Cléa Sá

De mães

Como este mês se comemora o Dia Internacional da Mulher, pensei em escrever sobre o tema. Sobre mãe, especialmente. Mas não é que a coisa está saindo mais difícil do que eu pensei inicialmente? Falar de mãe é um universo. Começar por onde? Que mães abordar? Porque existe mãe de todo feitio, desde as doces mães que desdobram fibra por fibra o coração e sorriem ao chorar e padecem no paraíso como as do soneto do Coelho Neto às mães malvadas que mais parecem madrastas. A dúvida está presente e tento não desistir do tema, pois me parece também um exercício de reconhecimento da mãe que sou, já que ultimamente por circunstâncias especiais a mãe tomou todos os espaços deste meu pobre ser.

Mas confidências a parte que elas não são necessárias, volto às mães. Andei pesquisando e penso em contar algumas das histórias que encontrei. Algumas bonitas, outras nem tanto, aterrorizantes algumas delas, pois há mãe de todos os gostos e feitios.

Começo com a história que me assustava na infância, a de João e Maria. Quem a conhece sabe que pai e mãe aí se uniram e resolveram se livrar dos filhos fazendo com que se perdessem na floresta. A desculpa era que eles não tinham como alimentá-los e lhes doía vê-los passar fome. Desculpa esfarrapada, sempre me pareceu. Sorte de Joãozinho que escutou a conversa dos pais à noite e se preveniu com pedrinhas no bolso. O resto nós sabemos e assim aquela bruxa malvada que os aprisiona e engorda para deles fazer pasto não é nem um tantinho pior do que a mãe que os lançou nas profundezas da floresta.

Vou andar um pouco pelo passado e falar da mãe dos Gracos. Essa, Cornélia, era uma dama ilustre da Roma antiga, viveu no século II a.C. Seus filhos, conhecidos como os Irmãos Graco, revolucionaram o sistema de relações sociais da época ao proporem a distribuição de terras aos camponeses e a limitação dos latifúndios, ideias avançadas que os levaram à morte, mas os deixaram para sempre na história. Diga-se de passagem, que até hoje se morre por isso aqui no Brasil. Mas voltando ao passado, contam que em uma festa de gala, senhoras que ostentavam joias e adereços riquíssimos menosprezaram Cornélia vestida com simplicidade, chegando uma delas a perguntar-lhe: você esqueceu as suas joias? E ela respondeu: não me esqueci, eu os trouxe. E mostrando os dois filhos disse: “eis as minhas joias”. Para ela foi erguida em uma Praça de Roma uma estátua com os dizeres: “Cornélia, mãe dos Gracos”.

Outra mãe famosa está na mitologia grega. É Níobe. De outro estofo, era orgulhosa dos muitos filhos que tinha, seis homens e seis mulheres e se comparava à deusa Latona, mãe dos gêmeos Apolo e Artemis, cujo pai era Zeus. Pois bem, por ocasião das festas em homenagem à deusa protetora da maternidade, como Latona era conhecida, Níobe exige do povo que ao invés de prestar homenagens à deusa, que não conheciam, prestassem homenagem a ela, que vivia entre eles. Foi o suficiente para enfurecer Latona que ordena a seus filhos que a vinguem. É então que Apolo com suas flechas mata todos os sete filhos homens e Artemis, as sete filhas mulheres. A perda dos filhos leva Níobe ao desespero. Só chora e chora, e chora tanto que outros deuses para pôr fim aos seus tormentos a transformam em um rochedo, que fica lá pela Turquia, mas seu pranto jorra até hoje sob a forma de uma fonte que sai da pedra.

Na literatura encontramos algumas mães excepcionais para o bem ou para o mal. A mais terrível delas é Medeia, figura mitológica, mas que é recriada por Eurípedes em uma de suas tragédias. Ela se apaixona por Jasão e o ajuda na conquista do velocino de ouro, vivem grandes aventuras, ela usa seus poderes de feiticeira, têm filhos, e chegam a Corinto. Lá, o rei Creonte influencia Jasão a abandonar Medeia para se casar com sua filha Creusa. E expulsa Medeia do reino. Ela, de forma premeditada e fria, mata os próprios filhos para se vingar de Jasão.Chico Buarque e Paulo Pontes recriam Medeia em Gota d’Água. A peça retrata a difícil vida de moradores de um conjunto habitacional onde acontece o drama de Joana e Jasão. Ele a abandona para casar-se com Alma, filha do rico Creonte. Sem suportar o abandono e para vingar-se, Joana mata os filhos e se suicida. Na festa do casamento, os corpos são depositados aos pés de Jasão. Ai! o que não faz um coração vingativo. Lembram-se da música? “deixem em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de lágrima… e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água”.

A peça “Mãe Coragem e seus filhos”, de Bertold Brecht, sempre me comove e me causa inquietação. Eu a li pela primeira vez há muitos anos e dela fiz uma opinião. Depois a vi montada no teatro, a impressão foi outra. E agora releio trechos e formo nova opinião. A peça é a mesma, as mudanças se deram em mim, portanto. Anna Fierling é uma vivandeira que acompanha os exércitos durante a guerra dos 30 anos. Ela vive da guerra, dos seus despojos, mas quer impedir que seus 3 filhos sejam tragados pela luta. O que ela não consegue. É pequena demais face às engrenagens militaristas. E apenas denuncia. A história nos faz pensar nas mães dos muitos lugares onde ocorrem conflitos na nossa época: Somália, Nigéria, Palestina, Israel, Síria, Iraque, e outros tantos. Quantas mães veem seus filhos colhidos pela engrenagem da guerra, pelo fundamentalismo religioso, pelo desejo dos que lucram com as guerras? Muitas mães-coragem vivem e sofrem enquanto bato estas teclas.

