Cléa Sá

De livros e leitura

O meu gosto por livros vem de longe e acho até que sei por onde começou.  Segundo minha mãe, eu mamei no seu peito até perto dos dois anos. Já andava e era, parece, bem esperta, tanto que quando queria tomar leite,  pegava um livro e levava para ela. Muito cedo vi o gosto pela leitura em ação e colhi os primeiros benefícios do amor à leitura.

Meu pai e minha mãe gostavam de ler. Mas naquelas pequenas cidades onde morávamos no interior do Maranhão, já disse isso aqui,  não havia livrarias nem bibliotecas. Livros só quando meu pai ia à São Luís e os comprava,  ou quando chegavam pelo Correio, via  reembolso postal. Minha mãe era só alegria desembrulhando os seus pacotes.

E assim chegaram os nossos primeiros livros, que eram de uma coleção chamada Biblioteca Infantil* e traziam lindas histórias. Lembro de alguns: O patinho feio, Branca de Neve e os sete anões, O soldadinho de chumbo, A pequena vendedora de fósforos. Os livros eram pequenos, com gravuras coloridas,  e fáceis de ler. Um pouco depois, descobrimos o Sítio do Picapau Amarelo. Pedrinho, Narizinho,  Emília, Dona Benta, tia Nastácia, o Visconde de Sabugosa, o Marquês  de Rabicó, me lembro deles como de velhos amigos. Ainda sinto pena do pobre Príncipe Escamado e do anjinho da asa quebrada. E como invejei aqueles meninos deslizando nos anéis de Saturno ou andando pelo labirinto do Minotauro!

Um grande dia foi quando ganhamos nosso primeiro livro sem  gravuras: Tarzan na selva, de Edgar Rice Burroughs. Foi um grande passo, saímos das histórias infantis para os livros de aventuras. Havia uma coleção, a Terramarear, que nos levava a mundos maravilhosos:  A ilha do Tesouro, O último dos mohicanos, Robin Hood. Robinson Crusoé, sozinho em uma ilha deserta, vê pegadas  na praia. O que seria, meu Deus? O coração palpitava rápido, o medo se insinuava, mas corajosamente seguíamos pelas páginas e encontrávamos Sexta-Feira. Sofríamos com as zombarias feitas ao príncipe que trocou de roupa com o mendigo,  nos divertíamos com as aventuras de Tom Sawyer e Huck. Penso que o rio Mississipi entrou em nossa vida bem antes que o rio  São Francisco ou o rio Amazonas, por conta desses aventureiros. Um pouco depois, já nem sei como, apareceu-nos os livros de Karl May,  dos quais ainda lembro os nomes: Winetou,  Pelo Curdistão Bravio, Percorrendo as cordilheiras. Era aventura de não acabar mais.

Ler lá na nossa casa era uma atividade respeitada. Assim, se estávamos com um livro na mão, éramos dispensados de fazer qualquer outra coisa. Minha avó nos mandava realizar alguma tarefa e meu pai, rápido dizia, “não, deixe; ela está lendo”.

Por essa época também descobrimos as revistas em quadrinhos, os gibis. Juntávamos nossas moedas para comprar algumas ou líamos emprestadas de amigos de escola. Superhomem,   Capitão Marvel,  Marvel Jr.,  Capitão América, Miss América,  ai, era um outro mundo cheio de heroismo.  Meu  heroi preferido era Namor, o Príncipe Submarino. Descubro agora que ele se tornou vilão em filmes recentes. Como puderam fazer isso? Um crime contra nossa infância.  Outro, muito querido por nós,  era o Fantasma. Com seu cão Capeto e Heroi, seu cavalo,  e seus amigos, os pigmeus, enfrentava mil perigos. Chamado de O Espírito-que-Anda, por ter sido visto por gerações de nativos das tribos Longo e Wambesi, estava sempre às voltas com perigosos bandidos. Sua noiva, Diana, era linda. Líamos também  Luluzinha, Bolinha, Popeye. Os únicos quadrinhos  que eu detestava eram Os sobrinhos do Capitão, e nem sei por quê.

Por conta dos gibis, passamos uma grande aflição. Um irmão da minha mãe, que estudava para ser padre, convenceu meu pai que as histórias em quadrinhos iam nos tirar o gosto pelos livros. Tanto fez que meu pai, em um dia de fúria, pegou todas as revistas e tocou fogo. Acontece que muitas delas eram emprestadas, a  maioria  de um amigo, que por ser filho único e a mãe ter uma pensão, sempre  tinha dinheiro. Ai, que vergonha passamos.  E choramos muito. Por sorte, meu pai era inconstante e suas proibições rapidamente caíam no esquecimento. Logo estávamos de novo lendo os nossos gibis.

Vejo agora  o mesmo terrorismo, só que sobre os jogos na internet.  Os jogos vão impedir as crianças de gostar de ler, não vão ser criativas, não vão pensar, blá-blá, blá… Não creio nisso. Brincar é sempre muito bom e o tempo vai dizer, como disse quanto aos gibis.

Este conversa vai, conversa vem  sobre meu gosto por livros está só começando, vai longe.  Será uma história contada em  capítulos. Outros virão. Até!

* Editados pela Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato  em 1925

2 Responses para “De livros e leitura”

  1. marcos glanzmann
    21/07/2013 at 23:43 #

    Carissima:muito inteligente o seu artigo.Minha historia com livros é parecida com a sua.Agradeço a meus pais o meu gosto pela leitura.Tenho 60 anos e até hoje me emociono com a releitura da Terramarear.Hoje foi um dia feliz:consegui completar a minha coleção(50 anos pesquisando nos sebos do Brasil).Faltava-me o livro O Batedor de Florestas,que por acaso encontrei em um sebo virtual.Tal emoção não tem preço. Saude e Paz para você.

    • Cléa Sá
      clea
      22/07/2013 at 10:49 #

      Caro Marcos

      Primeiro, meus parabéns por ter completado sua coleção. Compartilho de sua alegria e concordo com você, é uma emoção que não tem preço. Já vivi algumas parecidas. Obrigada pela visita. Volte sempre.Um abraço
      Cléa