Cléa Sá

Do Natal

Chego ao final do ano e encerro por aqui as atividades deste blog neste difícil ano de 2015. Nessa conversa vou tentar não falar das nossas agruras, verdadeiras “desventuras em série”. Vou deixar o pensamento vagar e ver o que me surge. O Natal está bem próximo e penso nas andanças de Maria e José em uma noite perdida no tempo buscando abrigo, de hospedaria a hospedaria, sem conseguirem  vaga,  até encontrarem a gruta onde, em companhia de um boi e de um burro, esperam o nascimento do filho, Menino Deus. Não há como não estabelecer paralelo com os milhares de imigrantes que não mais de hospedaria a hospedaria, mas de continente a continente  buscam abrigo e não encontram onde repousar a cabeça. Ah! Com a idade perdemos a nossa inocência e a maneira simples de ver as coisas, estamos  sempre a estabelecer relações, a ver como uma coisa se liga à outra, não há  nada simples, certinho, tudo é nuance. E é bem melhor do que as certezas, o é preto ou é branco dos donos da verdade. Lembro-me de que há alguns fui conhecer Israel e  visitei Belém, cidade do nascimento de Jesus. Lá, sobre a gruta que abrigou Maria e José, construíram por ordem de Santa Helena, mãe do imperador Constantino, uma grande Basílica, a da Natividade, que tem uma história surpreendente: nunca foi destruída apesar das constantes guerras no local. A história conta que quando da invasão dos persas eles iam pôr fogo na igreja quando viram os azulejos representando os 3 reis magos e neles se reconheceram, se viram ali representados, deixando a igreja intacta. Pois bem, visitei o local onde consideram que estava a manjedoura que é  marcado  por uma estrela de prata cheia de pontas e não consegui me concentrar e pensar em nada. Acho que procurava um presépio. De Belém a lembrança mais forte que guardo é a do muro que a separa creio que de Israel, não tenho certeza, dos postos de passagem cheios de soldados, e nós, viajantes dentro do ônibus com os passaportes na mão. Lembro-me  também  que tive medo.

Por conta de Belém e da época, leio sobre o Natal e descubro que foi  São Francisco de Assis que idealizou e montou o primeiro presépio  na cidade italiana de Greccio, em 1223.  A ideia surgiu enquanto o santo lia, numa de suas longas noites dedicadas à oração, um trecho de São Lucas que lembrava o nascimento de Cristo. Resolveu então montá-lo em tamanho natural, em uma gruta. O que restou desse presépio encontra-se atualmente na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Acho que dos santos São Francisco é meu preferido e amei saber que foi ele o inventor do presépio.

Sempre armo um presépio por essa época. Este ano estou passando por um tratamento difícil que tem me tirado o ânimo, mas nem por isso deixei de montar  o meu pequeno presépio. Poucas e pequenas figuras esculpidas, Maria, José, um pastor, um burro, um boi, dois carneirinhos, dentro de uma cesta de vime, o que me consola e alegra. E me faz lembrar os muitos presépios feitos durantes os anos da nossa infância por minha mãe, os mais belos que já vi. Tudo feito por ela em papel ou papelão, pintados, colados, armados. De suas mãos saíam  montanhas, vales, casas,  tudo pequenino e sempre havia um lago com patinhos e mato de verdade pois ela desde novembro plantava arroz em casca para que no Natal tivesse capim ao redor da gruta.
Parece sempre que as melhores coisas ficaram no passado, mas não deixa de ser um engano. É como se pegássemos uma pintura antiga e começássemos a retocá-la: essa figura não precisa estar aqui, vamos retirá-la, este colorido está fraco, vamos incrementar as  cores,  e acrescentamos e excluímos até ficarmos com uma bela e perfeita imagem de um Natal da nossa infância. Não deve ter sido do jeito que nos lembramos, deve  ter havido lágrimas, decepções, alguma briga … Mas  passa a valer a lembrança refeita e  não custa aceitarmos: nem sempre o presente é consolador. Mas o Natal  está bem aí, o novo ano também e nesta conversa  desejo a todos belas festas, que deixemos de lados os poderosos e suas buscas por mais e mais poderes, e nos concentremos nas pequenas e belas coisas da vida, na amizade, na solidariedade, e que vivamos de um jeito bom para criarmos novas lembranças que não precisem ser muito retocadas no futuro. Feliz Natal a todos vocês que acompanharam e prestigiaram este modesto blog e espero reencontrá-los  no próximo ano. Até!

