Cléa Sá

Dos sonhos

Minha mãe, quando jovem, sonhou que voltava para casa e se surpreendia na chegada. Não era a sua casa, era outra de formato inusitado, quadrada, em uma cidade desconhecida e ela estava tomada de angústia. Passaram-se os anos e com a morte de meu pai ela veio morar em Brasília. E numa tarde em que voltava do trabalho, ao chegar se deparou com a casa com que tinha sonhado na juventude. Era a casa da W3 Sul onde morava então e ela estava tomada da mesma angústia do sonho.

Meu pai sonhou que estava na janela de sua casa em Pedreiras e via passar na rua, cabisbaixo, um desafeto seu da política local. Ele não hesitou: alugou uma casa e nos mudamos, enquanto a nossa casa era reformada para ser incluído um segundo andar. Ele já desejava a reforma e o sonho apenas deu o empurrão decisivo? Não sei. O que sei é que os sonhos sonhados sempre estiveram presentes nas nossas histórias de família.

Ultimamente tenho sonhado muito. E têm sido sonhos cheios de aventuras, pessoas novas e acontecimentos que não fazem parte do meu dia a dia. Exemplos desta semana: sonhei que tinha dois netinhos gêmeos e negros. Era uma graça. Sabidos, dançavam funk e um deles dizia sou o “neguinho da vovó”. Incorreto politicamente? O inconsciente não liga pra essas coisas. Ontem eu tinha duas filhas em idade escolar que iam estudar em Paris, em um colégio religioso. O melhor do sonho: eu ainda lia o francês.

Já acordo pela manhã procurando lembrar os sonhos, vez que estão mais interessantes que a minha vida real, rotineira de dar dó.

De onde vêm os sonhos? Não me atrevo a tentar o caminho das explicações. É matéria séria para freudianos, junguianos, lacanianos, esse povo sabido em questões do inconsciente. Só o que sei é que gosto de sonhar, de anotar meus sonhos, de me debruçar sobre eles. De alguns mal lembramos, são apenas résteas, neblina esfumaçada, pequenos sinais que buscamos desesperadamente e nada conseguimos encontrar. Outros nos trazem da noite ações que não viveremos mais ou não vivemos nunca, noites de volúpia, crimes escondidos, uso de roupas extravagantes, compras infindáveis. Alguns sonhos têm origem clara: são desejos que não realizamos e eles se encarregam de nos providenciar a reparação. Outros ainda são fáceis de identificar, como quando sonhei que tinha um porquinho de estimação e identifiquei de imediato sua origem: uma mistura do que estava lá na infância, no Marquês de Rabicó, de Narizinho, e nos dias atuais, em meu lindo e querido cachorro Corisco. Mas alguns são difíceis de entender. Como explicar uma noite em que assisto muçulmanos em noite de orgia e logo sendo substituídos por católicos fazendo o mesmo? De onde vem esta noite de transgressões que envolvem religiões e que assisto impassível e sem nenhuma crítica. Pena que eu não esteja fazendo análise. Quanto material desperdiçado. Sozinha, quase não sei o que fazer com eles, embora tente. Saudades de Adeane!

Há muitos anos, desejosa de dar uma guinada na vida e ainda cheia de dúvidas, sonhei que estava no patamar da Igreja de São Benedito, em Pedreiras, e uma mulher me oferecia umas plantas em pequenos vasos e eu, indecisa, perguntava ao meu pai, já morto, mas que estava ao meu lado, a sua opinião. E ele me dizia: “se você cuidar bem, elas crescerão e ficarão bonitas”. Foi o gatilho. Da minha interpretação do sonho arranquei a coragem para as mudanças.

Alguns sonhos são esquecidos de imediato. Outros, mesmo sonhados há tempos, persistem e sempre voltamos a eles com inquietação. Há muitos anos sonhei que era uma pobre mulher vivendo na Idade Média. O senhor das terras mandou enforcar meu filho e eu teria de assistir e concordar com aquela provação. E era o que eu fazia. Ajoelhada dizia, sim meu senhor! Sim, meu senhor! Mas enquanto pronunciava as palavras de concordância, eu dizia dentro da minha alma palavras insultuosas àquele ser monstruoso e sentia a injustiça como a mulher dos tempos atuais que sou.
Outra vez sonhei com o fim do mundo. Tínhamos de embarcar em um foguete para outro planeta e na hora do embarque meu filho mais novo sumia. Empurrada para dentro da nave, eu partia aos prantos sabendo que jamais veria meu filho outra vez. Um sonho triste que aconteceu de outro modo, quando o meu mundo teve fim.

Mas também guardo sonhos bons. Dois deles ainda me acompanham. Em um deles eu voava livremente sobre a torre de TV e sobre o Parque da Cidade. Que gozo! Que liberdade! Em outro, vivi uma experiência de amor. Entrava em um bosque e seguia por uma trilha, o coração batendo acelerado, pois ia ao encontro de meu amante. Nós nos amávamos e amávamos muito. Talvez jamais tenha amado alguém como amei naquele curto sonho.

