Cléa Sá

“O inverno da nossa desesperança” ou “Faz escuro mas eu canto”

Há alguns títulos de livros ou de filmes que ficam me acompanhando sem que eu saiba bem a razão. Ficam pela sonoridade? Pelo sentido que podem ter? Não sei. Sei que ficam e eu me pego imaginando possíveis enredos para aqueles longos títulos que me vêm.

Andei uns dias com “Longa jornada noite adentro” me acompanhando. E hoje apareceu mais um, “O inverno da nossa desesperança”. Descubro no Google que “Longa jornada noite adentro” é uma peça de teatro escrita pelo dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill que mostra um dia na vida de uma família toda errada: um pai sovina, uma mãe viciada em heroína, um filho mais velho que só quer saber da boa vida e um mais novo, álter ego do próprio autor, que está tuberculoso, doença séria quando a peça foi escrita. Uma história triste. De “O inverno da nossa desesperança”, livro do também norte-americano John Steinbeck, que li há muito tempo, confesso que não me lembro de nada e não pretendo descobrir agora. Fico com o título e com um novo enredo, o do meu inverno e da minha própria desesperança.

É verdade, o meu inverno chegou. O tempo da velhice, já anunciado por pequenos sinais, às vezes antecipado por algum acontecimento triste, outras vezes adiado por alegrias e esperanças nem sempre atendidas, agora parece que chegou para ficar. Desesperançada por isso? Não, não só por isso. Apenas um pouco. Até me dá certo alívio criar coragem e aceitar de vez essa velhice tão anunciada. Vejo com agrado e até acho bonitos meus cabelos cor de chumbo claro, gosto de não me incomodar mais com a opinião alheia, de não acreditar indiscriminadamente no que vejo escrito em jornais, revistas e na internet, de aceitar com tranquilidade alguns dos meus defeitos e de continuar sem aceitar outros, de ter quase total liberdade. Não, ser velho não é o pior. Mas, por favor, não me venham com eufemismo, nada de “melhor idade”. A velhice chega e ponto. É um tempo de vida como os outros, com coisas boas e ruins. Algumas, por sinal, bem ruins. Mas é só dar um mergulho no passado e vamos nos lembrar de como a nossa total dependência dos outros nos fazia mal na infância, de como sofríamos na adolescência com as mudanças no nosso corpo e como tínhamos medo de não sermos aceitos pelos nossos iguais, de como era dura a vida adulta e a nossa necessidade de ganhar o pão, criar e educar filhos, cuidar de casa, enfrentar chefe, e por aí vamos. Não, todas as etapas da vida têm as suas singularidades para o mal ou para o bem.

A desesperança do meu enredo é mais pela situação geral, por tudo o que nos chega de perto ou de longe.

Posso fazer uma lista de acontecimentos que nos deixam desesperançados sem nem piscar. E sobre eles nada podemos fazer: apenas olhar, pensar, sentir. Por vezes nos indignamos, outras nos assustamos, muitas nos levam a duvidar da humanidade, já que a ideia de progresso há muito foi abandonada e por muitos, entre os quais me incluo.

Que dizer sobre os haitianos que chegam ao Brasil fugindo da precária situação em que vivem no Haiti e que se deteriorou de vez com o terremoto de 2010? E sobre os bolivianos que trabalham em condições quase idênticas às do tempo da escravidão, em ambientes fechados, mais de 16 horas por dia? E a situação dos nossos índios – a luta em defesa de suas terras, a incidência de doenças nas aldeias, a violência e o preconceito dos quais são vítimas? E os nossos jovens que morrem de morte violenta tão cedo e cada vez em maior número? E das forças que deviam ser guardiães da ordem e da justiça e que geram cada vez mais desconfiança e medo?

Eu continuaria por mais tempo a enumerar as nossas mazelas se não me viesse à mente outro título de livro, desta vez o “Faz escuro, mas eu canto”, de Thiago de Mello. É um livro lançado no tempo da ditadura, quando tudo era breu e mesmo assim os poetas continuavam a sua lide.

E aí procuro o que cantar. E começo louvando Ariano Suassuna, que além de fazer uma palestra na Bienal que deleitou todos que a ouviram, e nela falou da sua esperança e confiança em dias melhores, se deitou comodamente no chão do aeroporto de Brasília, mostrando sua independência quanto ao que possam dizer ou pensar. E louvo o cineasta Vladimir de Carvalho, que tive o prazer de conhecer outro dia, valor maior do cinema brasileiro, e que está fazendo um novo filme, desta feita sobre o pintor pernambucano Cícero Dias. É só esperar. E louvo o jogador Daniel Alves por sua presença de espírito e sua forma bem humorada de detonar a torcida racista lá da Espanha. E louvo com gosto o Papa Francisco, que está arejando os porões e desvãos da Igreja e trazendo um pouco de alegria à nossa triste Igreja. E louvo os dois novos santos da Igreja, os santos João XXIII e João Paulo II. E louvo a cirandeira Lia de Itamaracá, patrimônio vivo do estado de Pernambuco. E ainda louvo Brasília que fez aniversário e o seu lindo céu, cantado e fotografado por muitos e que alguns desejam que se torne patrimônio imaterial da humanidade. Não sei se é para tanto, mas é “o céu que nos protege” e nos acalenta e nos inspira.

