Cléa Sá

De mentiras, histórias trágicas e alegres e um sermão

De tanto o noticiário dos últimos dias falar em mentira, resolvo me debruçar sobre o tema. Não sobre os fatos citados envolvendo políticos, marqueteiros, depoentes em processos, advogados, policiais e outros tantos, que não vou me meter em vespeiro. Não.
Pretendo que a nossa conversa seja mais amena, já que tenho telhado de vidro e não posso dizer que não minta nunca. Aliás, faz parte do meu folclore uma velha história: na juventude uma grande e querida amiga ficava ouvindo com atenção quando eu contava uma história qualquer da qual ela também tinha participado. E depois, reservadamente, me dizia: Cléa, tu quase mentes! E meu irmão Aldenor, depois de me ouvir contar uma história qualquer da família, dizia: esta é a versão da Cléa, a história real foi assim. E aí contava outra vez o feito. Mas não assumo que minta nestes quesitos, não, não! Assumo apenas que me deixo dominar pela imaginação e busco melhorar um pouco os acontecimentos, pois a mentira segundo o dicionário Houaiss significa “dizer, afirmar ser verdadeiro aquilo que se sabe ser falso; dar informação falsa induzir ao erro”, e essa nunca é (ou foi) a minha intenção.

Sabemos que temos a “mentira branca”, aquelas destinadas a melhorar o relacionamento social, para evitar conflitos e ofensas. Trata-se da mentira socialmente aceita, inocente e destinada a manter a harmonia dos relacionamentos. Seria a mentira boa. E há a mentira institucional, quando a propaganda mal intencionada tenta convencer de que toda corrupção governamental, por exemplo, será devidamente apurada e apenada. Bem ilustra isso, Hannah Arendt, lembrando que “As mentiras sempre foram consideradas instrumentos necessários e legítimos, não somente do ofício do político ou do demagogo, mas também do estadista” (in. Derrida, 1996). Ela devia saber bem o que dizia. Há ainda a mentira piedosa, para poupar um moribundo, por exemplo, e existem outras mentiras, derivada de transtornos graves de personalidade, ou para esconder patologias ou vícios extremos. Mas esse não é o meu ofício, não sou psiquiatra para entrar por esse difícil caminho e o deixo de lado.

Aqui vamos falar de outras mentiras, as nascidas no imaginário de artistas e poetas e pertencentes ao mundo literário.

Assim começo esta conversa indo para bem longe no tempo. Vou para a Grécia antiga, e da Odisseia de Homero tiro a história de Penélope que mente para seus pretendentes dizendo que só escolherá um deles para marido quando finalizar a colcha que está tecendo. Enquanto espera a volta de Ulisses que está desaparecido, todas as noites ela desfia parte da colcha e assim adia o dia da escolha, esperando que tal dia não chegue nunca. Essa é uma bela mentira e que deu certo. Ulisses volta, é reconhecido por seu cão, mata os rivais e Penélope é recompensada por sua fidelidade com o amor do marido para sempre.

Ainda da Grécia trazemos para nossa conversa uma história de Esopo que, segundo consta, tornou a fábula um gênero literário. As fábulas que lhe são atribuídas sugerem normas de conduta que são exemplificadas pela ação dos animais que falam, cometem erros, são sábios ou tolos, maus ou bons, exatamente como os homens. Mas também têm como personagens homens e deuses. A intenção de Esopo, em suas fábulas, era mostrar como os seres humanos podiam agir, para bem ou para mal. É dele a fábula do jovem pastor encarregado de tomar conta de um rebanho de ovelhas perto de um vilarejo. Por três ou quatro vezes ele grita lobo! lobo! atraindo os moradores assustados com seus gritos e que descobrem logo serem vítimas da zombaria do jovem. Quando aparece realmente um lobo e ele grita pedindo ajuda, seus gritos são desprezados, ninguém vem em seu auxílio. Sempre me pego dizendo bem feito, ao fim dessa história.

Já o Barão de Münchausen, que realmente existiu e foi um militar e senhor rural alemão, deixava a imaginação se sobrepor à realidade e mentia descaradamente. Os relatos de suas aventuras serviram de base para a célebre série As aventuras do Barão de Münchausen, compiladas por Rudolph Erich Raspe e publicadas em Londres em 1785. São histórias fantásticas e bastante exageradas de um personagem que se equilibra entre a realidade e a fantasia em seu mundo próprio, onde enfrenta os mais diversos perigos, perpetra fugas impossíveis, testemunha fatos extraordinários e faz viagens fantásticas — sem jamais perder a fleuma. Sua história mais famosa é a fuga de um pântano onde afundava, tendo conseguido isso puxando os próprios cabelos.

Outro personagem bastante conhecido que não perde a oportunidade de contar uma mentirinha é o boneco Pinóquio. E que vê seu nariz crescer a cada mentira. Pinóquio surgiu em 1883 no livro As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, e desde então vem encantando gerações, mesmo sendo um bonequinho muito mentiroso. Desse eu gosto particularmente, como gosto do velho Geppetto, que o fez de um pedaço de madeira e lhe quer bem.

Já em Otelo, peça de Shakespeare publicada em 1622, as mentiras de Iago levam Otelo a acreditar que Desdêmona lhe é infiel e a mata. É a mais triste das tragédias e Iago pode ser comparado ao próprio demônio. Inteligente e ardiloso, insatisfeito por ter sido preterido pelo general Otelo em uma promoção e desejando mais que tudo ascender na carreira, não hesita em tramar, mentir e corromper para conseguir seu propósito. Assim, mentindo e mentindo, leva Otelo à loucura e o faz matar sua meiga e doce mulher. E ela, ao morrer, diz para Otelo: “Dá lembranças minhas ao meu senhor querido… adeus… adeus!” Ai, como é triste. Iago é o personagem que mais abomino e felizmente vai a julgamento no final da peça, mas nenhum castigo que sofra poderá suavizar a tragédia que causou. Mas que fazer? Sem ele não haveria a história e não conheceríamos a bela e triste história do mouro de Veneza.

