Cléa Sá

De livros e lembranças do afeto, consolo para momentos tristes

Quando meu pai morreu, não pude assistir ao seu sepultamento. Na hora em que estaria se dando o enterro – palavra terrível – peguei um pano de pó e fui arrumar minha estante de livros. Pegava um livro, limpava, punha no mesmo lugar. Pegava outro, fazia o mesmo. E assim consegui atravessar aquele terrível momento.

Os livros sempre me consolam. Ler, manusear, limpar. Agora, em um momento um pouco difícil, é a eles que recorro. Olho minha estante de livros. Não posso pegar um pano de pó e limpá-los, estou em repouso. Fazer o quê, então? Conversar sobre eles.

Este aqui, por exemplo, Momento em Pequim, foi encontrado no final dos anos cinquenta do século passado e comprado com esforço com nossa mesada, minha e de meu irmão Aldenor. O autor, um chinês já americano, Lin Yutang, famoso na época mas do qual ninguém mais fala hoje em dia. Não devia ser tão bom. Nós andávamos apaixonados pela China, não se sabia direito como as coisas andavam por lá, mas intuíamos, queríamos saber mais. Mao Tsé Tung tinha liderado a revolução da qual pouco se sabia e nos parecia o líder máximo. Por essa época nós tínhamos uma queda muito acentuada pelo comunismo, que nos parecia a alternativa justa para o que vivíamos então e éramos influenciados por um amigo que nos emprestava os romances publicados pela Editora Vitória, ligada ao Partido Comunista Brasileiro. Descubro agora que a coleção era orientada por Jorge Amado. Desses livros, não me lembro de nenhum título, só de uma capa com dois jovens operários, um rapaz e uma moça, livres e fortes com o olhar direcionado para frente e para o alto visualizando um futuro de igualdade e justiça. Pois é.

Passo para minha prateleira de autores brasileiros e vejo os romances de Machado de Assis. O primeiro deles que li foi Helena, romance da sua fase romântica, e me apaixonei. Gostei tanto que fiz questão de que meu pai o lesse. Ele, ao me entregar o livro de volta, estava zangado: Como você me dá um livro desses para ler? A moça morre! Por essa altura da sua vida ele só queria saber de livro com final feliz.

Mas antes, bem antes, nós líamos os folhetins que minha mãe encomendava e lhe chegavam pelo serviço de reembolso postal nas mais remotas cidadezinhas do Maranhão. Ela lia, escondia e dizia que não eram apropriados para nós. Nós descobríamos onde ela os guardava e líamos todos, seus romances de capa e espada. Lembro-me não mais das histórias, mas do clima de aventura e de mistério dos romances de Michel Zevaco, Ponson du Terrail, Alexandre Dumas dos quais apenas restam nomes como Os Pardaillans, Fausta, O visconde de Bragelone, Rocambole. Aqui na estante tenho ainda Os três mosqueteiros e Vinte anos depois, de Alexandre Dumas, mas não me atrevo a relê-los. Não, não! Não seria possível sentir de novo a ansiedade ao acompanhar nossos heróis por ruas estreitas e estalagens suspeitas, aquele frêmito de urgência com seus destinos, temer que suas fugas e lutas de espadas fossem perdidas em face da força do cardeal Richelieu e das artimanhas de Milady, sua agente. Melhor deixar assim. Apenas olhar para suas capas e guardar o encanto que tive quando os li pela primeira vez, quase menina.

Das leituras da minha infância, duas passagens são inesquecíveis. A primeira delas foi ao ler Robinson Crusoé e me deparar com as pegadas de um homem na praia. Meu coração se acelerou, tive medo. Quem seria, meu Deus? Só quando vim a conhecer Sexta-Feira a aflição passou. Outra, lia uma história de Jesus para crianças, um livro ilustrado. O desenho de Jesus com seus longos cabelos conduzindo os discípulos por entre trigais enquanto os ensinava a rezar o Pai Nosso ficou comigo por muitos anos. Ainda está, para ser sincera.

À medida que o tempo passa, o nosso gosto pelos livros vai mudando. Livros que nos encantaram em certa época são incapazes de manter o mesmo fascínio quando os pegamos para reler depois de muito tempo. Outros, não. Continuam com o mesmo poder e os lemos como quem reencontra amigos queridos que se tivessem perdido de nós.

De vez em quando penso em fazer para mim mesma a lista dos meus livros preferidos. Um estresse só. Sempre começo por Guerra e Paz, de Tólstoi. Esse tem presença assegurada, embora confesse que nem sempre leio o desenrolar das guerras. Pulo páginas. E dos russos, não fico só em Tólstoi. Dostoievski também está presente. Dele, incluo Os Irmãos Karamazóv, embora fique de olho comprido para O idiota, mas tenho de me conter. Só um da cada autor. Aí vou para Jane Austen e de seus livros não tenho dúvidas: embora goste de todos eles é Orgulho e preconceito que escolho. Elizabeth Bennet é uma das mulheres mais interessantes já criadas pela literatura. E ainda dos autores ingleses escolho Jane Eyre, de Charlotte Brontë, livro que foi um presente de minha mãe e ainda o guardo depois de tanto tempo. A partir daí não consigo me decidir. Vêm tantos que prefiro esquecer a lista e pensar em outra coisa.

