Cléa Sá

De Pedreiras

Um rapaz se dizia comunista e era olhado por todos com desconfiança. Outro, funcionário do Banco do Brasil, tinha uma perna mais curta, mas sabia falar inglês. E tinha aprendido sozinho. Era um autodidata. Esse era olhado com admiração. Talvez a palavra autodidata (ou saber falar inglês) lhe conferisse prestígio.

O doido da cidade se chamava Pecuapá. Andava rua acima, rua abaixo, seguia as pessoas, resmungava, dizia nomes feios, sofria com as pedras que crianças lhe jogavam, mas não atacava ninguém. Molambento, sujo, dava dó o doido da nossa cidade.

Um senhor sério, que era sapateiro ou dono de uma pequena sapataria, aos domingos vestia um terno branco e saía passeando de bicicleta pela rua principal. Ia e vinha sem falar com ninguém. Apenas passeava de bicicleta com seu terno claro aos domingos.

Já o cabo Augusto não tirava a farda de policial, nem aos domingos. Era negro e forte e diziam que dava surras em que precisasse, a mando ou por dinheiro.

Tarcísio era um rapaz bonito que sonhava ser cowboy de filme. Estava sempre vestido de preto e no seu cavalo despertava a admiração das moças. Um dia subiu com o cavalo as escadarias da igreja de São Benedito. Coisa difícil de acreditar já que os degraus eram muitos e íngremes.

Um casal de leprosos morava na parte alta, fora da cidade, completamente isolados. Quando a fome era muita, eles se arriscavam a descer e vinham pedir comida. As pessoas davam, mas de longe, ninguém chegava perto. Aí chegou o Dr. Flávio e passou a cuidar deles. Para mostrar que a doença não pegava, andava com eles pelas ruas, punha até as mãos nos seus ombros. Não adiantou de nada.

A “zona” ficava na Trizidela. Lá havia música todas as noites e era onde viviam as prostitutas, pobres e tristes mulheres alegres. Certa vez uma delas, mocinha desesperada de amor, jogou querosene no corpo e tocou fogo. Teve uma morte horrível cheia de sofrimento. E foi seguida por mais uma.

Monsenhor Gerson, o vigário da cidade, era sério e de poucos amigos, mas era leal. Seu prazer maior era cuidar do sítio que tinha lá no Anjo da Guarda. Cuidar das coisas da Igreja era só mesmo obrigação.

Perto do Anjo da Guarda corria um riacho manso, o Insono, de doce nome.

Certa vez correu a notícia de que o mundo ia se acabar. Foi um rezar sem fim. A Igreja ficou cheia dia e noite, noite e dia. Mas aí o mundo não se acabou e tudo voltou a ser como antes: a Igreja só para a Missa aos domingos ou para as beatas, que para estas, mundo acabando ou não, o gozo maior é a reza.

Todos diziam que “seu” Foba era ladrão, mas todos também sabiam que ele não roubava as casas de seus amigos. Também era conhecido por falar a verdade. Se ele dizia não ser o autor do furto, podia-se ficar certo disso e procurar o verdadeiro ladrão por outras bandas.

Mãe Amância, a parteira, morava na Trizidela e ficava feliz quando recebia visita dos meninos que ela tinha “aparado”. Fui um deles.

Madrinha Águeda era negra e boa cozinheira. Também era tia do João do Vale. Mas isso então não tinha a menor importância. Só muito mais tarde João do Vale iria escrever Pisa na Fulô tornando o nome de Pedreiras conhecido e muito mais tarde ainda, depois de morto, fazer com que mudassem o nome da Trizidela para Trizidela do Vale. Por enquanto tia Águeda é apenas uma mulher que cozinha bem e é querida por seus muitos afilhados.

No começo, a cidade não tinha calçamento, não tinha água encanada e a luz elétrica só ia até às 11 horas da noite. Depois só lamparina ou candeeiro. O calor era grande, a poeira subia vermelha no verão e no inverno a lama tomava conta das ruas.

