Cléa Sá

De poesia, vozes perdidas e um Arcebispo

Um  irmão querido me diz que tenho um olhar cálido sobre o passado. Gostei e considero  verdadeira a afirmação. Agora, nesse pedaço de vida que me resta e que espero não seja muito curto, acho bom olhar para trás e procurar ver o que vivi, o que vivemos, de maneira serena, afastando da cena coisas ruins que então pareciam importantes e que vemos agora quão pequenas eram. Nada de mágoas,  rancores, desafios inúteis. Não podemos descartá-las de todo. Na época talvez tenham sido necessárias. Talvez. Mas agora, não mais. Agora bom é olhar mesmo calidamente o passado e trazer para o presente as belas e boas lembranças. É melhor exercício para o coração que uma longa caminhada.

Como não lembrar com carinho de tantas noites em que reunida a família após o jantar, sentados em cadeiras no jardim,  conversávamos longamente? Histórias do dia, histórias do ontem, histórias de muitos  anos atrás. Histórias dos que morreram,  dos que se perderam de vista, de parentes nunca conhecidos, de ciganos, de presságios, de visões,  de almas de outro mundo… Ah! Quanta história!

Mas o melhor mesmo era quando dizíamos poesia. Lembrar meu  pai com sua voz forte e pausada dizendo os seus versos preferidos “Saudade! Olhar de minha mãe rezando…e terminando com O Parnaíba velho monge, as barbas brancas alongando”… Ah! saudades! digo eu agora passado tanto tempo e perdida para sempre a voz do meu pai.

Recitar poemas não era comum, mas acontecia vez por outra, em alguma daquelas noites.  Madalena, a nossa tia Lena, dizia com muita graça um poema meio matuto de Astolfo Serra: “Tá vendo aquela lagoa, naquela baixa acolá, apois bem, espia dentro, espia que tu verá, a cara da tua cara lá de dentro a te espiar”. A poesia e o nome do autor me vieram de chofre enquanto escrevo e resolvi saber mais e descubro que Astolfo Serra existiu realmente, foi um grande intelectual maranhense e teve também uma vida pública de renome. Chegou a Ministro.

Um dos meus irmãos vinha sempre com  Raimundo Correia em ” se a cólera que espuma e a dor que  mora n’alma, e destrói cada ilusão que nasce”, e era logo seguido por outro irmão que trazia para a cena ninguém menos que Augusto dos Anjos em “Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera” e deixava a todos estarrecidos com os versos finais “Se a alguém causa inda pena a tua chaga,  apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!”

Todos já morreram. Mas os poemas continuam vivos e ao relê-los por vezes penso ouvir de novo suas vozes e se não as ouço, lembro-me deles, e isso quase basta.

Mas volto à tia Lena, que era sobrinha do poeta Maranhão Sobrinho e disso tinha muito orgulho,  e foi quem me encaminhou para os caminhos da poesia e da “declamação”, como se dizia então, na minha infância. Ela escolhia com carinho uma poesia das muitas que sabia e me fazia decorá-la. Depois  me ensinava como dizê-la: onde fazer pausa, onde falar mais forte, onde suavizar a voz. E também me ensinava os gestos que precisavam ser feitos nos momentos precisos. Ai, que aprendizado! Tomava tempo e me impedia às vezes de brincar, mas dificilmente eu me recusava. Gostava daquilo.

Declamar poesia chegou aos ouvidos das freiras do Santa Teresa, para onde fui estudar com onze anos, e me valeu uma grande humilhação. Fui escalada para recitar em festa para receber o novo Arcebispo do Maranhão, Dom José Delgado. O soneto que me deram tinha uns versos em latim, pura maldade, e ao chegar a minha vez, já no palco, só pronunciei  a primeira estrofe: me veio um branco total, pedi desculpas com uma ligeira reverência e saí do palco com vontade de morrer. Talvez tenha sido uma das grandes vergonhas por que passei. Mas finda a festa, o Arcebispo quis conhecer “a menina que esqueceu a poesia”. Lá vim eu, quase chorando. E aí  aconteceu o que eu menos esperava: Dom José passou a mão na minha cabeça e me acalentou suavizando a minha humilhação. Foi o começo de uma amizade que durou anos e me acompanhou pela vida.

Ainda menina, também tive com a poesia o meu primeiro “alumbramento”,  obrigado Manuel Bandeira! Foi ao ouvir um rapaz recitar um poema de sua autoria e nos versos finais dizer com voz forte e  braços abertos: “Ferdinand, o céu é teu!” Pelo pouco que me lembro, o céu lhe era devido pois muito tinha amado e sofrido por amor, o que era exagero poético no mínimo, vez que ele não podia ter mais de dezessete anos. Mas foi lindo.

Já na adolescência,  tive uma amiga poeta, Vanusa. Ouvia seus poemas, líamos juntas   poetas que gostávamos e foi quando me arrisquei, motivada por ela, a fazer uns versinhos. Não sei por onde andará Vanusa. Perdemo-nos de vista. Esqueci sua fisionomia, sua voz, mas foi com ela que se acentuou meu gosto por  poesia.

E esse gosto por poesia, nascido na infância,  me acompanha até hoje e é nele que encontro as minhas maiores alegrias. Ler meus poetas queridos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e tantos outros, descobrir e me apaixonar por um poeta como Paul Celan e Wislawa Szymborska,  reler um poema vezes sem conta, fazer um poema, e, alegria maior, ver um poema escrito  para mim, imerecidamente.

E como o sangue de tia Lena corre nas minhas veias, tenho muito orgulho de ter um irmão poeta, Vicente Sá, a quem dedico esta talvez crônica.

2 Responses para “De poesia, vozes perdidas e um Arcebispo”

  1. Cléa Sá
    clea
    11/08/2013 at 16:50 #

    Bete, tão bom ler uma mensagem como a sua. Fico feliz que você tenha gostado. Beijos Clea

  2. Bete
    11/08/2013 at 13:22 #

    Cleinha,
    havia escrito uma mensagem, mas acho que não enviei. Se for repetida, desculpe-me.

    domingo pela manhã, ler este belo texto seu … você me emocionou; você me emociona. Creio que você é poesia. Obrigada por seu texto, parabéns! Beijos.