Cléa Sá

De lembranças antigas ao fim das utopias

Teria eu quatro ou cinco anos. Não sei precisar. Essa história sairá mal contada, pois não me lembro de tê-la vivido, e sim, e apenas, de tê-la ouvido. Morávamos então em Pastos Bons, onde meu pai era coletor estadual. Um parente seu e a mulher tomaram-se de amores por mim e pediram aos meus pais para me levarem a uma festa de Igreja em São João dos Patos, cidade vizinha onde eles moravam. Eles consentiram. Lá na porta da Igreja, no arraial, aproximou-se deles uma mulher que me pareceu muito grande e perguntou: “quem é essa menininha?” E eles “é filha de meu parente, Francisco Sá”. Ao que ela duramente disse: – “Que pena! Tão bonitinha, mas vai morrer de impaludismo quando eu transferir o pai dela para … ”. E disse o nome de um município muito pobre, do qual não sei o nome. Era Dona Noca, a chefe política local. Eu talvez não tenha entendido tudo, mas devo ter percebido a ameaça no tom de voz, tanto que comecei a chorar. O choro foi tanto que eles tiveram de viajar naquela mesma noite para me levar de volta para casa. Meu pai, quando soube, quis ir matar Dona Noca. Foi um Deus nos acuda! Mas ficou nisso: Dona Noca não conseguiu transferir meu pai para o tal lugar malfadado, eu não morri de malária, nem meu pai, graças a Deus, matou ninguém. Mas a história ficou e a ouvi muitas vezes na minha infância.

– Procuro agora saber quem foi essa Dona Noca que apareceu nesta lembrança antiga e descubro no Google que Joana da Rocha Santos, a Dona Noca, foi a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita municipal nomeada em 1934 pelo delegado do governo federal no Maranhão, para o município de São João dos Patos e dominou a política local por muitos e muitos anos. Parece que até os anos 1960.

Assim, desde cedo, percebi como dependíamos da política. Meu pai, funcionário público, era necessariamente governista, temia represálias caso ficasse em oposição ao governo do Estado. Depois, licenciado do serviço público, entrou na política de vez. Vivemos grandes aventuras, tudo dependia de ganharmos ou perdermos as eleições. Lembro-me de uma delas, em que estávamos convencidos de que nosso candidato ia ganhar e se eleger prefeito de Pedreiras. Não havia pesquisa de opinião, mas as adesões, as escolhas dos chefes políticos locais ditavam o rumo. Eram os “currais eleitorais” de que tanto se falava. Pois bem, naquele ano, antes de começarem as apurações, nós, os filhos, que tínhamos trabalhado o dia inteiro como fiscais do nosso partido em diversas seções eleitorais nos reunimos e começamos a contar histórias e mais histórias do que tínhamos vivido naquele dia, tudo com muitos risos. Só meu pai estava sério. E a certa altura, não aguentou tanta alegria e gritou: “parem de rir, vamos nos preocupar, nós perdemos a eleição”. E quando veio a apuração dos votos tínhamos perdido mesmo. Ele tinha seu Ibope. Durante anos esse “vamos nos preocupar” virou mote em nossa casa.

Quando muito jovem, meu pai admirava os “tenentes” da revolução de 30. Seu primeiro filho recebeu o nome de Juarez, em homenagem a Juarez Távora. Ele acompanhou por um curto período a Coluna Prestes, por razões que nunca ficaram claras para mim (há duas versões do fato) e agora não tenho mais como saber a verdadeira. Em 1964, nós, os jovens da casa, éramos todos entusiastas da luta pelas reformas de base, pelas Ligas Camponesas, por Miguel Arrais, apoiávamos João Goulart. Sonhávamos com a revolução. Meu pai jogava água fria nos nossos sonhos. Gostava de dizer que quando andava na Coluna Prestes não sabia de quem tinha mais medo, se das forças armadas que os perseguiam, se dos próprios companheiros: “arrancavam os dentes de ouro dos defuntos”, era como sempre terminava.

Mas quando do golpe militar, já velho, não aderiu ao novo governo pela primeira vez. Filiou-se ao MDB. Encarregado de organizar o diretório do partido em Pedreiras encontrou dificuldades. Os políticos locais que ele procurava para compor o comando do partido tiravam o corpo fora, alegavam isso e aquilo, mas depois disseram ter medo de ficar contra o exército. Ele acabou conseguindo, só Deus sabe como.