12 Responses para “Do Natal”

  1. vinicius
    25/01/2016 at 00:03 #

    Passo por aqui, ganho o dia 🙂
    sensacional,

  2. Regina Motta
    Regina Motta
    25/12/2015 at 17:56 #

    Clea querida, que forte emoçao ler sua cronica. Linda, com emoções e elmbranças que afinal são um pouco de todos nós que construimos presépios na infancia e nos assuatamos com as dores dos dias de hoje!
    Obrigada, ainda, belo delicioso e acolhedor momento em sua casa nas vésperas deste reencontro com Jesus! Que Êle te abençoe sempre.
    Beijos, Regina

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      29/12/2015 at 10:04 #

      Regina,

      É muito bom partilharmos nossas lembranças. E bom ter amigos como você. Sua visita, com Josenita, muito me alegrou. Você nem pode avaliar quanto. Obrigada por tudo e feliz Ano Novo.

  3. Marcello Sá
    25/12/2015 at 14:40 #

    Querida Cleita, mais uma vez somos surpreendidos pelo seu talento e sensibilidade. Digo “surpreendidos” porque você sempre nos dá sempre mais do que esperamos de um bom texto. Tive a felicidade de ter passado muitos natais com vocês, família grande e tão querida, e me recordo muito bem dos inesquecíveis presépios de vovó Messias. Obrigado por essa crônica tão linda, que é uma espécie de estrela de Belém que você criou para nos iluminar, nos aquecer e nos dar esperanças nesses tempos tão difíceis.

  4. Maria Luiza
    23/12/2015 at 09:28 #

    Oi, Clea, q cronica ma-ra-vi-lhosa……Parabens!!!!

    Va colecionando para o proximo livro.O meu ja

    esta quase pronto. Quem sabe nos encontraremos

    no lançamento la para o ano q vem!!!

    Estou entrando num programa solidario, vou

    tentar te enviar…. Feliz Natal!!!!!! Bjs.Maria Luiza

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      24/12/2015 at 16:45 #

      Obrigada, Maria Luiza! Espero ir ao lançamento do seu livro. Um grande abraço e feliz Natal
      Cléa

  5. Dina Brandão
    21/12/2015 at 19:54 #

    Querida e saudosa Cleíta
    Que linda crônica de Natal! Lendo-a fui me transportando também para minha infância quando todo ano sob a orientação de meu pai, um apaixonado por presépios, montávamos toda a filharada e os primos, o nosso natal sempre voltado especialmente para o verdadeiro sentido desta festa cristã universal. O nascimento do menino Jesus. O presépio sempre foi o mais importante. Mais que presentes, o que alegrava mesmo a festa era a congregação de toda a gente do bairro, além dos familiares ,que chegavam para ver o presépio que a família montava com muita criatividade e alegria. O Espírito Natalino. Costumávamos também apresentar o Auto de Natal, escrito e dirigido por papai que colocava toda a família, e amigos para trabalhar neste evento. Sinto saudades. Nunca mais houve um natal como aqueles da minha infância. Obrigada, Cléa, teus textos sempre me trazem a agradável sensação de que a vida vale muito a pena. Feliz natal! Que Deus te abençoe! Que o menino Jesus possa encontrar em teu coração generoso e sensível um lugarzinho para nascer de novo e de novo e sempre. Beijos. Tua cunhada( por não existe ex-cunhada) e fã.
    Dina Brandão

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      22/12/2015 at 18:16 #

      Obrigada, Dina, por suas palavras e por compartilhar suas belas lembranças. Feliz Natal para você e todoa a sua família. Somos sempre cunhadas sim, e amigas. Um grande abraço
      Cléa

  6. Thais
    21/12/2015 at 12:14 #

    Tia querida,

    Estou com muitas saudades….que bom que o natal está chegando e poderei vê-la novamente…ouvir um pouco mais de histórias, guardar na lembrança o presépio deste ano, a linda planta do canto da sala transformada em árvore de natal com suas bolinhas.
    E nas lembranças que não precisam ser retocadas…os muitos “natais na tia cléa” estão na memória.
    Beijos

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      21/12/2015 at 15:41 #

      Vamos nos encontrar e viver bons momentos, Thais. Agora acrescidos com a alegria de termos também o pequeno Vicente. Será com certeza um feliz Natal
      Beijos e obrigada
      Cléa

  7. Cléa Sá
    cleamsa@uol.com.br
    21/12/2015 at 09:48 #

    Oi, Alcinda querida,

    Obrigada por tudo o que disse. Nós fazemos parte de um grupo em que nada precisa ser retocado, não é? Amo muito todos vocês
    Cléa

  8. Alcinda
    20/12/2015 at 18:42 #

    Clea, querida, obrigada pela bela mensagem de final de ano, obrigada pelas suas palavras que nos convidam a olhar e valorizar o que há de melhor em nossa vida e que deixam as melhores lembranças: a amizade e a solidariedade! Que privilégio tê-la como amiga, desfrutar de sua riqueza interior, de suas lembranças, que rendem histórias tão deliciosas! Que forma linda de desejar um feliz 2016: “que vivamos de um jeito bom para criarmos novas lembranças que não precisem ser muito retocadas no futuro”. Espero que nos encontremos muito no próximo ano, essas são lembranças irretocáveis! Beijos,
    Alcinda

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