Cléa Sá

De palavras, frases emblemáticas e poetas

Há força e beleza nas palavras. E muitas têm um encanto peculiar. Existem palavras doces como bem, querida, anjo; dureza em cretino, sem-vergonha, ladrão. A mim causam medo palavras como assassino, porão, soturno, profundo, poço; me fazem sonhar enluarada, estrela, rio, irmão, amante, imensidão; outras me soam lindas: lua, regato, sabiá, sapoti, menina, maresia; e de algumas não gosto: ojeriza, maracutaia, fileira, remendo, porcentagem.

Falando de palavras, me lembro de minha avó que tinha um falar simples de mulher do povo e era incapaz de pronunciar um palavrão. Quando fazíamos muita arte, ela nos chamava de “esses Não-sei-que diga”, o maior insulto do seu vocabulário. No princípio não sabíamos ao que ela se referia. Seríamos uns diabinhos? Acho que sim, porque cada vez ficávamos mais terríveis. E quando brigávamos, era preciso ter cuidado com os xingamentos: qualquer nome fora do habitual era um nome-feio e nos causava grandes repreensões. Também palavras como azar e fracasso eram proibidas lá em nossa casa. Meu pai inventava ou tinha aprendido que no céu havia uns “anjos de boca-mole” que estavam continuamente pronunciando a palavra amém. E assim o amém poderia se aplicar a algumas dessas palavras e aí elas se instalariam em nossas vidas. Podia se contar com isso. Nós acreditávamos no que ele falava e quase víamos os anjinhos dizendo amém, amém, amém a qualquer descuido na nossa fala.

Alguns anos atrás, lendo Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, confirmei o que achávamos: Vovó nos chamava de diabos. Em um trecho, ele enumera os muitos nomes para o Demo e entre eles lá está o Não-sei-que diga. Tenho de medo desses nomes, mas os escrevo só para mostrar a variedade do nosso falar: Arrenegado, Cão, Cramulhão, Indivíduo, Pé-de-Pato, Sujo, Tisnado, Coxo, Azarape, Coisa Ruim, Diá, Dito Cujo, Mafarro, Pé-Preto, Canho, o Duba-Dubá, Rapaz, Tristonho, Não-Sei-Que-Diga, Que-Nunca-Se-Ri, Dião, Dianho, Diogo, Pai-da-Mentira, Pai-do-Mal, Maligno, Tendeiro, o Mafarro, Capeta, Capiroto, Das Trevas, Bode-Preto, o Morcego, o Xu, Dado, Danado, Danador, Diacho, Rei-Diabo, Demonião, Barzabu, Lúcifer, Satanás, Satanazin, Outro, o Ele.

Mas as palavras nem sempre significam exatamente o que dizem como nos muitos nomes dados ao Cão. Estão aí os políticos que não nos deixam mentir. Termos como democracia, justiça social, direitos humanos, combate à corrupção, fim de privilégios, transparência, honestidade, nova política são usados muitas vezes apenas formalmente, sem que aqueles que os usam tenham intenção de cumpri-los efetivamente. Dias Gomes, ao criar o inigualável prefeito Odorico Paraguaçu, faz grande crítica a certo tipo de político brasileiro, infelizmente comum. “É com a alma lavada e enxaguada que lhe recebo nesta humilde cidade”, “Isto deve ser obra da esquerda comunista, marronzista e badernenta”, diz Odorico. Ao rirmos dessas e de outras frases semelhantes estamos aprendendo a cultivar uma saudável desconfiança e quem sabe também aperfeiçoando o nosso senso crítico com relação à política.

Mas as palavras são usadas pelos políticos não apenas para enganar o povo e se manter e perpetuar no poder. Em muitas e muitas ocasiões elas foram fundamentais para inspirar e motivar as pessoas, criar confiança em momentos difíceis das nações, mudar paradigmas, alterar formas de comportamento. Os exemplos são inúmeros.
Churchil quando diz “Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho árduo, suor e lágrimas” clarifica para o povo britânico os sacrifícios exigidos no difícil período da Segunda Grande Guerra. Martin Luther King discursando: “Eu tenho um sonho no qual vejo que um dia esta nação se levantará e cumprirá o seu princípio mais importante: Nós acreditamos que estas verdades são auto evidentes: que os homens são criados iguais pelo seu Criador Eu tenho um sonho. Um sonho de que em algum dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos escravos e os filhos dos donos de escravos estarão sentados na mesa em que todos são irmãos” reforça a tarefa de mudar as relações entre brancos e negros nos Estados Unidos e impulsiona a luta pelos direitos civis.

Quando menina, eu me entusiasmei com o grito do Duque de Caxias “Sigam-me os que forem brasileiros”, lá na Guerra do Paraguai ensinada na escola. Depois de adulta, ao saber das nossas atrocidades contra os paraguaios, a frase perdeu a graça. Meu pai sabia de cor um trecho de Os sertões, de Euclides da Cunha, e o dizia vez por outra. Causa-me o mesmo impacto até hoje e sempre me prometo ler o livro. Era “Canudos não se rendeu. (…) Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.

Meu irmão Petrônio, nascido logo depois de mim, nos apontou caminhos. Por ele tomamos conhecimento da Guerra Civil Espanhola e ouvimos grandes histórias. A que mais me entusiasmou então foi a de Dolores Ibárruri, La Pasionaria, e seu famoso grito de No passarán, lema da resistência republicana às tentativas de invasão da capital espanhola pelas tropas do general Francisco Franco. Foi uma pena eles terem passado. Com isso a ditadura franquista se instalou na Espanha e lá ficou por 37 anos.

