Cléa Sá

De rios, viagens e histórias muito antigas

“Não posso oferecer a realidade dos fatos, mas apenas a sua sombra”. Stendhal

É do rio Santa Rosa a minha primeira lembrança de rios. Araioses, por onde ele passava, era uma cidade um pouco triste, as ruas eram um areal onde os pés afundavam, o calor era constante, mas tinha esse belo rio muito largo, de águas barrentas. Era mesmo largo ou era o meu olhar de criança? Dele vinha a água que abastecia a cidade. A da nossa casa, a água de beber, a de lavar louça, a de tomar banho era trazida pelo João, então rapaz, e que se tornou com o tempo o nosso João Velho. Ele carregava duas latas vazias de querosene presas por um pau atravessado no ombro com uma rodela de pano para apoio e ia ao rio enchê-las. Trazia, despejava nos potes, nos filtros e ia buscar mais. Enchia o tanque do banheiro, enchia tonel, dava nem sei quantas viagens carregando água.

Nós também tínhamos uma canoa que ficava presa na beira do rio por uma corrente com cadeado e chave, responsabilidade do João. Um domingo à tarde todos dormiam depois de um farto almoço. Nós, meu irmão mais velho e eu, resolvemos aproveitar o momento raro e matar o desejo muito antigo de andar na canoa. Aldenor conseguiu tirar a chave do cadeado do bolso do João que também dormia profundamente. E aí saímos para o passeio sonhado, levando os nossos irmãos menores, pois nós não quisemos privá-los da grande aventura. Mas a aventura, que seria provavelmente um grande desastre, durou pouco. Mal entramos na canoa e começamos a remar vimos na margem do rio pai, mãe, vizinhos, e logo canoas entraram no rio para nos rebocar e empurrar para a margem. Por incrível que pareça só me lembro dessa história até aí: esqueci completamente o castigo que pegamos. Deve ter sido grande.

Não sei o ano nem o mês, só que eram as férias de fim de ano quando quebrando a monotonia de uma cidade de interior se anunciou a vinda de um grupo de teatro amador de São Luís para realizar espetáculos na cidade. Foi um entusiasmo. O Cine Pedreiras ficou lotado e ninguém se decepcionou. O grupo, formado por jovens estudantes, representou números variados, esquetes, cantos, danças, as músicas da moda. Duas jovens cantaram lindamente Malaguena Salerosa

“Que bonitos ojos tienes
Debajo de esas dos cejas,
Debajo de esas dos cejas,
Que bonitos ojos tienes”

Ninguém quis perder a segunda noite. O cinema ficou lotado na despedida do grupo que viajou logo depois do espetáculo para a cidade seguinte, me parece que seria Bacabal, descendo o rio Mearim. Mas, ai que tristeza! Às primeiras horas da manhã soubemos que o barco sofrera um acidente e quase todos os passageiros tinham morrido afogados. As lindas mocinhas que cantavam em castelhano estavam entre as vítimas e isso nos entristeceu por um bom período das férias. Mas era assim o rio Mearim. Caudaloso, águas barrentas, cheio de peixes e vez por outra fazendo vítimas. Nós não tínhamos medo. Tomávamos banho em suas águas, atravessávamos a nado de uma margem a outra e festejávamos quando havia enchente e as ruas da Trizidela eram tomadas pelas águas, pois podíamos andar de canoa por ruas, pelo campo de futebol. Em nenhum momento pensávamos nas pessoas que estavam sendo desalojadas de suas casas e passando dificuldades. Quanta inconsequência!

O rio Corda foi o mais bonito rio que conheci. Era um rio de águas límpidas, claras, e a gente podia ver os peixinhos nadando ao nosso lado durante os banhos. E muitas histórias nos foram contadas desse rio por nossa mãe e avó .

Uma vez essas águas límpidas correram vermelhas de sangue. Os fazendeiros de certa região se tomaram de ódio dos índios que vez por outra pegava uma rês de suas fazendas e matavam. Aí tramaram uma grande traição: convidaram os índios para uma festa, mataram um boi, serviram bebida, só que envenenada. E logo os índios começaram a cair e logo que caíam eram esfaqueados e jogados nas águas. Por isso o rio correu vermelho. Um triste acontecimento que ocorreu nos primeiros anos do século passado, mas os maus tratos e maldades contra os índios continuam até nossos dias.

