Cléa Sá

De velhos sonhos, piano e impossiblidades

Quando o piano chegou, o alvoroço foi geral. Nós, meus filhos e eu, não sabíamos o que fazer enquanto os carregadores o suspendiam em longas cordas e o traziam para o apartamento. Não sabíamos se descíamos e ficávamos na rua olhando o trabalho dos homens, se acompanhávamos o movimento da janela. Os mais novos faziam as duas coisas, desciam e subiam. Eu acompanhei tudo da janela. A essa altura, a sala estava arrumada e o lugar onde o piano seria colocado já escolhido.

Depois, o piano no seu lugar, nós paramos por um momento, embevecidos. A gente o rodeava, olhava de longe, tirava a poeira uma vez, outra vez, mais uma vez ainda. Hesitava até criar coragem para passar de leve os dedos nas teclas, o som ouvido inicialmente com certo temor. Era um sonho antigo, muito antigo, sonhado que foi primeiro por minha mãe.

Eram os anos 1980. Não me lembro dos detalhes, mas sei que o compramos na Casa Milton, no Rio de Janeiro para ser entregue aqui em Brasília. Acho que resolvemos o assunto por carta. Meu filho mais velho, ainda adolescente, estudante de Música, começara a trabalhar na orquestra de Brasília. O maestro Cláudio Santoro gostava de dar oportunidade aos jovens. Nós dois levamos dias e dias a fazer contas até que resolvemos que podíamos, sim, juntos podíamos comprar um piano. E concretizamos a compra. Era uma época de pouco dinheiro e muitas despesas, todos os filhos adolescentes, mas estávamos cheios de energia e de coragem. E como éramos felizes então, meus quatro filhos e eu.

Volto no tempo.

Minha mãe me levou a tomar aulas na cidade de Araioses, quando eu devia ter cinco ou seis anos. A jovem professora me mandou sentar ao piano, examinou minhas mãos e então disse: ainda não dá, ela tem as mãos muito pequenas, só daqui a algum tempo. Minha mãe ficou triste, foi o que me contou. Do fato não me lembro, só dela me contando. Pouco depois meu pai, funcionário público, foi transferido e mudamos de cidade. O estudo do piano ficou para trás.

O colégio Santa Teresa era severo e para tudo se tinha horário. Hora da Missa, hora das aulas, hora do recreio, hora de estudo, hora do banho. Mas havia um horário que me parecia especial e que era partilhado por poucas alunas: o horário da aula de piano. Sempre havia uma freira conosco, tomando conta da “banca” de estudos, como se chamava a grande sala onde nós, meninas, ficávamos por horas estudando ou fingindo que estudávamos. Era ela quem anunciava: Ieda, aula de piano, Marta, aula de piano. Eu ficava atenta e imaginava um dia ouvir a Irmã dizendo, Cléa, aula de piano. Ao mesmo tempo me parecia ser uma coisa muito difícil, talvez impossível. Quanto se devia pagar por uma aula de piano? Devia ser caríssimo. E eu não tinha coragem de pedir ao meu pai. Como podia pedir uma coisa que aumentaria as despesas? Nós éramos muitos a estudar em São Luís e nosso pai fazia grandes sacrifícios para nos manter.

E assim passou o meu primeiro semestre de internato, depois o outro, e o meu sonho de aulas de piano ficando apenas no sonho. Nas férias do final daquele ano criei coragem e perguntei em casa: será que eu podia estudar piano? Meu pai não achou nada de extraordinário. Disse apenas, veja quanto é, mande me dizer. E foi o que fiz na primeira semana de aulas no ano seguinte. Logo obtive a resposta por carta do meu pai: pode começar a ter suas aulas. Diga à Mestra-Geral que acertarei quando for a São Luís. Minha mãe estava feliz, ela também revivia um sonho.

Ah! Com que alegria eu ouvia por fim realmente a frase, Cléa, aula de piano! E saía na maior alegria em direção à sala de música. Madre Arruda, que era nossa professora de Música no Ginásio, e também ensaiava o coro da igreja, era a professora. Era um pouco gorda, a fisionomia tranquila e boa. E era boa mesmo. Com ela comecei meu aprendizado. E passei a ter horas felizes no internato.

Havia um piano de cauda no palco do grande salão de festas. Em uma parte auxiliar do salão, numa espécie de varanda, três pianos para estudo. A gente começava no mais velho e à medida que ia se desenvolvendo mudava para um piano melhor. No piano de cauda, só as muito adiantadas. Certa vez ouvi uma menina da qual ainda recordo o nome, Ieda, tocando uma música linda. Fiquei sem fôlego. Me pareceu a coisa mais bonita que podia existir. Mais tarde identifiquei a música, era a Rapsódia Húngara nº 2 , de Liszt.

Depois de alguns anos saí do internato. E deixei as aulas de piano. Como continuar a estudar sem um piano? Impossível. E assim fiquei por anos e anos até aquele belo dia com que comecei este relato: o dia em que o piano chegou em nossa casa. Só então recomecei a estudar, estudo que vem sendo interrompido vezes sem conta por doenças, perdas, enfim, coisas da vida.

Mas estudar piano ainda é uma das minhas maiores alegrias. Só tenho pena de não tocar a Rapsódia Húngara, de Liszt. E sei que não vai dar tempo.

11 Responses para “De velhos sonhos, piano e impossiblidades”

  1. Carmen
    28/11/2013 at 18:42 #

    Cleíta, da sua lavra sempre há uma boa estória mas essa, em especial, me comove. Desejei estudar piano e não tive a sua persistência…
    Acho que vc precisa começar a estudar a rapsódia húngara.

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      30/11/2013 at 09:34 #

      Carmencita,

      Comece a estudar piano. Vale a pena, mesmo que não se toque coisas difíceis como a Rapsódia Húngara. Qualquer musiquinha dá alegria. Obrigada!
      Beijos
      Cléa

  2. josenita
    27/11/2013 at 18:34 #

    Cléa,

    fui conferir no Aurélio – Rapsódia: trecho de uma composição poética.

    Ou seja, seu texto é isso, uma rapsódia,Só não é húngara, mas isso

    não importa. O que importa é a delicadeza de suas histórias e a emoção

    que nos transmite.

    Bj, Josenita.

    • Cléa Sá
      clea
      28/11/2013 at 11:03 #

      Obrigada, Josenita. Elogio de poeta tem valor dobrado. Obrigada, de novo
      Cléa

  3. Marcello Sá
    26/11/2013 at 00:02 #

    Parabéns, Cleita! Você pode não tocar a Rapsódia Húngara, de Liszt, mas seu texto flui que é uma beleza, chegando aos nossos corações tal qual boa música aos nossos ouvidos.

    • Cléa Sá
      clea
      26/11/2013 at 00:26 #

      Que lindo o que você disse, Marcello. Obrigada! Beijos
      Cléa

  4. Cléa Sá
    clea
    25/11/2013 at 21:55 #

    Regina, obrigada por seu comentário. Gosto quando gostam das minhas pequenas histórias. Você me l~e com bons olhos. Um abraço
    Cléa

  5. Cléa Sá
    clea
    25/11/2013 at 21:54 #

    Querido Primo
    Que bom ler seu comentário. fico grata. Apareça sempre e um abraço
    Cléa

  6. Hamilton Léda (o primo)
    25/11/2013 at 16:57 #

    E S P E T A C U L A R ! Escrever e/ou comentar mais O QUE???

  7. regina
    25/11/2013 at 10:46 #

    Que gostosura de história, Cleíta!
    Posso ouvir a sua voz nos contando…..Você, seus textos e as suas conversas me encantam!
    Grande abraço!