Os sonhos são a “linguagem esquecida”, título muito feliz de um livro de Erich Fromm, que li há muitos anos. “A interpretação dos sonhos”, de Freud, é um dos mais belos livros que já li tanto pelo interesse que o livro nos causa como por sua bela maneira de escrever, um escritor inigualável. “Memórias, sonhos e reflexões”, de Jung, é outro livro importante para mim. Observamos em sua leitura que para Jung o que vive e o que sonha têm a mesma importância. Ele não dá valor menor aos sonhos e é por eles que muitas vezes pauta a sua vida.

Contam que Sócrates sonhou que tinha em seus joelhos um filhote de cisne, cuja plumagem cresceu num instante, e que levantou voo para emitir um doce canto. No dia seguinte Platão lhe foi apresentado como discípulo, e imediatamente Sócrates disse que ele era a ave do seu sonho. (1)

A Bíblia está cheia de histórias de sonhos e de interpretações. José, décimo filho de Jacó, é o sonhador-mor. Invejado pelos irmãos, é vendido como escravo e tem uma vida aventurosa. Sempre sonhando e interpretando seus sonhos e também os sonhos que lhe contavam. Até que é chamado a interpretar os sonhos do faraó do Egito, o que ele faz com tanta propriedade que é alçado ao posto de primeiro ministro. Vale a pena ler a história. Está contada no Gênesis, capítulos 37 ao 50. Sobre esse tema, Thomas Mann escreveu uma obra prima, “José e seus irmãos”.

E para terminar um sonho do Macunaíma, brasileiro por excelência criado por Mário de Andrade e vivido no filme de Joaquim Pedro de Andrade por Grande Otelo, genial como sempre. Ele ardilosamente diz à mãe :
“Mãe, sonhei que caiu meu dente.
– “Isso é morte de parente, comentou a velha”. E na mesma hora, cai para trás e morre.

17 Responses para “Dos sonhos”

  1. Adeane
    17/04/2014 at 15:07 #

    Clea, você tem toda razão. Trata-se de um desperdício de um material preciosíssimo de análise. Venha me contar seus sonhos.
    Forte abraço.
    Adeane.

  2. Marcello Sá
    17/04/2014 at 00:50 #

    Que beleza de texto onírico, Cleita! Ele me fez recordar de um sonho que a vovó Messias teve e que gostava de contar, aquele da enorme cruz, lembra-se?

    • Cléa Sá
      Clea
      17/04/2014 at 09:03 #

      Lembro-me, sim, Marcello. Aliás pensei em incluí-lo no texto, mas não deu. Aquele sonho de Mamãe é muito bonito e sugestivo. Um abraço e obrigada
      Cléa

  3. Carmen
    16/04/2014 at 18:23 #

    Cleíta, que delícia de texto. Fiquei com vontade de sonhar….

    • Cléa Sá
      Clea
      16/04/2014 at 19:13 #

      Obrigada, Carmencita. Vamos sonhar, sim. Dormindo ou acordados.
      Beijos
      Cléa

  4. max sa costa
    15/04/2014 at 19:47 #

    Muito bom, gostei,.Eu ainda vou a Brasília, ver os parentes que aí estão, tenho um irmão de minha mãe, e vários primos legítimos, nesse rol incluo a Dularzinha que não conheço.

  5. Hamilton Léda (o primo)
    15/04/2014 at 17:50 #

    Parabéns prima Cleíta! Às vezes penso que você jamais envelhecerá; fadada que estás em ser sempre esta mesma mulher: Ora extraordinariamente realista, ora particularmente familiar, ora docemente sonhadora, como agora, ao escrever este singelo texto!

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      16/04/2014 at 00:37 #

      Obrigada, Primo. Você tem razão: pretendo morrer jovem, mesmo que entrada em anos. Um abraço grande
      Cléa

  6. Regina Motta
    Regina Motta
    15/04/2014 at 17:44 #

    Cléa, te invejo por lembrar dos seus sonhos. Que delícia! Tenho o maior complexo de nunca acordar com esses presentes.
    Texto muito lindo!
    Regina

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      16/04/2014 at 00:39 #

      Obrigada, Regina. É uma pena que você não consiga lembrar dos seus sonhos. Meus sonhos são uma parte muito importante na minha vida. beijos
      Cléa

  7. maria eugenia sa
    15/04/2014 at 17:43 #

    sensacional..

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      16/04/2014 at 00:41 #

      Obrigada, Eugeninha. Sua opinião tem peso para mim. Beijos
      Cléa

  8. Junior
    15/04/2014 at 16:31 #

    Muito legal Mãe.

  9. Maria Inês Pestana
    15/04/2014 at 16:03 #

    Que beleza! Nem sei bem o que dizer… talvez só que você é um sonho de pessoa. Obrigada.

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      16/04/2014 at 00:40 #

      Obrigada, Inês. Fico feliz por você ter gostado. Beijos
      Cléa