Cléa Sá

De memória, mãe solteira e de A lua vem da Ásia

Somos quatro amigas que nos encontramos uma vez por  mês. E é sempre muito bom. Falamos do que tem nos acontecido, de nossas   tristezas e alegrias, de como, com apenas uma exceção, discordamos da maneira   como nossos filhos educam nossos netos, e também de como, experientes que já   somos, permanecemos mudas diante do fato. Falamos também de muitos outros   assuntos, alguns até filosóficos ou transcendentais. Ontem tivemos uma tarde   assim. E à noite fiquei recordando um trecho ou outro das nossas conversas e   aí me lembrei do lanche. Tínhamos estado no Daniel Bryant e eu tinha comido   um pão delicioso, um… cadê o nome? Meu Deus! Lembrei-me do gosto do pão   amanteigado se desmanchando na boca, da sua forma de meia lua, da sua cor   dourada, mas o nome, nada.  Estava   perdido em algum canto do cérebro, totalmente enrodilhado em algum neurônio   que teimava em não se conectar aos outros. Lembrei-me de outros nomes e de   outros pães, até de bolos: pão francês, pão sovado, pão de massa fina ou   careca, pão de queijo, bolo de rolo, bolo de fubá, bolo de tapioca, beiju,   cuscuz, e nada de lembrar o nome do já maldito pão que eu tinha comido. Me   assustei. De manhã foi a primeira coisa em que pensei: o nome  daquele pão que eu tinha saboreado. O nome   continuou inacessível.  Aí tomei uma   medida desesperada: ir ao Google. Foi pensar na ação e o cérebro, sabendo que   ia perder a parada, soltou o nome nesse momento: CROISSANT. Ufa! Como me   assustam essas falhas nas lembranças e como me detenho pensando nessa matéria   tão impalpável, fluída, não localizável que se chama memória. Como não   esqueço jamais os nomes das coisas que comi lá na minha infância como maxixe,   quiabo, couve, abóbora e me desespero querendo saber o nome daquela raiz   vermelhinha que só vim a comer aqui em Brasília e preciso apelar para   Francisca para saber que seu nome é rabanete.    É compreensível, embora às vezes irrite e assuste. Não sei qual a   melhor maneira de lidar com isso: se insistir em lembrar, forçar ou   deixar pra lá que de repente o nome ou fato vêm à memória. Quando a gente envelhece, o fantasma   do alemão está sempre presente, o senhor Alzheimer. Uma coisa que não guardo   e faço questão de não guardar são as datas de morte de pessoas que eu amo.   Mas não vou entrar nesse caminho para não ficar triste logo de manhã cedo.   Falar em tristeza, há uns meses assisti à peça “A lua vem da Ásia”, uma   adaptação e interpretação de Chico Diaz do livro do mesmo nome de Campos de   Carvalho. Esse livro fez furor na minha casa e entre meus irmãos nos anos   sessenta. Eu não o li na ocasião. Ao assistir a peça, nada me tocou. Fiquei   vendo tudo como que friamente, de certa distância, admirando a criatividade   da montagem, a excelência da interpretação do ator, mas o texto propriamente   não me dizendo nada. Algumas noites depois, triste e angustiada, me lembrei   da peça e comecei a entender a triste fala do personagem, suas angústias, sua   loucura. Só então. Sei, por treinamento profissional, sou Assistente Social,   que não é preciso viver todas as situações para entender as dificuldades dos   outros. Embora tenha sido há muitos anos, ainda me lembro de uma das   primeiras discussões na Escola de Serviço Social que foi sobre isso.   Assistimos a um filme que tratava de uma   moça sofredora que era mãe solteira e encontrava muitas dificuldades: falta   de recursos, preconceito e sei lá mais o quê. Nós, solteiras e sem filhos,   poderíamos entender pessoas em situação semelhante, atendê-las,   encaminhá-las, ajudá-las enfim como se fazia necessário? A resposta era   afirmativa e creio que a gente se educava para isso. Mas a verdade é que   entendemos melhor situações pelas quais já passamos e somos mais tolerantes   com aquelas pessoas que têm defeitos semelhantes aos nossos. Uma constatação   final para encerrar esse Conversa vai, conversa vem: Como a situação da mulher melhorou nesses últimos   anos. Hoje, felizmente, ninguém joga pedra em mãe solteira e embora sempre seja difícil   criar um filho sozinha não é das piores coisas do mundo. Pelo contrário,   é bastante prazeroso ter um filho, solteira ou não. Até!

 

2 Responses para “De memória, mãe solteira e de A lua vem da Ásia”

  1. zita de moura leal
    05/03/2013 at 09:25 #

    Adorei o texto e concordo com a conclusão, Cleíta. Bjos

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      07/03/2013 at 10:45 #

      Que bom, Zitinha.Gosto de suas opiniões e de suas visitas ao blog. Beijos Cléa