Cléa Sá

Sobre a homofobia

Escutei, ontem, no rádio duas notícias tristes: um casal de mulheres brigava em frente a um bar e alguém chamou a polícia. Não consigo lembrar o nome da cidade, mas deve ser uma do entorno de Brasília pois os policiais que atenderam à ocorrência eram de Goiás. As mulheres foram agredidas verbal e fisicamente pelos soldados, sendo que uma moça teve as pontas dos dedos cortados pela porta do carro e está hospitalizada em hospital do Gama. Ouvi o depoimento de uma delas, narrando os fatos numa voz doce e entrecortada de soluços. O porta-voz da Polícia de Goiás disse, também ouvi, que os soldados foram agredidos !!!!. E a outra notícia: uma jovem estudante da UnB foi agredida por um homem com socos e pontapés e também insultada por ser lésbica. A idade do agressor está entre 18 e 22 anos. Ouvi a gravação da mãe da jovem: ela fala do caráter e da inteligência da filha e da sua opção pela homossexualidade. E abomina o agressor, a quem chama de louco. Complementando, a jovem está com braço e perna enfaixados e temerosa de voltar às aulas.
Resolvo pesquisar na internet sobre o assunto e, estarrecida, leio que “no ano passado, por opção sexual, 266 seres humanos foram mortos no Brasil. Em 2010, os assassinados por homofobia foram 260. Nos últimos exatos 20 anos o Brasil assistiu, quase em silêncio, a 3.072 homossexuais e transexuais serem assassinados, informa o Grupo Gay da Bahia – GGB. Isso sem contar a subnotificação, aquelas mortes que não são comunicadas ou não têm expostos os motivos.
O segundo colocado nesse ranking grotesco é o México, com 35 mortos a cada ano e os Estados Unidos, com 25 assassinatos anuais, é o terceiro na tabela”.
O que dizer face a esses números?
Estamos em 2013, já está completo o mapeamento do genoma humano, a aplicação terapêutica de células-tronco é realidade, transplantes de toda sorte são feitos, o homem que já tinha ido à Lua inicia sua jornada para Marte, a consciência dos direitos humanos é uma verdade universal. O Brasil, que ocupa a 6º posição na economia mundial, tem combatido a miséria com relativo êxito, milhares de pessoas sairam da pobreza, a educação básica está democratizada (não me atrevo a falar da qualidade do ensino que ainda deixa muito a desejar) e daqui a pouco as pessoas, conscientes dos seus direitos, vão batalhar por melhores serviços de saúde, transporte e educação. Em alguns campos, no entanto, há ainda muito o que fazer. E é na questão sexual que fica mais evidente o nosso atraso.
Como ser o primeiro em crimes por homofobia? Por que não aceitar as decisões pessoais no campo da sexualidade? Por que a violência contra os que fogem do padrão habitual? (Não digo padrão normal pois duvido qua alguém possa definir a normalidade tanto nesse como em outros campos).
Onde está o amor? Apenas em jovens casais, belos e saudáveis, como se saidos de uma propaganda de tv? Não estará em dois velhos, octogenários, como os do filme Amor, de Hanekee? Nos dois cowboys de O segredo de Brokeback Mountain? Em duas mulheres que partilham interesses e afeto? Em dois homens que também, corajosamente, fazem o mesmo? E por que tantos se sentem tão incomodados que necessitam agredir, xingar, bater, ferir, matar? A explicação sempre dada é que são homossexuais enrustidos, resposta que além de não convencer me parece  desrespeitosa para com os homossexuais
Acho que é mais grave. São seres incapazes de amar e de entender o amor, de compreender o humano. A educação e o exemplo que tiveram foi de desrespeito para com o outro e o pior é que vemos muito esses comportamentos ligados a credos religiosas.
Então podemos andar o que andarmos, progredir o que progredirmos, avançar o que avançarmos. Enquanto mantivermos este recorde e estes fatos se repetirem somos um povo atrasado, subdesenvolvido, mal educado e para isto só temos um nome: barbárie.

Sem comentários ainda.