Cléa Sá

De saúde, Dr. Flávio e homem com barriga cortada

O assunto é presente, premente, urgente. O país está com os serviços de saúde em estado grave, e usando a linguagem médica pode-se dizer sem erro que a saúde do povo brasileiro está na UTI.

E surgem de todos os lados propostas para solucionar os graves problemas que  os serviços de saúde enfrentam. Para mim, que  observo comportadamente daqui do meu canto, e não tenho conhecimento suficiente para dizer se tal solução é boa ou ruim, me resta opinar, porque gosto de dar os meus “pitacos”,  baseada apenas na minha percepção. E o que percebo, tristemente, é que  tudo é conversa fiada, conversa para acalmar os ânimos ou conversa para defender interesses corporativos.

Por que não trazer médicos de Cuba? Por que não trazer médicos de Espanha? Vivemos em um mundo globalizado e se lá sobram médicos e aqui nos faltam, por que não trazê-los? Não gosto da história de se pagar os médicos cubanos ao governo de lá. Por que não pagá-los diretamente? Não haveria alguma forma de se reembolsar o  governo cubano? Creio que seria justo, vez que a ele se deve a formação dos médicos, os gastos que tiveram com as escolas, com os professores, e outros tantos gastos. A Espanha vive uma crise: faltam empregos. Por que não trazer então  jovens médicos para trabalhar aqui? Falar é fácil, sei. E eu que de nada entendo como me atrever a apontar caminhos? Mas cabe aos formuladores de políticas, aos que gerenciam o estado, achar as soluções. E nossos médicos, que falam por meio de seus órgãos de classe, não se preocupam com a falta de assistência a parcelas tão grandes da nossa população? Por que então não achar um meio termo. Por que essa reserva de mercado?

A atenção de saúde para o povo é ruim desde sempre. Com uma exceção: Brasília nos seus primórdios. Aqui, antigamente, não se precisava nem de plano de saúde particular, nem de enfrentar dias e noites em fila para conseguir uma consulta. Sei por experiência, pois tive dois filhos aqui, com direito a tratamento pré-natal no Hospital de Base, marcando consultas com tranquilidade e sem precisar pagar exames por fora. Era quando se falava e buscava a “socialização da medicina”. Será que alguém ainda se lembra disso? Acho que caiu no esquecimento, como os serviços que eram prestados então. O SUS, que era para ser a medicina ao alcance de todos, infelizmente não atendeu ao que dele se esperava. Os motivos? Vai saber. Talvez os teóricos, os entendidos saibam explicar. Eu não sei e nem pretendo entrar por essa senda perigosa. Só da minha saúde cuido, e sou uma das pessoas privilegiadas desse país: tenho um plano de saúde que me atende bem, e algum recurso para fazer face às despesas que nele não estão listadas. Mas sou, como poucos,  uma exceção. O que vejo ao meu redor é puro desespero. De uma alergia simples  como a que está afligindo Rose, que trabalha comigo,  ao tratamento de um câncer que assombra outra pessoa amiga, é só espera, desconforto, adiamentos. Conseguir consulta oncológica? Marcar uma cirurgia? Só Deus sabe quando e como.

