Cléa Sá

De lugares, estranhamento e irmã morta

Durante muito tempo, tive uma sensação de estranhamento em relação às pessoas e lugares. A única exceção era em minha casa, entre meus pais e irmãos. Nos outros lugares sempre me sentia deslocada, uma estranha entre estranhos, e temia que os outros descobrissem o que eu sentia. Assim me esforçava para nada deixar transparecer desse sentimento ou sensação – não sei que palavra explica melhor-, e com esse meu esforço até parecia desembaraçada e expansiva. Mas me custava.

Creio que me dei conta desse sentimento quando saí de casa pela primeira vez. O colégio não era meu lugar. O que eu tinha a ver com aquelas muitas meninas? E com aquelas freiras? E com aquele casarão que parecia na maioria das vezes tétrico e ameaçador? Havia, contudo, uns espaços bons: o pátio do recreio, a Capela quase sempre vazia e silenciosa. Vez por outra, não sei o motivo, o sentimento desaparecia, às vezes até por períodos longos. Então me sentia livre, brincava, ria, fazia amigas. Depois o estranhamento voltava e eu tornava a me sentir uma estranha no meio de desconhecidos.

Volto no tempo. Logo depois do meu nascimento, morreu uma irmãzinha mais velha, Alba, que não cheguei a conhecer. Cresci ouvindo suas histórias. Ela dizia: “mamãe, agora posso morrer; você já tem outra filhinha”. Não adiantavam as negativas da minha mãe. Parece que ela não acreditava que havia, na casa e no coração da mãe, lugar para as duas. Um pouco depois, minha mãe comprou uma roupa nova para ela, vestido e sapatos, para que ela usasse na festa de São Benedito, padroeiro da cidade. Ela, porém, teria dito: “não, mãe, vou usar essa roupa no meu enterro”. E com isso causava na casa e em todos um desassossego, uma tristeza. E foi o que realmente aconteceu. Bem perto da festa  ela adoeceu, uma hepatite forte, e em poucos dias morreu. Foi enterrada com o vestido e os sapatos da festa, como teria dito.  Essas e outras histórias dessa pequena menina me acompanharam desde que me entendi por gente. Penso que, desde cedo, eu me vi como a que tomou o lugar de outra, era uma usurpadora, aquele lugar de filha não era meu. A pequena Alba, por alguma razão misteriosa, o abandonara para mim, mas eu não o merecia. Será que por isso me senti na obrigação de mostrar serviço a vida toda na minha família? Cuidava dos irmãos mais novos, partilhava as preocupações da minha mãe, procurava entender as posições do meu pai, e, no decorrer do tempo, continuei a cuidar. Assim, protegi minha mãe na sua velhice e morte, acolhi com carinho meus irmãos quando adoeceram e se foram. Nem tudo é resposta aos fatos narrados, isso sei. Eu os amei muito e a todos, e mesmo agora, enquanto escrevo, uma grande saudade me enche o coração.

Duas questões, porém, permanecem: por que essa sensação de estranhamento nunca abrangeu a minha primeira casa, a casa dos meus pais, e depois a minha, a que formei? Meus filhos reclamam que quase não vou a casa deles, o que é verdade. Só em minha casa me sinto segura e feliz, com as naturais exceções, claro.  E a segunda, essa tristeza que sempre me procura e me acha, também vem daí? Será que não consegui jamais achar que devia estar no mundo?