Agora, nessa época de eleições, muitas lembranças me vêm. E elas se misturam. Vejo o retrato do Getúlio na parede da Coletoria nos acompanhando com os olhos; lembro-me de minha mãe descrevendo o Palácio dos Leões em São Luís, que ela visitara a convite da mulher do interventor Paulo Ramos, ao mesmo tempo em que descrevia o chapéu e o vestido que usara então; lembro-me de pessoas do campo enfurecidas querendo matar o dono das terras onde trabalhavam e que se escondeu em um quarto de hotel; lembro de histórias de substituições de urnas por outras “preparadas” com votos para um único candidato; e também me lembro de mentiras, insultos e traições. Os alto-falantes enchiam o ar com as qualidades de seus candidatos e os defeitos dos seus adversários e nos comícios, sempre realizados à noite, os oradores não deixavam por menos.

Muita coisa mudou para melhor, vejo agora. Acredito que não haja fraude na contagem das urnas eletrônicas e amo a rapidez das apurações. Penso também que não há mais “currais eleitorais”, exatamente como eram antes, embora as pessoas ainda temam ficar contra o governo, seja ele qual for. As lutas continuam duras, e ainda vemos mentiras, insultos e traições. Só que agora difundidos pelas redes sociais e pelos programas de televisão. Acho que faz parte do jogo.

Sou muito interessada em política e sempre acompanhei como observadora atenta a política nacional.
Na nossa casa, depois que ficamos adultos, nossos interesses e preferências tomaram rumos diferentes. Meu irmão mais velho, militar, defendia o que chamava “revolução” e nós outros, “golpe”. Outro irmão era filiado ao PMDM, eu era a única a votar no Brizola, outro seguia o PSDB, os mais novos eram petistas, Fafinha era até filiada e dava sua contribuição mensal ao partido. E nós discutíamos, brigávamos, apresentávamos argumentos em defesa de nossas escolhas. Mas isso jamais afetou a nossa amizade, que permaneceu constante e firme. Por isso estranho o radicalismo atual nesta fase final de eleições: é ódio ao PT de uma parte, ódio ao PSDB de outra.

A política como é feita hoje não me agrada e até me assusta. A que se deve isso? Ao fim das utopias? Ao medo de um mundo que ninguém sabe ainda como será em face da constante e sistemática destruição do planeta? À provável escassez de recursos em face das grandes e prementes demandas? Por outras razões que não atino? Sei lá, não sei não, como diz Paulinho da Viola.

Só espero que passada a paixão eleitoral, nos debrucemos todos em busca de respostas para construir o país e o mundo que descobriremos querer. É aguardar. E torcer.

16 Responses para “De lembranças antigas ao fim das utopias”

  1. Ceissa
    20/10/2014 at 12:52 #

    Como sempre, é um prazer ler o seu texto, Cléa. Dá pra sentir o lugar, as pessoas, o clima emocional.

    O tema é de fato muito oportuno. A tal da política é mesmo coisa entranhada na alma das gentes

    humanas, não é?

    E você é de fato uma excelente cronista.

    Beijoca!

    Ceissa.

    • Cléa Sá
      Clea
      21/10/2014 at 10:56 #

      Obrigada, Ceissa querida, por ler e gostar. Fico feliz. Bjs.

  2. Cléa Sá
    Clea
    17/10/2014 at 21:35 #

    Marisa, agradeço suas palavras tão gentis. Achei bom que meu texto a ajudou a mergulhar em suas lembranças. Bjs
    Cléa

  3. Marisa Perrone
    17/10/2014 at 19:11 #

    Cleíta, adorei seu texto. Me fez lembrar de meu avô, nas terras de Minas, enquanto no Ri, nós, adolescentes ainda, os netos, ouvíamos a tia Ângela falar com admiração de Brizola. Mas, hoje, nós vivemos mesmo uma era de insanidade. Procuro ler alguns textos, como o seu, em alguns blogs, que traduzam alguma lucidez.

  4. Regina Motta
    Regina Motta
    15/10/2014 at 21:56 #

    Ah! Clea, como vc sabe contar uma história!
    Quanto à nossa situação atual, passei por constrangimentos face à pressão de amigos para votar no candidato “deles”. A eleição termina e as amizades podem ficar comprometidas! Vamos deixar as emoções de lado e preservar nossos preciosos amigos, seja lá quem for eleito!!!!
    Beijo, até lá, mas que nosso candidato vença!!! Ai, ai!!
    Desculpe, mas não resisti!!!
    Regina

    • Cléa Sá
      Clea
      16/10/2014 at 10:45 #

      Período difícil, não é Regina? Fico feliz que você tenha gostado. Obrigada! Agora já quero é que passem essas eleições. Está uma barra muito pesada. Um abraço
      Cléa

