Cléa Sá

De pessoas queridas, educação e um sonho

Quando completei doze anos e estava na primeira série ginasial, recebi uma incumbência: substituir minha mãe e escrever as cartas de minha avó para seu filho. Fiquei envaidecida e era com prazer que pegava lápis e papel para fazer o rascunho, que depois caprichosamente passava a limpo com a caneta tinteiro. Começava como era de praxe então: pego da pena para traçar estas mal traçadas linhas… E seguia escrevendo o que minha avó dizia. A cada parágrafo escrito, eu lia para ela que sempre concordava: Como estão todos vocês? Aqui estamos todos bem, as crianças tiveram caxumba (ou coqueluche, ou sarampo), mas já estão bem. E assim seguia com pequenas notícias até encerrar com o “receba a bênção de sua mãe Biluca”. Minha avó, ao que me parece, não sentia vergonha por não saber ler. Ela sabia muitas outras coisas: cuidar da casa, tratar os doentes, contar histórias, quais os chás que serviam para quantas doenças e vivia bem contente da vida.

Já seu Titico tinha vergonha, descobrimos logo. Ele era motorista de um caminhão que meu pai teve certa época e levava as cartas de nosso pai para nós. Chegava ao pensionato onde eu morava então com todas as cartas na mão e me pedia: tire a sua. Fazia do mesmo modo com meus irmãos até que todas fossem entregues. Foi a forma que ele encontrou para cumprir a missão e não mostrar que desconhecia o que estava escrito.

Soror Matozinho, irmã oblata do meu tempo de colégio, também não sabia ler e só descobri isso quando ao terminar o ginásio recebi dela um pequeno livro de oração com oferecimento escrito por outra freira e ela me explicou: pedi a Madre Silveira que escrevesse, pois não sei escrever, disse baixando a cabeça. Ai, querida Sor Matozinho, meu consolo naqueles tempos de internato. Você ouvia minhas histórias e enquanto eu as contava nós saíamos daquele ambiente severo e viajávamos para a África nas aventuras de Tarzan, ou para o México do Zorro e Tonto, ou para castelos franceses nos romances de M. Delly. Isso durou até que seu diretor espiritual a proibiu de ouvi-las, disse que lhe fazia mal. E nós nos entristecemos privadas que fomos do nosso inocente prazer de contar e de ouvir histórias.

O resultado de uma pesquisa que informa que apenas vinte por cento da população brasileira sabem ler e entender um texto mais profundo lembrou-me dessas três pessoas queridas. Quantos desses milhões de brasileiros aceitam que não sabem ler e escrever com a tranquilidade da minha avó? Quantos sofrem e se envergonham como seu Titico? Quantos são impedidos de ler e aproveitar uma boa história como Soror Matozinho? Muitos e muitos. Milhões.

Educação é um tema presente em todas as manifestações que se veem pelo Brasil afora, em todos os discursos, em todos os programas políticos. Estamos sempre pedindo mais verbas para a educação, melhores salários para professores, melhor qualidade do ensino. E até agora nenhum resultado. O que fazer?

Entro no Google e faço perguntas como alguma rainha de história infantil faz para seu espelho: Diga-me, espelho meu, qual país é melhor em educação do que o meu? Aí aparecem países e mais países e me interesso especialmente por dois, a Coreia do Sul e a Finlândia.

E descubro que a Coreia do Sul baseou o seu desenvolvimento na implantação de uma educação de qualidade, centralizada no Governo Federal do primeiro ao último ano do ensino. As crianças estudam de 6 a 8 horas por dia, todas as escolas do país têm internet banda larga. Está em 5º lugar no Programa de Avaliação de Alunos – PISA.

A Finlândia tem o melhor ensino do mundo, ocupando o 1º lugar no PISA. Lá o ensino é descentralizado, a responsabilidade é dos municípios, e os professores, muito bem preparados, têm total autonomia, podendo escolher do livro ao método de ensino a ser usado. A tecnologia moderna não é o forte por lá, mas o ensino é bom igualmente nas mais remotas regiões.