Não sei se você que me lê já se sentiu como se estivesse fora de lugar, estrangeira em sua própria terra. Um irmão, muito querido, gostava de dizer que para os “antigos” (não sei a que “antigos” ele se referia, talvez o “antigo” fosse ele mesmo), todos nós temos um lugar especificamente nosso no mundo. Pode ser uma cidade, a margem de um rio, a sombra de uma árvore, um lugar em nossa casa onde pomos nossa cadeira preferida, um canto qualquer no mundo que é especificamente nosso. Nesse lugar predestinado, que só descobrimos pela experiência, nos sentimos em paz. Só sabemos o lugar quando nele estamos. Não sei se ele, o inventor da história, descobriu o seu lugar aqui na terra ou se só depois de “ter atravessado a parede de espelhos”. Quando penso nessa história de lugar, primeiro me vem os versos de Marina Lima, na canção Fullgás, “Você me abre os seus braços e a gente faz um país”. É uma imagem linda de lugar. Talvez não exista melhor. E outra lembrança, essa bem triste, é a dos três imigrantes nos Estados Unidos do filme de Jim Jarmusch, “Estranhos no paraíso”, que, coitados, estão sempre nas periferias, sempre rondando um lugar que almejam, mas não podem alcançar. Ah! A saga dos imigrantes. Como é achar um lugar, o seu lugar, em terra estrangeira? Se na terra da gente já é difícil, imaginem em outros mundos… Admiro profundamente os navegadores da época das Grandes Descobertas. Colombo, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e as centenas e centenas de marinheiros que não deixaram seus nomes na história, mas tiveram a ousadia e a coragem para enfrentar o desconhecido, sobretudo quando de nada ainda se tinha certeza, quando aquele mar podia de repente ter fim, quando monstros de todos os tipos povoavam as águas e as terras por achar… Hoje é bem mais fácil: o mundo está todo mapeado, é só entrar no Google Map e pronto: você vê o país, a cidade, a rua e até a casa, acho. Mas o Google não mostra os lugares da desesperança, os lugares das saudades, os lugares do desemprego e do subemprego, os lugares dos preconceitos… Não, isso não está mapeado, só é descoberto pela experiência.  Antigamente, quando ainda muito jovem, saí da minha casa e da minha terra para vir para Brasília, o Eldorado de então.  Sem trabalho no Maranhão, saímos meu marido e eu, a tentar a sorte. Aqui achei o meu lugar. Era uma terra, na época, sem donos, uma cidade de todos, pensada para não ter desigualdades, como se isso fosse possível num país tão desigual. Mas se acreditava nisso, então. As ilusões caíram ao longo dos anos, ficou a lembrança da aventura. Hoje as pessoas querem ir para mais longe: Estados Unidos, Reino Unido, França, Austrália… , mas a distância é a mesma. Que vão, os que acham que devem ir. E que encontrem o seu lugar, pequeno ou grande, mas o seu lugar predestinado, mesmo que seja depois, voltando para casa.

 

11 Responses para “De lugares, estranhamento e irmã morta”

  1. Regina Motta
    Nome (Obrigatório)
    28/03/2013 at 19:57 #

    Cléa, muito bonito, quase triste, mas emocionante.
    Quem teria o seu próprio lugar? aquele ali, só dele? sonho, fantasia, procura e esperança.
    Gostei demais,
    Regina

  2. zita de moura leal
    25/03/2013 at 09:36 #

    Como sempre, Cléa, gosto muito do que você escreve. Esta história de sua irmã lembrou-me as que uma tia querida gostava de contar, entre elas a de sua irmá Alzira, muito parecida com a de sua irmã Alba. Que impressionante!

  3. maria eugenia sa
    23/03/2013 at 00:27 #

    Muito lindo..dá para imaginar o casarão, o pátio e todas esses sentimentos…

  4. clea
    20/03/2013 at 18:06 #

    Caros amigos e irmãos
    É muito bom ver que vocês gostaram da história, que, como diz Ceiça muito bem, é a nossa história. Aguardem que mais histórias virão.
    Cléa.

  5. Adeane
    20/03/2013 at 10:17 #

    Cléa,
    o seu texto é muito bonito! Retrata que ocupar o lugar deixado por uma irmã morta nao foi sem consequencia para você, não é para ninguém que se situa no lugar de um morto. Será preciso colocar vida nesse lugar onde se espera morte… Portanto, podemos dizer que te custou muito, mas você conseguiu inventar a vida.

    grande abraço,

    Adeane.

    • Ceiça
      20/03/2013 at 17:32 #

      Cleita

      Considero-me suspeita para comentar, mas, gostaria de continuar lendo o que escreves sobre nossa história, tua história , minha história. Adorei.
      Ceiça

  6. Vicente
    19/03/2013 at 22:49 #

    Maravilha. Viajei léguas de sonho e recordações. Penso que tantas vez te ouvi relatar sobre o colégio das freiras que quase o conheço. Pelo menos a nostalgia dele. Muito lindo.

  7. dina
    19/03/2013 at 22:14 #

    Lindo. Cléa!
    Gosto muito de te ler.
    Parabéns, querida!

  8. josenita
    19/03/2013 at 18:59 #

    Cléa,

    tão lindo e tão verdadeiro. Quem já não se sentiu assim,
    que atire a primeira pedra…
    Bj.

  9. Cléa Sá
    clea
    19/03/2013 at 18:32 #

    Obrigada, querido. Gostei do que você acrescentou. Um beijo
    Cléa

  10. Bené
    19/03/2013 at 16:24 #

    Muito bem escrito, Cleíta. Texto lindo! Felizes os que acham o seu lugar. Mas também o viajar constante não é ruim, considerando que a viagem é sempre uma busca de chegar a algum lugar, seja este sabido ou ainda não adivinhado.