Agora que outro título me apareceu, encerro esta conversa um pouco mais feliz por descobrir que teria muito ainda para louvar. Que bom!

16 Responses para ““O inverno da nossa desesperança” ou “Faz escuro mas eu canto””

  1. Julieta Monteiro
    01/05/2014 at 01:01 #

    Cléa, sinceramente, adorei seu texto. Muito bem escrito, de fácil leitura e gostoso de passear pelos seus trechos de ode a Pernambuco, terra do seu pai. Você foi perfeita no entrelaçamento que fez dos seus sentimentos: com o tempo que passa na janela dos nossos olhos e a literatura que marcou suas lembranças. Espero receber outros escritos desse quilate. Não é a toa que você é irmã do nosso poeta, Vicente.Nota dez para você. Parabéns. Sua cunhada e amiga, Julieta Monteiro.

  2. Nome (Obrigatório)
    30/04/2014 at 11:00 #

    “Vou fazer a louvação
    Louvação, louvação
    Do que deve ser louvado
    Ser louvado, ser louvado”
    ……………………………………….
    ……………………………………….
    ……………………………………….
    ……………………………………….

    ‘Louvando a Quem Bem Merece
    Deixo o Que é Ruim de Lado’…

    • Cléa Sá
      Clea
      01/05/2014 at 11:59 #

      Oi, Julita

      Pernambuco está mesmo sempre nas minhas lembranças. E você tem razão.: deve ser pelo fato do meu pai ser pernambucano. Grata por suas palavras generosoas. Um abraço
      Cléa

    • HAMILTON LEDA
      02/05/2014 at 18:51 #

      OOPS! Perdão Cleíta!

      E não é que esquecí de escrever o meu NOME na minha MENSAGEM/OPINIÃO anterior? Coisas da idade; fazer O QUE??rsrsrs
      Notável texto que escrevestes! Li e me embeveci!
      Abraço fraterno do,
      PRIMO

      • Cléa Sá
        Clea
        02/05/2014 at 21:32 #

        Oi, Primo querido[,
        agradeço suas amáveis palavras. Um grande abraço
        Cléa

  3. Elisabete
    29/04/2014 at 19:29 #

    Cleinha, terminei a leitura de seu texto, louvando a vida, que me foi dada não sei até quando, por tudo que vejo de belo, pela humanidade que presencio em pequenos atos e grandes lutas e por conhecer pessoas que fazem valer sua caminhada – como você. Parabéns por sua escrita, por sua angústia, por sua busca e por seu amor à vida – pelo seu canto no escuro! Beijos.

    • Cléa Sá
      Clea
      30/04/2014 at 00:08 #

      Oi, Bete, que bonito o que você escreveu. Obrigada,! Temos de sofrer e cantar. Um abraço
      Cléa

  4. Vicente Sá
    28/04/2014 at 23:40 #

    Está escrevendo e viajando cada vez melhor, irmãzinha.Nesta me enganaste direitinho quase caindo na tristeza. Que bom que concluis que ainda vale a pena cantar ou louvar.
    Vicente Sá

    • Cléa Sá
      Clea
      29/04/2014 at 10:00 #

      Grata por suas amáveis palavras, Maria Luiza. Um grande abraço
      Cléa

  5. Maria Luiza Medeiros
    28/04/2014 at 19:50 #

    Oi, minha querida amiga. Seu texto esta otimo trazendo um tema polemico de uma forma atual e reflexiva.Continue nesta pauta! Parabens!!! Bjs.

    • Cléa Sá
      Clea
      29/04/2014 at 10:01 #

      Que bom que você gostou. Vindo de um poeta, o elogio é dobrado. Bjs
      Cléa

    • Cléa Sá
      Clea
      29/04/2014 at 10:02 #

      Obrigada, Maria Luiza. Acho bom que você leia e opine. Sua opinião é muito importartante.Um abraço
      Cléa

  6. Cléa Sá
    Clea
    28/04/2014 at 18:47 #

    Obrigada, Odette querida. E você tem razão: Só a esperança nos ajuda nos “momentos de dor”. Um abraço
    Cléa

  7. vinicius souza
    28/04/2014 at 17:58 #

    e eu louvo a voce, cleita.que novamente nos brinda com um lindo texto de esperança sem negar a dura realidade. cantemos

    • Cléa Sá
      Clea
      28/04/2014 at 18:45 #

      Grata, Vinicius, por me incluir na louvação. Louvemos e esperemos. Um abraço
      Cléa

  8. odette, a maciel e não a chacachiro
    28/04/2014 at 16:48 #

    Muiuto lindo, pricipalmente o “canto de esperança” que persiste nas nossas vidas. Verdade que nos momentos de dor, silência e espera,quetinho, a hora de novamente ocupar lugar Odette

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