupa.  Havia ainda montanhas feitas de papel-pardo amassado, um espelho que se transformava em lago onde pequenos patos nadavam. E colocados bem distante, três figuras montadas em camelo que iam se aproximando a cada dia um pouco para, após o dia 25, chegarem à gruta para visitarem o Menino. Eram os Três Reis Magos, andando pelas mãos de nossa mãe.

A árvore de Natal, o pinheiro, só entrou lá em casa bem mais tarde, quando começou ou se acentuou a influência norte-americana.  O presépio continuava a ser feito, mas com bem menos entusiasmo. Nada de plantar arroz, fazer casinhas de papelão, não. Passou a ser só um lugarzinho com folhas de palmeiras secas, a manjedoura e as figuras da Sagrada Família. Todas as atenções passaram para a árvore, às vezes um pinheiro de verdade, outras um artificial, outras ainda um arranjo sobre galhos cortados de uma árvore. E eram enfeitados com bolas de vidro coloridas de tamanhos variados,  pingentes,  figuras coloridas,  longos cordões de papel verde, ou dourado ou prateado,  pisca-pisca e sempre um “ponteiro” colocado no mais alto da árvore. E algodão branco se passando por neve cobria os galhos.  E embaixo, embrulhados em papéis coloridos, os presentes. E o alvoroço dos pequenos, sua ansiedade, e nós, os maiores, sem grandes expectativas, pois bem sabíamos das limitações em que vivíamos. Minha mãe, que desejava acima de tudo dar belos e bons presentes, sofria por ter de se contentar com dar caixas de lenços e pares de meias para os rapazes, pequenos vidros de perfume ou caixas de pó de arroz para as moças. Para os pequenos eram jogos de dominó, damas, xadrez chinês, apitos, pequenos tambores e, coisa rara, uma bola de futebol de couro,  esse  um presente para ser partilhado por todos os meninos. Uma vez um dos pequenos ganhou uma bicicleta do padrinho. A alegria foi grande e logo estavam organizados a dar voltas na bicicleta um a um e o dono do presente só olhando, sem poder andar. Quando gritava “é a minha vez”, um deles dizia, “não, tu não, tu não precisa andar, tu já é o dono” e ele, satisfeito e orgulhoso, se conformava por algum tempo. Depois despertava do engodo e era mais um a entrar na fila.

Meu pai, ao contrário de nossa mãe, apenas tolerava o Natal. Na manhã do dia 25 podíamos contar que ele teria um ataque de mau humor, aborrecido com o barulho dos apitos, dos tambores e  dos gritos da criançada. Mas até das suas zangas me lembro com saudades.

É um  mundo envolto em brumas visto de modo mais bonito após o tempo ter apagado os traços escuros das dores e mágoas,  restando apenas a lembrança dos risos, das luzes, dos beijos, dos afetos.

E do Natal de hoje, o que dizer? Ainda o celebramos em família e com alegria, mas pouco se parece com os natais da minha infância e juventude.   As bolas e figuras coloridas  com que enfeitamos a nossa árvore  são mais bonitas e inquebráveis e vem de longe, da China. O presépio é bem pequeno, cabe em uma cesta. Nele estão  as pequenas imagens  de  Maria, José e do Menino Jesus, que permaneceram embrulhadas em papel de seda  e guardadas por um ano,  duas ovelhinhas,  um boi sonolento e um pastor com seu cajado.  Os Reis Magos estão presentes, mas agora são as minhas mãos que os fazem caminhar para visitar o Menino.

Na véspera do Natal nos reunimos para a ceia, nos presenteamos,  brincamos e rimos. Mas há momentos em que sentimos silenciosas presenças e até me parece ouvir  um riso cristalino inconfundível. Olho em torno. Há um tilintar de copos, conversas, e o vento entra pelas janelas abertas.