Nos anos sessenta, quando eu ainda morava em Pedreiras, por acaso vivi uma experiência que muito me marcou. Como meus pais estavam viajando, eu estava de dona da casa.  Aí escuto um barulho vindo da rua,  pessoas falando alto, vozes aflitas e corro para ver o que estava acontecendo. Aí o que vejo é assombroso e assustador: um homem com a barriga cortada de fora a fora, segurando com as mãos as partes na tentativa de fechá-la, e mulheres e  outros homens e todos falando e falando. Procuravam por meu pai, então prefeito da cidade, em busca de socorro. Dos momentos seguintes não me lembro. Devo ter providenciado cadeira para o ferido, pedido ajuda, não sei. Já me lembro de mim correndo para a casa do Dr. Flávio, médico da nossa cidade e que morava na mesma rua. Lá contei a história, o homem tinha sido cortado numa briga,  e pedi socorro. Ele, terminando de almoçar, disse: ” e quem vai me pagar a operação?” Mal acreditei. “Como, pagar?” Aí quase gritei: “eu pago”. ” Como vai pagar se não  trabalha?” E enquanto falava  ia  se preparando para sair, pegando a maletinha preta, sua companheira de sempre. ” Mande levar o rapaz para o hospital, estou indo”. Penso que  a conversa tinha sido só para se inteirar e desanuviar o clima de medo em que eu estava mergulhada.  Saí em carreira novamente. O homem foi para o hospital: se foi operado, se ficou bom,  não sei dizer. Imagino que sim, pois do contrário saberia.  Dr. Flávio, que foi  nosso amigo por anos e anos até sua morte, durante algum tempo me cobrava: “ei, quando vai me pagar o que me deve?” Dessa história só me lembro até aí. De mais não me lembro e até desse pouco que recordo duvido um pouco. Vi mesmo um homem com a barriga cortada, andando sobre seus próprios pés e segurando as tripas que teimavam em aparecer?

Vi, vi mesmo, pois uma história assim eu não teria capacidade para inventar. Mas  essa história me leva a esse médico de nossa cidade que de tudo fazia, de consertar barrigas cortadas a fazer partos difíceis, de tratar afogados e queimados a cuidar de leprosos. Com os leprosos ele tinha um cuidado especial: fazia questão de andar com eles um pedaço da rua, mãos nos seus ombros, na tentativa de mostrar às pessoas que não era uma doença perigosa, que o simples contato não transmitia a doença, que os  leprosos não deviam levar uma  vida confinada. Para quem trabalhava  Dr. Flávio? Não tinha consultório particular, disso me lembro. Atendia no Posto de Saúde, atendia em um pequeno Hospital e fazia visitas às casas dos pacientes. Devia ser funcionário do estado.

Quantos doutores flávios  devem ter por esses brasis afora? Muitos ainda, creio,  e por eles não se perde a fé nessa profissão tão honrosa. Médicos, que venham! Brasileiros, espanhóis, portugueses, cubanos, qualquer nacionalidade, contanto que venham dispostos a  trabalhar para valer nos lugares mais distantes, nas pequenas cidades e nas periferias das grandes. Serão abençoados.

Nota: não me creiam ingênua de achar que só  médicos resolvem o nosso problema. É preciso mais:  hospitais, laboratórios, remédios, enfermeiros, etc. etc.  Mas ter um médico já  é um bom começo. Quem conheceu Dr. Flávio sabe do que falo.

2 Responses para “De saúde, Dr. Flávio e homem com barriga cortada”

  1. Cléa Sá
    clea
    18/07/2013 at 12:51 #

    Obrigada, Marcello querido, por suas palavras sempre tão animadoras. Sabe que tenho me lembrado muito de Frames nesses tempos de crise? Mas a lembrança e o exemplo dela me estimulam a pensar. E lembro também que o Orlando trabalhou na formulação do SUS e tinha grandes esperanças então. Um grande abraço
    Clé

  2. Marcello Sá
    18/07/2013 at 02:18 #

    Querida Cleita, mais uma vez você nos brinda com um belo texto. Quer seja sobre um tema prosaico,quer seja sobre um tema candente e tão complexo como o da saúde no Brasil, você usa com maestria sua experiência, suas memórias e sua fina percepção para analisá-los. Assim como você, acompanho com interesse essa questão da saúde, até porque, filho de uma enfermeira tão dedicada como foi mamãe, cresci ouvindo muitas histórias de lutas e dificuldades em hospitais e postos de saúde públicos. Oxalá consigamos avançar com a urgência necessária nesse setor tão importante para o nosso povo. Porém, enquanto isso não acontece encontramos nos seus textos ‘pílulas’ de sabedoria e bondade que tão bem fazem ao nosso espírito.