O rio Mearim era largo, barrento e tinha piranha. Ninguém que se arriscasse em certos trechos. Em invernos rigorosos de muita chuva ele enchia, transbordava, invadia ruas e ruas da Trizidela fazendo com que as pessoas abandonassem suas casas. Mas era um rio amigo. Suas águas subiam devagar dando tempo para as mudanças.

Pedreiras!

Às vezes me vejo andando por suas ruas. É tardezinha e não faz muito calor. Desço a Rua Grande devagar, olho e reconheço casas, depois entro à direita e subo a Rua da Boiada, vejo a casa de João Velho em cima do morro, desço, ando mais um pouco e chego às margens do Rio Mearim. Mergulho em suas águas. Saio com olhos cheios d’água. Lágrimas? Não sei. Sei que avisto vultos, sombras. Será meu pai aquele homem em uma roda de conversa? É tia Lena quem está na calçada das Trindade? Será Nair Maranhão aquela que ri e fala alto? Não sei dizer. Pessoas conhecidas, outras que só conheci de vista e ainda algumas de quem só ouvi falar estão presentes neste sonho que acordada sonho.

O que sei de verdade porque me disseram é que o rio Mearim está quase seco e por isso penso que o meigo riacho Insono talvez não exista mais. Meu pai, tia Lena, monsenhor Gerson, Dr. Flávio, seu Foba, cabo Augusto, mãe Amância, Pecuapá e tantos outros já dormem. Todos dormem.

13 Responses para “De Pedreiras”

  1. Chico
    01/12/2014 at 16:14 #

    Pedreiras “Macondo”… um lugar de muitas estórias e “que” estórias!! Muito bonito, parabéns!

  2. Lindo!!Como canta!!!
    24/11/2014 at 19:17 #

    Lindo texto .Não conheci Pedreiras, mas vivi neste momento, por lá, Grande abraço.

  3. Vicente Sá
    24/11/2014 at 11:55 #

    Ler certas coisas na segunda de manhã devia ser proibido. Dá uma saudade de tudo. até do que eu não conheci.

    • Cléa Sá
      Clea
      24/11/2014 at 15:59 #

      Obrigada, querido. Breve tem mais Pedreiras
      Bjs
      Cléa

    • Lindo!!Como canta!!!
      24/11/2014 at 19:15 #

      Lindo texto. Não conheci Pedreiras, mas nesses poucos momentos, vivi por lá. Obrigada.

      • Cléa Sá
        Clea
        24/11/2014 at 19:17 #

        Obrigada, Juci. Também tenho gostado muito da sua “viagem”. Um abraço

  4. Maria Luiza Medeiros
    23/11/2014 at 17:23 #

    Oh! Clea…quanta vontade de estar contigo….Que sensiveis e prazerosas suas cronicas!!! Parece q estou

    vivendo la em Pedreiras …

    Como ja te disse, va juntando e depois reuna em livro q sei vai ser muito gostoso de ler, alem de nos dar

    uma visao historica dos principios da cidade.

    Quando vc aparece por aqui?? Um grande abraco da Maria Luiza.

    • Cléa Sá
      Clea
      23/11/2014 at 19:46 #

      Ter uma leitora como você é um privilégio. Obrigada, Maria Luiza. Um grande abraço
      Cléa

  5. maria eugenia
    22/11/2014 at 09:45 #

    Quando a senhora escreve parece um filme….impressionante, tocante, lindo

    • Cléa Sá
      Clea
      22/11/2014 at 10:18 #

      Obrigada, querida Eugênia. Bjs Cléa

  6. Carmen
    22/11/2014 at 00:53 #

    Cleíta, ontem contava a um amigo o quanto são belas suas lembranças e como as conta bem.
    Pedreiras…..

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      22/11/2014 at 01:13 #

      Obrigada, Carmencita. Gosto mesmo das minhas lembranças. Se as conto bem é por conta da sua bondade. Mas o certo é que gosto de contá-las. Bjs
      Cléa