Cléa Sá

Divagações

Pela janela, olho as folhas dos abacateiros dançarem ao sopro do vento. Fico muito tempo nessa atividade, que na verdade não é atividade, é quietude. E enquanto vejo as folhas inquietas, o pensamento anda, passeia, vai ao passado, imagina o futuro, teme o presente. Gostaria de viajar. Ir aonde nunca fui.  Se pudesse, aonde iria? Essa pergunta me agrada e fico me imaginando na China, na Grande Muralha ou na Praça da Paz Celestial,  e aí descubro que não, não quero mais ir à China. Esse desejo não é meu, é de outra pessoa, da moça de 20 anos que lia Pearl Buck e Lin Yutang e admirava Mao Tse Tung. Mas os nomes chineses continuam poéticos e dá gosto pronunciá-los. Quem sabe o Japão? Não, é muito longe. Prefiro ver o Japão nos livros de Tamisaki e Kawabata, as pessoas fazem longas viagens só para ver as cerejeiras florindo e ouvem o som da montanha e têm um lindo ritual do chá. Se eu fosse lá tudo isso me escaparia, eu só visitaria pontos turísticos e logo estaria cansada. Não, vamos pensar em outro lugar. Agora o vento parou de soprar e as folhas do abacateiro também ficam paradas e dá para ver entre elas pequenas nesgas do céu azul e me vem uma frase “picardias estudantis” que não sei de onde saiu, não tem nada a ver com o que estou pensando e nem pode ser título do que estou escrevendo. Deus! Picardias estudantis, o que significa isso? Vou ter de ir ao Google, mas só depois, por enquanto continuo pensando em viagens e escolhendo itinerários. Seguir a pé para Santiago de Compostela é já um sonho impossível. A idade não permite mais. Mas quem sabe de carro ou de ônibus, fazendo alguns poucos quilômetros a pé seria possível? Não custa sonhar. Descer o rio Amazonas em um navio gaiola, navegar pelo São Francisco… Ah! São desejos agora inalcançáveis. Viajar tudo o que desejei não é para uma vida, a não ser para os muitos ricos. Minhas viagens pensadas e desejadas precisaram sempre de um ano de economia. Mas algumas foram de pequeno custo e muito prazer. Como descer um pedaço do São Francisco, de Aracaju até a foz do rio, e ver o seu  encontro  com o mar. Volto a olhar a dança das folhas dos abacateiros e me lembro  que alguns anos atrás um síndico mandou cortá-los alegando que suas raízes prejudicavam os alicerces do prédio.  Ficou um vazio em frente à minha janela e tive uma tristeza bem grande com o que me pareceu um crime. Mas me conformei. O tempo passou e não é que os abacateiros reviveram? Agora os dois estão de novo altos, dão frutos e suas folhas dançam em frente à minha janela. Descubro que “Picardias Estudantis” é um filme americano sobre adolescentes, o que nada tem a ver comigo, mas os dois nomes continuam a me assombrar.  Deixo pra lá. E penso em um irmão muito querido que quando estava muito doente, bem  perto de morrer, viu um Anjo.  Sua empregada me contou. Em um momento em que estávamos a sós lhe perguntei sobre o Anjo, e ele me confirmou, via sim. Ele então já falava muito pouco – falta de desejo ou falta de forças, mas acrescentou: ele está aí, do lado de fora da janela e é uma mocinha índia. Será que também perto do fim serei visitada por um Anjo? E será que acreditarei ou pensarei que é apenas uma criação do meu cérebro doente, uma interferência qualquer da doença nos neurônios, um problema elétrico, alguma faísca?  Ah! Não sei! , mas bem que gostaria de ter a companhia de um Anjo, de preferência um curumim, um anjinho bem brasileiro. Minha avó não gostava de índios e tinha lá suas razões. Ela escapara muito nova do “barulho dos caboclos”, como ela chamava o Massacre de Alto Alegre, quando índios Guajajaras,  liderados por João Caboré, atacaram o povoado e mataram  frades, freiras e os moradores da pequena vila e dos seus arredores. Desejar um Anjo que seja uma linda mocinha índia na certa desagradaria nossa avó, mas desagradando-a ou não  o certo que o Anjo devia fazer companhia e mitigar o sofrimento do meu irmão.  Mas volto ao meu desejo de viajar e descubro que quero ver o mar, andar na areia de uma praia, mergulhar os pés na água, e depois mergulhar inteira nas ondas. Mas tem de ser um mar quentinho, uma praia do Nordeste. As águas geladas do Sul e do Sudeste não me atraem, pelo contrário. Não gosto de frio. Nunca desejei conhecer o Polo Norte nem  a Antártica, aquelas terras de gelo sem fim. Falar em gelo, me lembrei agora do  filme Em busca do ouro: Carlitos na nevasca, a cabana cai não cai no abismo, como é grande o Chaplin. Vou aproveitar que tenho tempo agora e rever seus filmes. Mas por enquanto fico aqui vendo a dança das folhas dos abacateiros…

 

4 Responses para “Divagações”

  1. Thais
    17/11/2015 at 13:26 #

    Olá Tia,
    Adorei ler as tuas divagações, elas por si só já são grandes viagens….Coisa interessante essa de poder viajar pelo pensamento, pelas leituras e pelos filmes. E que bom que os abacateiros resistem…se reinventam..renascem!

    Lembrei também de uma coisa que aconteceu durante a minha gestação esse ano.
    Sempre que as pessoas me perguntavam se eu tinha algum desejo, algum desejo estranho…eu dizia:
    – Tenho sim! Ir para a bahia, tomar um banho de mar quentinho, sentir o corpo leve nas águas e depois, comer um acarajé sentindo a maresia, e vendo as ondas quebrando na areia.

    Acabei conseguindo ir ao encontro desse meu desejo..mesmo a contragosto de muitos… e tu tia? tenho certo que algum dos desejos será possível.

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      18/11/2015 at 15:39 #

      Oi, Thais

      Viajar é sempre bom, mesmo quando ´é apenas pelo pensamento, esta grande ferramenta que nos ajuda. Bom que você conseguiu ir à Bahia. Eu vi foto sua nessa ocasião. Estava linda. Quem sabe também em breve tomarei um banho de mar? Um grande abraço

  2. Maria Luiza
    07/11/2015 at 09:53 #

    Bom dia, querida amiga e colega escritora. Parabens!! Continue com esta disposiçao difundindo seus

    conhecimentos…. Adorei,como sempre sua cronica, sua visita ao passado!!!!

    Um abraço cheio de saudades!!!!

    P.S. Estou escrevendo um novo livro para lançar no principio do proximo ano, depois do carnaval,

    Quem sabe vc estara por aqui…. Bjs. Maria Luiza

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      07/11/2015 at 09:54 #

      Que notícia boa, Maria Luiza. Vou aguardar o livro e se possível, estarei presente. Um grande abraço Cléa

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