Cléa Sá

De rios, matança de índios e histórias de minha mãe

“Tinha lua no céu e eu estava à beira do Mearim. Senti mais do que vi o reflexo da lua no punhal. Pensei que tinha chegado meu dia naquela noite”. Assim ele começava aquela história de traição, amor e quase morte que não sei continuar. Ele também dizia: “Vejo Barra do Corda com os olhos de minha mãe”. Era um poeta esse meu irmão, embora não fizesse versos. Descubro agora que, como ele, a Barra do Corda que vejo é a narrada por minha mãe, a vista por seus olhos.

Minha mãe teve seu primeiro filho aos dezessete anos. Quando eu nasci, ela tinha dezenove. Quase menina, exilada dos seus e andando de cidade em cidade por conta do ofício do marido, ela, assim que crescemos um pouco, nos fez seus confidentes. E matava as saudades da sua infância ainda tão próxima contando histórias da sua terra, do rio que a banhava, de índios, de frades, de freiras, de suas muitas mães e do Cruzeiro no alto do morro que encimava a cidade. Tudo nos parecia mágico e quando mais tarde conhecemos a cidade ela correspondeu às nossas expectativas, pois continuamos a vê-la pelos olhos abençoados que tanto nos abençoaram.

Minha mãe tinha quinze anos e estava na loja do pai atendendo aos fregueses quando entrou um homem pálido, bonito, de luto fechado. Ela sentiu um baque no coração e pensou: vou casar com este homem. E não é que casou? Era meu pai, viúvo, que não contava se também tinha tido um baque no coração, mas contava que mesmo saudoso da mulher que morrera precisava se casar novamente, pois tinha filhos e não podia continuar sozinho. E escolheu casar com uma das filhas de “seu Mundinho”. A mais velha, a primeira em quem pensou, não podia, estava noiva; a segunda, muito bonita, tinha se convertido ao protestantismo e era vista com estranheza; a terceira, como naquela canção infantil, a que sobrou, era a moça que estava na loja. E foi com ela que casou, e para despeito de muitos que não viam aquele casamento com bons olhos dado a diferença de idade, foram felizes. Foi o que sempre me pareceu.

Em Barra do Corda tudo acontecia e de modo superlativo no historiar de minha mãe.  Lá os pobres eram muito pobres, os ricos muito ricos e mandavam os filhos estudar na Europa, os índios eram muitos e andavam em grupo pela cidade e constantemente eram objeto de estudo de estrangeiros. Certa vez um alemão alugou uma casa em frente à de meu avô e lá os índios vinham e ficavam por dias e semanas. As crianças iam espiar, minha mãe entre elas, pois o alemão também ficava nu, como os índios. E se a nudez dos índios era bem aceita, a do alemão tornou-se um escândalo.

Uma professora de minha mãe ficou viúva e pobre e como tinha sido rica quando tinha marido se envergonhava da pobreza.  Ela dizia aos filhos: “meus filhos, sejam simpáticos com o povo”, frase que de tanto ouvir minha mãe contar cheguei a pensar que ela é quem nos recomendava isso. Essa pobre mulher fazia as camisas do filho de morim ordinário, tecido muito barato, mas fazia o peitilho de um tecido bom. Para pensarem que ele se vestia de linho. O pobre moço jamais podia tirar o paletó. Não devia enganar ninguém, senão como minha mãe saberia?

O espiritismo era considerado misterioso e assustador, missionários norte-americanos converteram muitos ao protestantismo e os católicos eram maioria. Como todos na pequena cidade se conheciam e havia um intricado parentesco, uma convivência respeitosa era a norma. Os frades e freiras franciscanos, muitos italianos,  também incorporaram muita coisa dos índios, talvez no desejo de catequizá-los. Assim, nas festas do colégio das freiras canções que falavam de Tupã, Oh! Tupã, onde está Coraci? eram cantadas ao lado dos cantos tradicionais católicos.

Dona Chiquinha, a nossa Mãe-Titia, amedrontava os tolos dizendo que sabia muita reza forte. Era autoritária, zangada e boa de dar gosto. Seu marido, tio Hoíno, desgostoso com ela resolveu ir embora. Não ficou fora nem três dias. Ela rezou e ele voltou de onde estava  a pé, andando por léguas. Chegou com as solas dos pés em petição de miséria, cheias de bolhas. E nunca mais tentou sair de casa. Verdade? Invenção? Não sei. Minha mãe acreditava.

Mas o melhor de Barra do Corda era o rio. As águas do Rio Corda eram brancas, límpidas e transparentes. Você mergulhava e podia  ver seus braços e pernas nos movimentos do nado e podia, se estivesse com sorte, ver  peixinhos  velozes e inquietos nadando ao seu lado. Em Barra do Corda, nos antigamente, os banheiros das casas  só serviam a outras necessidades, todos se banhavam no rio, para onde se ia carregando  sacola com sabonete, toalha,  pente e roupa para trocar.  Quase sempre era uma festa, a começar da saída em grupo. Mulheres, moças e crianças combinavam a hora do banho e iam conversando, rindo, a meninada a correr na frente e atrás das mães. O lugar do banho era chamado porto, havendo separação, um porto de mulheres e outro de homens. Assim tinham liberdade e privacidade e nem precisavam usar maiô ou calção de banho, se banhavam nus.

Certa vez, lá pelos anos 20, aquele rio de águas tão brancas correu vermelho. Mataram tanto índio que o sangue tingiu a água de  vermelho. Foi questão de terra e gado. Os fazendeiros acusavam os índios de matarem o seu gado, os índios se consideravam no direito de matar vez por outra uma rês já que as terras eram deles e os fazendeiros as tinham invadido. Assim viviam às turras. Aí um dia os fazendeiros convidaram os índios para uma festa, para fazerem as pazes.  Os índios aceitaram. Os brancos mataram um boi e serviram aos índios muita comida e bebida. Se houve mais do que bebida, veneno é o que contavam, não sei dizer com certeza. O que sei é que os índios começaram a cair como moscas e então foram esfaqueados, sem dó nem piedade, e atirados no rio.

Quase cem anos se passaram e ainda hoje se mata índio aqui nesses tristes trópicos. Li agora relato do Conselho Indigenista Missionário – CMI que só nos últimos dez anos 560 índios foram mortos.  Todas essas mortes foram causadas pela sempre presente disputa por terras.

E por aqui encerro este ” Conversa vai, conversa vem”. Talvez um dia consiga recuperar aquela história das margens do Rio Mearim e volte a ela. Mas por agora encerro do mesmo modo como nossa avó encerrava as histórias que nos contava à noite: “entrou no bico do pato, saiu no bico do pinto,  quem quiser continuar que venha e conte mais cinco”.

2 Responses para “De rios, matança de índios e histórias de minha mãe”

  1. Cléa Sá
    clea
    25/08/2013 at 11:28 #

    Obrigada, querido Andrés. Relembro e escrevo essas histórias com tanto gosto que fico feliz quando são bem aceitas.

  2. Andrés Ibarra
    25/08/2013 at 10:56 #

    Delícia de escrita, Cleíta. Percebo algo de Barra do Corda em nossos encontros literários, o respeito recíproco. Que nossos rios continuem sempre límpidos e cheios de peixinhos!