Ainda na literatura me lembro da senhora Bennet, a mãe totalmente “sem noção” como dizemos hoje de Elizabeth e Jane, no grande romance Orgulho e preconceito, de Jane Austen. Mal educada, interesseira, vulgar, só pensa em casar as filhas com homens ricos e causa sofrimentos às filhas sem a menor ideia do que está fazendo. É cômica, egoísta, mas inesquecível. E acho que ninguém gostaria de tê-la como mãe.

Saio da literatura. E a primeira figura materna que me vem à mente é a de Zuzu Angel. Vivendo os terríveis anos da ditadura militar que nos tirou a voz e a liberdade por mais de vinte anos, Zuzu teve seu filho Stuart Angel torturado e morto, em 1971. Estilista de renome, ela empreendeu uma luta contínua para comprovar a morte do filho pela ditadura e conseguir seu restos mortais, até também ser assassinada em 1976. E ainda não se sabe dos restos mortais de Stuart Angel. E ainda tem quem pense e peça a volta de uma ditadura. Quase não dá para acreditar.

E vejo também e louvo as muitas mães que criam e educam seus filhos, muitas vezes sozinhas. O que mais vemos são mulheres sem marido ou companheiro – os pais de seus filhos já as deixaram pelo caminho, mas elas com coragem lutam, trabalham e não abandonam os filhos. Poucas delas conseguem vagas em creches para deixar os filhos e pagam caro para ter quem os cuide, para deixá-los em segurança. São funcionárias públicas, faxineiras, empregadas domésticas, policiais, médicas, trabalhadoras – mães coragem.

Tentei me enquadrar ou me identificar com algumas dessas mães e não consegui. E descubro que é no samba de Adoniram Barbosa, Trem das 11, quando escuto os versos “minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”, que me acho. Sou das que não dormem.

E para terminar bonito me socorro da poesia de Mário Quintana

MÃE

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

13 Responses para “De mães”

  1. maria eugenia
    26/03/2015 at 13:02 #

    Que lindo tia,

    Sei que além de ser uma mãe muito especial e amada, também é uma escritora de mão cheia, que possui o raro talento de mexer lá no fundo, trazendo histórias incríveis que enriquecem nossos dias….também sinto saudades de minha mãe, era única!!

  2. Marcello Sá
    25/03/2015 at 20:05 #

    Cleita, dentre os inúmeros significados da palavra mãe, você, com esse delicioso texto, nos faz viajar pela maternidade de tantas épocas, de mulheres reais ou imaginárias, e nos faz saber que mãe também é cultura! Sou testemunha da grande mãe e escritora que você é. E muito me orgulho de ser seu sobrinho. Beijos, Marcello

  3. Maria Luiza
    25/03/2015 at 12:17 #

    Oi, Clea, saudades!!!! Ha quanto tempo nao nos vemos!!!!
    Que linda a sua cronica.. E este final com o Quintana me emocionou.
    Adorou tudo do Quintana, o acho muito sensivel.
    Parabens para vc. Continue e sei que breve sai o livro.Bjs.

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      25/03/2015 at 12:59 #

      Obrigada, Maria Luiza. Saudades também e obrigada por sua gentileza. Também amo o Quintana. Um grande abraço
      Cléa

  4. Francisco Pestana
    24/03/2015 at 18:50 #

    Mãe, o texto é ótimo e me lembrou uma outra história sua. Quando agente, seus filhos, eram adolescentes e a senhora sozinha, a nos criar, estipulou que devíamos voltar da nossa balada à meia-noite. Um chegava na hora marcada,…bom, outro um pouco depois da hora, tomava uma bronca. Quando o último chegava, já na alta madrugada a senhora oferecia um lanche e enchia o retardatário de beijos e abraços. Haverá Mãe melhor que essa?! Acho que não…

  5. Vicente Sá
    23/03/2015 at 12:34 #

    Mais uma beleza. Li agora, segunda-feira, de manha. Agora sim, começo uma semana feliz.

  6. josenita
    22/03/2015 at 22:51 #

    Cléa,

    rebato seu texto, bom como sempre, com isso que diz Drummond:

    Suas mãos

    Aquele doce que ela faz
    quem mais saberia fazê-lo?

    Tentam. Insistem, caprichando.
    Mandam vir o leite mais nobre.
    Ovos de qualidade são os mesmos,
    manteiga, a mesma,
    iguais açucar e canela.
    É tudo igual. As mãos (as mães?)
    São diferentes.

  7. Cléa Sá
    cleamsa@uol.com.br
    21/03/2015 at 18:33 #

    Regina

    Que bom que você gostou! Acho que você se identifica com Cornélia. Acertei?

  8. Regina Motta
    Regina
    21/03/2015 at 13:45 #

    Cléa, que bonito texto. Achei as citaçoes das mães gregas uma grande ideia. Todas nós temos um pouquinho de todas elas, não é?
    Beijos, Regina