É grande o poder das palavras. Quando lemos ou ouvimos o slogan “Faça amor, não faça a guerra” voltamos aos anos 1960 e podemos ver a o surgimento dos hippies, as grandes manifestações contra a guerra do Vietnã, a queda de muitas barreiras sexuais, o surgimento do chamado amor livre, enfim, uma mudança de paradigma.

O movimento estudantil de maio de 1968 na França espalhou-se pelo mundo e penso que isso se deveu não só às ideias libertárias, mas também ao modo como foram expostas em frases fortes como “Sejam realistas, exijam o impossível” e “é >proibido proibir”. Não precisam de explicação e dizem bem do espírito norteador do movimento. Penso que ainda hoje maio de 1968 paira entre nós.

Em junho do ano passado, quando as ruas do país foram tomadas por manifestantes, era bom ver as muitas reivindicações em seus cartazes bem humorados. As ruas estavam cheias de alegria. Não sei se daquele movimento todo virão mudanças, mas lembrar das frases ainda é muito bom. Eis algumas “Podia estar jogando bola, mas estou aqui mudando o país”, “Não são só $ 0,20 centavos”, “Acorda Brasil, vem pra rua”, “Esquece a FIFA e vem pra rua”, “Se o presente é de luta, o futuro nos pertence”, “Vandalismo é não ter saúde e educação”.Ah! O poder das palavras. Pelo menos a PEC 37 não foi aprovada.

Deixo de lado as manifestações e vou para os poetas.

Ao ler de Drummond “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” ficamos nos perguntando o que ele quer dizer com esses versos e de repente estamos diante de grandes interrogações existenciais.

E os versos de Manuel Bandeira

“Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento…”

causam em nós também deslumbramentos e pensamos viver a mesma emoção do poeta.

E não conheço declaração de amor mais bela que a de Mário Quintana em “Solau à moda antiga”:

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto

Manoel de Barros é um poeta ímpar. Espero ser perdoada pelos que entendem de literatura ao dizer o que penso. Ele pega as palavras, as esvazia, as escreve novamente e cria mundos paralelos onde borboletas, lagartixas, árvores dão a tônica e a gente, mesmo sem entender, entende.

Olhem um trecho de Com os loucos de água e estandarte
I
João foi tido por concha
Atrapalhava muito ser árvore – assim como
atrapalhava muito
estar colado em alguma pedra

Seu rosto era trancado
com dobradiças de ferro
para não entrar cachorro
Só um poço merejava por fora dele
e sapos descangotados de luar…

Eu poderia continuar citando poetas e poetas, mas termino aqui esta primeira conversa do ano. Desejo a todos os que me leem um feliz Ano Novo e desejo também que muitos anjos da boca-mole estejam dizendo amém a esses votos.

10 Responses para “De palavras, frases emblemáticas e poetas”

  1. josenita
    14/01/2014 at 09:13 #

    Mundo, mundo. vasto mundo.
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima
    não seria uma solução.

    Parece que é isso, Cléa, que buscamos nas palavras,
    um sentido, um norte para nossos desvarios.
    Se eu me chamasse Cléa poderia fazer um texto assim,
    cheio de estilo e memória, mas se eu sou eu, só posso me
    alegrar por ser amiga da autora ou… morrer de inveja…
    Que palavra feia e peçonhenta, gente. de onde será que escapou?
    Bj, Cléa, seu texto é delicioso,Josenita.

    • Cléa Sá
      clea
      14/01/2014 at 15:19 #

      Josenita, Ai, ai! despertar inveja em você? É a glória. Grata por suas palavras. Cléa

  2. Marcello
    10/01/2014 at 00:34 #

    Olá, Cleita! Felizes de nós que temos você para nos guiar por esse belo mundo das palavras, contando histórias, despertando emoções com tanto talento e sensibilidade. Quem sabe se neste ano você não lança uma coletânea com os seus textos. Tenho certeza de que um volume só não será suficiente. Bjs.

  3. Inês
    09/01/2014 at 15:10 #

    Palavras são sementes.

    Seu texto é uma pequena mostra do quanto você vem semeando nesse mundo. Valeu! Obrigada.

    • Cléa Sá
      clea
      09/01/2014 at 23:49 #

      Obrigada, Inês. Fico envaidecida. beijos Cléa

    • Cléa Sá
      clea
      10/01/2014 at 10:48 #

      Oi, Marcellinho, você sempre me estimulando. É uma bênção. Fico feliz com suas palavras.

      Beijos

      Cléa

  4. Regina Motta
    regina
    09/01/2014 at 11:40 #

    Cléa, o seu texto é o próprio poema! Lindo! Rico! Emocionante!
    Como sempre, mas cada vez melhor!Será que pode?
    Beijos,
    Regina

    • Cléa Sá
      clea
      09/01/2014 at 23:48 #

      Regina, seu comentário me alegra. Obrigada!
      Cléa

  5. Vicente Sá
    09/01/2014 at 10:43 #

    Estás cada vez melhor. Emocionante maravilha. Bjs

    • Cléa Sá
      clea
      09/01/2014 at 23:47 #

      Que bom ler isso. Obrigada, querido Vicente