Com esses dois me dou por satisfeita e penso, por esses exemplos, que não há uma fórmula. Cada país precisa achar seu caminho. Aqui ainda estamos longe. A alfabetização é precária. Há escolas e todas as crianças encontram vagas, mas as escolas não são bem equipadas e os professores, em sua maioria, são pouco preparados. Os alunos vão sendo aprovados automaticamente mesmo que não dominem os conteúdos dados, passam de série em série sem conseguir ler ou entender matemática. E vez por outra surgem propostas reducionistas: vamos facilitar a ortografia, vamos simplificar autores de difícil leitura. E assim chegamos a esta triste constatação: oitenta por cento da população brasileira são analfabetos funcionais.

Não tenho proposta a sugerir nesta nossa conversa, não tenho preparo para tal. Mas sonho. E no meu sonho, vejo o Brasil entre os primeiros do mundo no exame do PISA. Vejo as Faculdades de Educação tendo as vagas disputadas por muitos que desejam serem professores. Vejo escolas e mais escolas bem equipadas, embora com simplicidade. Nelas não faltarão quadro-negro, carteiras confortáveis, banheiros bons, quadra de esportes, bebedouros, uma pequena biblioteca e uma sala de informática onde alguns computadores estarão ligados na internet banda larga. Não vejo cada aluno com um tablet, no meu sonho não precisa. Vejo os professores com autonomia para adotar práticas adequadas a cada região e a cada município. E mesmo a cada vila, por menor que seja. Vejo disciplina, vejo delicadeza. Vejo respeito entre professores e alunos, participação das famílias nas escolas. Chego a ver mutirões de pais, alunos, professores, pessoas do lugar que nem filhos têm todos juntos pintando os muros da escola. E é um dia bonito de sol, e eles riem, falam alto, interrompem o trabalho para fazer um lanche que alguns trouxeram, voltam a trabalhar. Ao cair da tarde o trabalho está pronto. Voltam aqueles homens, mulheres e crianças para suas casas, cansados e felizes. Felizmente ninguém se lembrou de hastear a bandeira do Brasil. Não precisava mesmo.

4 Responses para “De pessoas queridas, educação e um sonho”

  1. odette, a maciel e não a chacachiro
    08/06/2014 at 20:09 #

    Cléa. Lindo. Amei. Mexeu com meu coração de educadora. Meus sonhos. Minhas utopias: um Brasil cheio de escola equipadas não luxuosamente mas com tudo necessário para alcançar os objetivos educacionasi; prepara alunos para serem cidadãos de uma sociedade democrática, considerando tudo que contém dentro dessa afirmativa. Gostaria de ler essa crônica na Rádio para, de forma bonita, fazer todo mundo pensar,Todo mundo da educação -governo, família, vizinhos , professores, diretores, cientistas comunicadores artistas, etc, etc. Todos que estão preocupados com escola, com o futuro da nação. Odette

    • Cléa Sá
      Clea
      08/06/2014 at 20:22 #

      Querida Odette,

      Um elogio seu nessa área é um orgulho. Poder ler na rádio, sim. Fico toda prosa. Abraços
      Cléa

  2. Regina Motta
    Regina
    08/06/2014 at 19:30 #

    Cléa, que lindo sonho! E vc sonhou com uma das coisas mais importantes na educação, seja doméstica ou escolar: delicadeza, respeito mútuo, filhos respeitando os pais e os mais velhos, pais respeitando os filhos sem precisar de lei para isso. E alunos e professores…. Que bonito seria, que progresso conseguiriam, nas menores coisas! Obrigada pelo seu sonho, vou tomá-lo emprestado!
    Beijos,

    Regina

    • Cléa Sá
      Clea
      08/06/2014 at 20:24 #

      Obrigada, Regina. Nada melhor que compartilhar sonhos. Não se pode perder as esperanças, não é?
      Um grande abraço e obrigada
      Cléa