13 Responses para “Do tempo, de mudanças e de natais  ”

  1. Regina
    13/12/2013 at 21:35 #

    Cleita, que linda a sua maneira de contar sobre os natais! Que belo presente voce nos deu!
    Felizes festas com a sua familia linda!
    Bjs
    Regina

  2. Marcello Sá
    13/12/2013 at 00:44 #

    Querida Cleita,

    Sua bela crônica já é por si só um belo presente de Natal, por nos levar de volta a esse período mágico que é o Natal de nossa infância. Tive a felicidade de passar vários deles com vocês, desde pequeno até adulto. E como não lembrar de vovó Messias preparando o seu presépio para a família, da algazarra dos primos e primas e da falação animadas de vocês, queridos tios e tias. Neste ano, teremos aqui a oportunidade de passar um Natal especial em companhia dos meninos de Serginho, que se juntarão à Maya e às minhas filhas. Será muito bom curtir esse alvoroço, tal qual você relata na sua crônica tão comovente. Muito obrigado! Marcello Sá

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      15/12/2013 at 20:45 #

      Oi, Regina

      Obrigada por sua gentileza. E parabéns, Doutora! Um abraço e feliz Natal
      Cléa

  3. Bené
    12/12/2013 at 18:38 #

    Oi Cleíta, muito linda a crônica. Me emocionou muito, em especial, mas não unicamente, a passagem da aproximação lenta dos Reis Magos, pelas mãos de mamãe…

    • Cléa Sá
      clea
      12/12/2013 at 20:56 #

      Querido

      O Natal lembra muito nossa mãe. Como ela gostava dessa época. Que bom que você gostou. Beijos
      Cléa

  4. Carmen
    12/12/2013 at 16:52 #

    Cleíta, sinto afinidade com seu pai. O natal me incomoda “quase muito”. Mas, lendo sua crônica, até dá vontade de festejar….
    Trocar abraços é sempre delicioso. Sintam-se abraçados. Você e sua linda família, que rende estórias tão encantadoras. Tim tim e arrepios pela brisa!

    • Cléa Sá
      clea
      12/12/2013 at 20:52 #

      Carmencita querida,

      obrigada por me ler e, mais ainda, por gostar. Nos lhe abraçamos também

      Cléa e família

  5. Lucas Marques
    Lucas Marques
    12/12/2013 at 16:23 #

    O que fazer com o tempo, as mudanças e os natais? Lindo texto, sempre boa a passagem da bicicleta; “não, tu não, tu não precisa andar, tu já é o dono” . Lembrei de um natal bem atribulado lá em casa rs rs, já em tempos mais recentes… mas já é uma outra história. Este ano estaremos juntos. Feliz Natal!! bjs bjs

    • Cléa Sá
      clea
      12/12/2013 at 16:25 #

      Você me fez lembrar. Cruzes! Beijos
      Cléa

  6. dina
    12/12/2013 at 13:14 #

    Belas memórias de tua infância. Lembrou muito os natais da minha. Muito parecidas as nossa histórias de vida familiar. A medida que fui lendo a tua narrativa, fui vendo cenas da minha infância brotando das tuas palavras. Coisas de família grande e de modestos recursos que no entanto proporcionaram uma infância rica e feliz. Papai também incentivava a criatividade de seu clã na feitura dos Presépios, que era tão mais valorizado que a árvore de natal. toda a família participava deste evento, colaborando, emprestando algo de seu dom na construção do Presépio e na preparação do natal. Parabéns, Clea, pela linda crônica. Você cada vez mais poeta em tuas lindas estórias. Me emocionei pra caramba. Um grande abraço. Aproveito a oportunidade para desejar um Feliz natal e próspero Ano novo.

    • Cléa Sá
      clea
      12/12/2013 at 16:27 #

      Dina,

      Obrigada , Dina. Acho bom quando as histórias propiciam outras lembranças, são encontros não programados e sempre bem-vindos. Feliz Natal para você. E para todos da família. Um abraço
      Cléa

  7. Cléa Sá
    clea
    12/12/2013 at 12:16 #

    Obrigada, Vicente, querido irmão e poeta. Que bom você ter gostado. Beijos
    Cléa

  8. Vicente Sá
    12/12/2013 at 11:29 #

    Que Bela crônica. A oesia andou do seu lado todo o tempo. Emocionei-me novamente como se já tivesse lido esta crônica em outro tempo. Linda demais. Agradeço.
    Vicente Sá