E o que dizer dos poetas? Fernando Pessoas, em Autopsicografia, não se diz mentiroso, e sim um fingidor:

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.”

Na nossa literatura temos também os nossos mentirosos, que nada têm da maldade de Iago. Alexandre, personagem do livro Alexandre e outros heróis de Graciliano Ramos, é um vaqueiro contador de histórias inverossímeis. Tem uma plateia de amigos e parentes e a mulher, Cesária, que sempre confirma e remenda as suas histórias. Não faz mal a ninguém. Graciliano diz que as histórias são do folclore nordestino e ele as aproveitou. Chico Anísio também as aproveitou no seu personagem Pantaleão e sua mulher Terta. O bordão “é mentira, Terta?” é por todos conhecido. Mas para dar vontade em quem me ler, vou resumir uma das histórias de Alexandre: Quando jovem, Alexandre pertencia a uma família que possuía fortuna e seu pai o manda procurar uma égua pampa que havia se extraviado. Ele se embrenha na mata para procurá-la, a noite cai e ele acaba por cochilar. Quando acorda já fazia uma escuridão medonha e ele distingue dois vultos malhados, um grande e um pequeno, junto da cerca do bebedouro. Alexandre corre em direção ao vulto maior pensando ser a égua que procura, monta nele que sai em disparada pela mata fechada por entre árvores e espinhos. Quando amarra o animal no mourão todos da sua família se espantam: estava amarrada ali uma onça pintada, enorme, da altura de um cavalo. E diz ele: “foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa”. Maravilhoso Alexandre!

Dele, em linha direta, descendem Chicó e João Grilo, de O auto da compadecida, do Ariano Suassuna. João Grilo mente para se defender da pobreza, para conseguir alguma vantagem, necessitado que sempre está. Já Chicó mente porque gosta. Conta histórias assumidamente mentirosas e quando pressionado quanto à veracidade delas apenas diz, “sei não, só sei que foi assim.” E é Suassuna quem diz em uma de suas palestras que os doidos e os mentirosos são seus tipos humanos preferidos, desde que não façam mal a ninguém. Talvez por tanto querê-los, criou Chicó e João Grilo e nos fez amá-los também.

Mas saindo do imaginário, trago para essa conversa um ilustre convidado, o padre António Vieira, grande pregador do século XVII. Diz ele em um púlpito do Maranhão: “A este Evangelho do Domingo Quinto da Quaresma chamais comumente o domingo das verdades. Para mim todos os domingos têm este sobrenome, porque em todos prego verdades, e muito claras, como tendes visto. Por me não sair, contudo, do que hoje todos esperam, estive considerando comigo que verdades vos diria, e, segundo as notícias que vou tendo desta nossa terra, resolvi-me a vos dizer uma só verdade. Mas que verdade será esta? Não gastemos tempo. A verdade que vos digo é que no Maranhão não há verdade.” E continua: “E se as letras deste abecedário se repartissem pelos estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida, que o M. M. Maranhão, M. murmurar, M. motejar, M. maldizer, M. malsinar, M. mexericar, e, sobretudo, M. mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente. Novelas e novelos, são as duas moedas correntes desta terra, mas têm uma diferença, que as novelas armam-se sobre nada, e os novelos armam-se sobre muito, para tudo ser moeda falsa.”
E para não ficar só no Maranhão diz no mesmo sermão: “Na Bahia, que é a cabeça desta nossa província do Brasil, acontece algumas vezes o que no Maranhão quase todos os dias. Amanhece o Sol muito claro, prometendo um formoso dia, e dentro em uma hora tolda o céu de nuvens, e começa a chover como no mais entranhado inverno. Sucedeu-lhe um caso como este a D. Fradique de Toledo, quando veio a restaurar a Bahia no ano de mil seiscentos e vinte e cinco. E tendo toda a gente da armada em campo para lhe passar mostra, admirado da inconstância do clima, disse: ‘En el Brasil hasta los cielos mientem’.”

Depois de transcrever trechos de um sermão do padre António Vieira, sinto-me impedida de continuar. Impossível escrever qualquer coisa depois de tais palavras. Só me resta dizer, até!

8 Responses para “De mentiras, histórias trágicas e alegres e um sermão”

  1. Daniela Melo
    18/02/2015 at 17:30 #

    Dona Cléa, lindo texto e outros que hoje comecei a ler!
    Um beijo de sua sempre admiradora, Daniela.

  2. Marcello Sá
    11/02/2015 at 14:46 #

    Querida Cleita, que delícia de texto! É tão bom conhecer esses mentirosos ou seus denunciadores, reais ou imaginários, de todos os tempos e lugares! Ao terminar de ler, só cabe uma conclusão: escreves muito bem. E quem disser o contrário ou não conhece um bom texto, talvez por ignorância, ou mente, por inveja.

  3. Vicente Sá
    11/02/2015 at 11:59 #

    Que delícia. Um belo passeio. Gostei muito.
    E fico esperando a próxima.

  4. Hamilton Leda
    11/02/2015 at 09:41 #

    Apreciei de montão esse texto, minha cara prima, poeta e prosadora Cleíta! Até a próxima então!