Em um trecho os dois rios, Mearim e Corda, se juntavam, mas não se uniam. Corriam lado a lado: as águas barrentas do Mearim e as claras e límpidas águas do rio Corda. Nelas mergulhamos muitas vezes como mergulhei no encontro das águas dos rios Negro, de água preta, e Solimões, de águas barrentas, em um passeio inesquecível na região do Amazonas.

Minha avó uma vez por ano ia a Barra do Corda visitar seu filho Pedro. Sempre escolhia um neto para acompanhá-la. Nós ficávamos torcendo para ser o escolhido e quando foi a minha vez fiquei na maior excitação. Iria conhecer Barra do Corda tão falada, o rio Corda, meus avós maternos. E assim foi. Saímos em um vapor cheio de gente de Pedreiras rumo a Barra do Corda. A viagem durava cerca de três dias e no barco as pessoas escolhiam os locais onde ficariam próximos, atavam suas redes e isso minha avó fez. Aí era ouvir conversa, comer o farnel muito bem acondicionado em latas, olhar as pequenas vilas às margens do rio, dormir mal a noite chegava. Essa foi uma viagem para não esquecer entre os muitos passeios por rios. Sobre uma delas já escrevi, a viagem de canoa pelos igarapés do rio Santa Rosa indo de Araioses para Parnaíba, aproveitando as marés, em uma crônica que chamei “João Cinza”.

De barco fiz muitos passeios e de todos me lembro, de tão bons que foram. Um dos melhores, descer o rio São Francisco de um porto em Aracaju até sua foz, seu encontro com o mar. Belas paisagens e um banho revigorante nas águas do Velho Chico no encerramento.

Em um barco com músicos e cantores andamos pelo rio Moldava, que corta a cidade de Praga e também andamos em um bateau mouche pelas águas do rio Sena. Conheci outros rios de outras terras, famosos como o Tâmisa, o Tibre, mas o que mais me encantou foi o rio Tejo pelas histórias que nos ligam. Além de que é um rio muito bonito. E particularmente, pela águas muito puras e por sua pujança, jamais esqueci o rio Gave, que passa por Lourdes e tem suas fontes nos nevados montes Pirineus.

Fiquei sabendo agora que o rio Tâmisa era conhecido como “Grande Fedor” e em 1858 pelo seu mau cheiro as sessões do Parlamento tiveram que ser suspensas. Mas agora, depois de 120 anos de investimento na despoluição das águas do rio e gastos milhares de libras remadores, velejadores e até pescadores voltaram a usar o Tâmisa, que hoje conta com 121 espécies de peixes.

Isso me dá um pouco de esperança. Nós não temos milhares de libras, mas quem sabe em tempos mais propícios se consiga despoluir os nossos rios Titetê, Sabará, e tantos outros.

Termino esse passeio pelas minhas lembranças de rios com um soneto do poeta Da Costa e Silva sobre o rio Parnaíba, que meu pai gostava de recitar

Saudade

Saudade! Olhar de minha mãe rezando
E o pranto lento deslizando a fio…
Saudade! Amor da minha terra… o rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho… o caburé com frio,
ao luar sobre o arvoredo, piando , piando…
E ao vento as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vão de canaviais ao vento…
As mortalhas de névoa sobre a terra…

Saudade! O Parnaíba – velho monge
As barbas brancas alongando… E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra…

7 Responses para “De rios, viagens e histórias muito antigas”

  1. vinicius
    14/10/2015 at 16:19 #

    de onde veio a frase: “Não posso oferecer a realidade dos fatos, mas apenas a sua sombra”. Stendhal?
    talvez use na tese rrsrsrs

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      14/10/2015 at 16:45 #

      Encontrei essa citação na abertura do livro “Para você não se perder no bairro”, de Patrick Modiano. E é extraída do livro “Vie de Henry Brulard”, de Stendhal. Achei preciosa e a tomei como minha. Use, sim. Eu deixo.

  2. vinicius
    14/10/2015 at 16:18 #

    maravilhoso, como sempre

  3. josenita
    13/10/2015 at 22:28 #

    Cléa,
    que alegria vc me deu me pegando de surpresa
    por aqui com mais uma das suas lembranças/ memórias.
    Minha terra tb tem mtos rios mas o mar e´soberano nas
    minhas saudades.
    Estava com saudades.
    Bj., Josenita.

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      14/10/2015 at 16:51 #

      Pois é, Josenita. Vamos vivendo e carregando nossos rios ou nosso mar. E é bom lembrar. Falar em saudade, onde anda Julita? Bjs
      Clea