Mas não são apenas os livros que me consolam em momentos tristes. Tenho lembranças que me aquecem o coração e me ajudam a superar as dificuldades. São lembranças de afeto.

Estávamos minha irmã e eu em Visconde de Mauá, em uma pequena pousada. No começo da noite saí sozinha para comprar cigarros e uma chuva forte caiu de repente e me deixou presa na venda. Fiquei ouvindo as conversas esperando a chuva passar, mas aí vejo minha irmã atravessar a rua com uma pequena sombrinha que mal conseguia aparar as grossas bátegas de água. Chegou ao meu lado quase completamente molhada e disse “vim te buscar para não te molhares”. Ai, doce e querida irmã! E quantas outras lembranças: Uma serenata feita por meu irmão e seus amigos lá em Pedreiras, na véspera de uma das minhas voltas para Brasília já lá se vão tantos anos, minha avó fazendo doce no tacho e nos mandando para longe para que não nos queimássemos, meu pai cantando a Pequenina cruz do teu rosário em uma noite em que estávamos todos reunidos na varanda da casa, quando a gente se pensava eterno e achava que aquele convívio não teria fim, sentimento que ninguém definiu melhor que Manuel Bandeira quando diz “ a casa do meu avô… nunca pensei que acabasse! tudo lá parecia impregnado de eternidade.” Pois é.

Paro por aqui. Essas poucas lembranças de afeto já me confortam. Penso que assim como tenho uma estante de livros e para me confortar pego um, folheio, leio um pequeno trecho, ponho de novo no mesmo lugar, tenho também na minha alma uma estante cheia de lembranças e a elas recorro vez por outra. E sempre fico bem. Pois é.

14 Responses para “De livros e lembranças do afeto, consolo para momentos tristes”

  1. Vicente Sá
    03/07/2015 at 12:45 #

    Mais uma delícia de leitura. Só posso dizer obrigado.

  2. Benedito
    15/06/2015 at 15:27 #

    Querida Cleíta, muito lindo o seu texto. Recordar é viver, e rememorar as coisas boas é viver bem. Um beijo do mano Bené

  3. Chico
    15/06/2015 at 11:42 #

    Maravilha Cleíta, paixão renovada… uma grande alegria poder ler os teus belos textos. Chico

  4. Chico
    15/06/2015 at 11:40 #

    Maravilha Cléa, paixão renovada.. uma grande alegria ler os seus belos textos. Chico

  5. Marcello Sá
    15/06/2015 at 00:54 #

    Querida Cleita, parabéns por mais um belo texto. Você consegue com seu talento de escritora fazer com que nos reconheçamos em suas experiências. Ao citar “aquele convívio não teria fim”, me fez lembrar de tantos momentos marcantes, que pareciam que nunca iriam se acabar, vividos com vovó Messias, com vocês, tios e tias queridos, assim como com os primos e primas. Eu me alegro em saber de que apesar de estarmos em menor número, ainda estamos juntos, e temos os seus maravilhosos textos, e tantos livros bons nos esperando nas estantes ou sobre o criado-mudo, e as músicas e filmes, enfim, temos nossas memórias, o amor presente dos que nos cercam e arte para dar algum sentido às nossas misteriosas vidas.

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      15/06/2015 at 14:14 #

      Que bom que você gostou. O convívio que não teria fim de certo modo não tem: se perpetua pela memória, que ainda tem a grata capacidade de melhorar as coisas. Há muitos anos li um livro de Alvaro Moreyra chamado “As amargas não” em que ela só contava do que tinha vivido as histórias boas. Estou indo pelo mesmo caminho. Bjs

  6. vinicius souza
    14/06/2015 at 14:35 #

    nossa, clea, que lindo
    saudades de ti
    de falar sem essa tela entre a gente

    • Hamilton Leda
      14/06/2015 at 18:54 #

      Pois é!

      Quão bem ainda manejas essa sua invejável memória, dosada de tão fértil imaginação!
      A nós, leitores de plantão, resta-nos apenas a indagação de sempre: Qual e quando será a próxima conversa?
      Parabéns e um fraterno abraço do primo.

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      15/06/2015 at 13:32 #

      Pois não é, Vinicius? Quando será que iremos nos encontrar? Por enquanto ainda não posso pensar em viajar, mas vocês, por que não vêm aqui nos visitar? Um grande abraço e obrigada
      Cléa

  7. Tami Bogea
    14/06/2015 at 03:08 #

    Querida tia Cléa, que coisa mais linda que escrevestes sobre os livros. Tenho uma relação semelhante. Me lembro bem que, aos 14 anos, li a obra de Jorge Amado quase toda em um verão passado na casa de meus avós Iaiá e Sinhô, em São Luis. Tenho que agradecer a meus pais por nunca terem me impedido de ter acesso aos livros… Bj

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      14/06/2015 at 11:35 #

      Oi, Tami

      Obrigada por sua delicadeza. Nós, que gostamos de livros, temos neles amigos fieis. Você vai ver no decorrer da vida. Um grande abraço
      Cléa