  5. Inô
    15/10/2014 at 21:31 #

    Cléia, mais um deleite para nós. Como disse um de seus amigos – adoro ler seus comentários! – quisera eu ter esse dom e essa memória. Na minha cidade, no interior de São Paulo, havia dois partidos políticos muito fortes. Meu avô materno era o melhor cabo eleitoral de um deles e o paterno de outro. Mamãe sempre me contava de seu casamento: a festa foi na casa dos pais dela e os convidados, de ambas as famílias, ficaram divididos. Uma turma dentro da casa e a outra no quintal. Eles não se misturavam. Era briga na certa.
    Desde que me lembro que gosto da movimentação das campanhas políticas, mas neste segundo turno meu coração anda apertado. Talvez seja pelo ódio de ambos os lados, como você bem diz. Só resta esperar que quem vença realmente trabalhe por um país melhor. Beijos

    • Cléa Sá
      Clea
      16/10/2014 at 10:47 #

      Ótima história a do casamento de sua mãe, Inô. Conheço bem isso pois sou do interior. Obrigada por suas palavras gentis. Um grande abraço
      Cléa

  6. Bené
    15/10/2014 at 19:31 #

    Querida Cleíta, mais uma crônica deliciosa que, tal qual as comédias italianas dos anos 60, tem ternura mas fala sério também. Ótima!

    • Cléa Sá
      Clea
      16/10/2014 at 10:49 #

      Que bom que você gostou, querido Bené. Recordar é o que melhor faço agora. Tento escrevê-las. Um abraço
      Cléa

  7. Maria Luiza Medeiros
    15/10/2014 at 10:28 #

    Oi, minha querida Clea,

    Q bom saber q vc continua escrevendo suas cronicas tao gostosas e informativas.

    Adorei. Infelizmente, o Brasil ainda esta longe de formar pessoas q saibam respeitar-se mutuamente. Princi

    palmente as criancas e aos idosos…

    Li varias vezes me deleitando com o seu jeito prazeroso de escrever, tratando um tema tao sensivel de

    uma forma deliciosa de se ler. Parabens!!! Um abraco afetuoso da amiga, Maria Luiza

    • Cléa Sá
      Clea
      15/10/2014 at 10:53 #

      Oi, Maria Luiza

      Agradeço suas palavras tão gentis. Fico feliz de você ter gostado. Um gerande abraço
      Cléa

  8. Vilmar R Freitas
    15/10/2014 at 10:20 #

    Olá, Clea. Muito boa e oportuna sua crônica. No dia da votação do primeiro turno encontramos, por a caso, 6 amigos e ex-moradores do CO da UnB em 1970 no Colégio CECAP do Lago Norte. Estávamos dividido na preferência, 2 para Dilma, 2 para Aécio e 2 para Marina. Eu e outro colega, que votaríamos na Marina, ficamos escutando os outros quatro a se debaterem pelo seus candidatos. A coisa começou a esquentar e terminou em risadas quando eu resolvi intervir e disse: Calma meninos, como diria Lula ” Devagar com o licor que o santo tá de sarro”.

    Vilmar

    • Cléa Sá
      Clea
      15/10/2014 at 10:52 #

      Oi, Vilmar

      Será que não é humor o que está faltando? Por que brigar? Esperemos dias melhores. Obrigada por ler e gostar.
      Cléa

  9. Cléa Sá
    Clea
    14/10/2014 at 18:59 #

    Obrigada, Marcello querido. Acho bom mergulhar nas lembranças e contar para vocês essas coisas que vivemos. Tudo importa. E agradeço suas palavras gentis. Um abraço saudoso Cléa

  10. Marcello Sá
    14/10/2014 at 18:40 #

    Mais uma bela crônica, Cleita! Quisera eu ter esse talento e tanto material “de memória” para me inspirar. Fiquei surpreso com essa história do vô Chico ter participado da Coluna Prestes, ainda que por pouco tempo. A gente sabe que a política sempre mexeu com corações e mentes, não somente aqui no Brasil, mas também nos demais países, que devem ter tido suas Pedreiras e Pastos Bons, ainda que com outras roupagens. Mas, de fato, há hoje muita agressividade no ar e na web, principalmente nas redes sociais. Nela há tanta coisa boa para se compartilhar, pra se propor ou mesmo para debater e divergir civilizadamente, mas há muita gente que parece tomada por aquele sentimento de manada que provoca-lhes os mais baixos instintos. Será que falariam a mesma coisa em um debate público, olhos nos olhos com quem pensa diferente? Será que por detrás dessa tela de LED muitos de nós nos tornamos piores ou somos mesmo assim, desde que possamos ter segurança para dizer o que de fato pensamos? Seguindo o fechamento do seu texto, também torço para que passada essa paixão eleitoral possamos todos refletir melhor sobre os problemas e as soluções para o nosso país. Beijos.

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