Cléa Sá

De livros, perdas e da situação geral

Tenho uma pequena biblioteca. Só livros comuns, nenhuma raridade. Umas duas vezes por ano faço grandes arrumações: pego livro por livro, tiro a poeira, anoto os que preciso restaurar, confiro os que estão emprestados e separo os que não pretendo reler nem guardar. São dias e dias de trabalho. Mas é um tempo bom. Os meus livros, quase todos, têm história. Este aqui, As mil e uma noites em um único volume, capa dura toda trabalhada, foi presente de Petrônio, um irmão querido: ele o encontrou em um sebo. Folheio o livro, vejo as belas gravuras que encimam as páginas e volto àquele dia já distante. Este outro é mais antigo ainda: Momento em Pequim, de Lin Yutang. Aldenor e eu éramos ainda estudantes em São Luís quando o compramos. Juntamos para isso nossos trocados. Ficou comigo que desde cedo gostei de colecionar livros. Aqui está outro, este talvez uma raridade, pois está esgotado há muitos anos. É Estatuetas, livro de poesia de Maranhão Sobrinho, poeta já quase esquecido. Era de minha mãe e eu o restaurei com a ajuda de Regina Motta. Este outro, Noturno indiano, de Antonio Tabucchi, esperei ansiosa o lançamento: li um capítulo no jornal e fiquei à espera.

E assim fico por horas. O trabalho não rende muito. Paro de vez em quando folheando um livro, leio um trecho, me perco na leitura e também nas lembranças. É ocupação preciosa, principalmente quando estou triste. Os livros me consolam, me acalentam.

Ando triste ultimamente. Os motivos, vários. Perdas, distância, abandono. E o estado das coisas.

É difícil lidar com perdas. A poeta Elizabeth Bishop no seu poema Uma arte nos manda praticar a arte de perder. Devemos começar perdendo pequenas coisas, chaves, lugares, nomes e vai além, até a perda de um ente amado. É um belo poema. E tenho praticado esta dolorida arte. Parece-me, porém, que sou sempre principiante. Procuro aceitar as perdas, as ausências, o desconsolo. E jogar o “jogo do contente” que li em Polyana quando menina, que consiste em ver o que há de bom mesmo em um acontecimento ruim. Mas nem sempre dá certo. Ou melhor, quase nunca dá certo.

Outro dia ouvi uma homilia sobre a morte. Segundo o pregador, nós não nos conformamos com as perdas causadas pela morte dos que amamos, porque há razões menores no nosso querer bem: queríamos que aquele filho que morreu realizasse nossos sonhos, ou pensamos que não fizemos tudo o que devíamos por ele e temos sentimento de culpa; ou aquele irmão, aquele amigo vai nos fazer falta por que não sabemos viver sozinhos. Tudo se resume a isso: frustração e baixa autoestima. Frustrada, fiquei eu com tal simplificação. Não penso que seja por isso que nos dói tanto a morte daqueles a quem amamos. Não, não é simples assim. Mas não entrarei por este tema agora neste Conversa vai, conversa vem. É muito duro e de dureza basta a terrível foto de um menino amarrado a um poste lá na zona sul do Rio de Janeiro que foi divulgada esta semana. Coisas de justiceiro. E li que aquela moça, Ivone Bezerra, saiu na noite a chamado do porteiro, acudiu o menino e o encaminhou a um abrigo. Ela também esteve presente e ajudou como pode os meninos naquela chacina na Candelária, em 1993. Bendita sejas, Ivone, anjo da noite. Bem-aventurada e destemida mulher que sai sem medo em socorro dos aflitos. Dois lados de uma mesma moeda. Pessoas assim nos fazem ter esperança, nós que quietos em nossos cantos não sabemos o que fazer.

Penso que mundo não está pior. Estão aqui, nesta pequena biblioteca, as muitas histórias que nos contam de guerras, traições, escravidão, maldades. Mas também há histórias que nos falam de redenção, amor, justiça, paz. É preciso paciência, coisa que às vezes me falta.

Mas volto aos livros. Será que conseguirei ler este ano Ulisses, de James Joyce? E Os Sertões, de Euclides da Cunha? Descobrirei um poeta novo? Verei o final de As Crônicas de Gelo e Fogo, do George Martin? Tomara!

Gosto muito de gente, de pessoas de carne e osso. Mas encontro muito consolo nos seres que vivem no país da minha memória, nas visões amigas que me visitam. Mas é nos livros que encontro um prazer especial: personagens inventados por outras pessoas que entraram em minha vida e dela passaram a fazer parte. Nem tento falar de tantos que conheci e me são particularmente caros. A lista ficaria grande e eu possivelmente deixaria alguns amigos de fora. E não me arrisco a fazer isso: eles estão aqui comigo, bem perto, enquanto tiro pó e rearranjo as estantes.

13 Responses para “De livros, perdas e da situação geral”

  1. Elisabete
    27/02/2014 at 19:48 #

    Relendo! Que belo texto, Cleinha.

    • Cléa Sá
      Clea
      27/02/2014 at 23:46 #

      Obrigada, querida Bete. Bjs

  2. Elisabete
    27/02/2014 at 19:46 #

    Cleinha, que belo texto!

  3. Regina Motta
    Regina Motta
    15/02/2014 at 12:41 #

    Clea querida, seu texto me comoveu em todos os temas. Também amo os livros, mas não os coleciono. Leio, fico com ele um pouco, releio algumas passagens e passo adiante. Até porque tenho família grande de leitores! E gosto muito de cuidar dos machcados. Restaura-los, como você faz tão bem!
    Você expressou muito bem o que se passa no nosso mundo. Estamos todos como um trapezista que espera o outro trapézio para se segurar. E como será que ele vai chegar ? será fácil pegar no ar?
    teremos uma rede para nos amparar em caso de queda?
    Só o amor incondicional nos ampara!
    Beijos,
    Regina

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      15/02/2014 at 13:11 #

      Obrigada, Regina! Suas palavras são lindas, me comovem. Você me ajuda sempre e não só a consertar meus velhos livros. Abraços
      Cléa

  4. Marcello
    12/02/2014 at 22:29 #

    Querida Cleita,

    Seu texto é tão bom, que me dá até vontade de escrever um livro só para ter um prefácio seu.

    • Cléa Sá
      clea
      13/02/2014 at 11:05 #

      Marcello
      Seria a glória ver um livro seu. Escreveria o prefácio com muito orgulho. Obrigada
      Cléa

  5. maria eugenia sa
    12/02/2014 at 19:27 #

    Que máximo Tia, só a senhora mesmo!!

    • Cléa Sá
      clea
      13/02/2014 at 11:06 #

      Obrigada, querida Eugênia. Beijos
      Cléa

  6. Junior
    11/02/2014 at 15:53 #

    muito bonito querida mãe.

  7. vicente sá
    11/02/2014 at 10:30 #

    Muito lindo. Comovente.