Cléa Sá

De ilusões ou pequenas alucinações

Quando eu andava pelos meus sete anos, sempre que ficava gripada meu nariz entupia e, ao me esforçar para respirar, via um campo verde com várias ovelhinhas brancas, umas deitadas, outras andando, outras ainda pastando. Uma paisagem linda, jamais vista antes. Era só fungar, tentar respirar e a paisagem surgia. Isso durou algum tempo, não sei quanto, depois sumiu. Quando dei por mim, para meu desgosto, as gripes vinham e iam embora e nada mais de campo verde com ovelhas, fungasse eu o que fungasse. Não toquei nesse assunto com ninguém, nem enquanto acontecia e muito menos depois. O lindo campo com as ovelhinhas era um segredo meu, parte encantada da minha infância.

Agora lendo um livro de Oliver Sacks, A mente assombrada, descubro que aquela visão tão bem-vinda não passava de uma alucinação causada por mau funcionamento do cérebro, um foco elétrico qualquer em alguma área, quem sabe uma epilepsia de pequeno grau. Ai, que tristeza!

E essa leitura, se aumentou um pouco meus conhecimentos, me causou inúmeras decepções. Oliver Sacks é um grande neurologista e escreve bem. Seus livros, baseados em estudos e experiências, são fáceis de ler e entender, mas têm um grave inconveniente: arruínam as nossas mais caras ilusões.
Se tudo tem uma explicação neurológica, onde fica o maravilhoso? É uma pena poder explicar todos os fenômenos estranhos à luz da ciência. Então os vultos vistos, as vozes ouvidas, as premonições, as sensações incomuns, os fatos estranhos não são nada mais que distúrbios causados por alterações no nosso cérebro? Provavelmente essa é a verdade, está aí o grande cientista a nos dizer isso.

Mas lastimo que algumas histórias, tão verdadeiras sempre me pareceram, não passem de alucinações, individuais ou coletivas. Assim, vejam:

. Em Poção de Pedras, cidade do interior do Maranhão, vivia um homem que matava cobra só de olhar. Gerson Sá, irmão do meu pai, dizia: “Vi, ninguém me contou. A cobra vinha, o homem olhava para ela e a cobra dava meia volta e entrava novamente no mato. Se ficasse, morria”.

. Um homem, em Milagres, outra cidadezinha do Maranhão, não podia nem olhar para uma criança pequena. Se o fizesse, a criança adoecia e podia até morrer. Ele botava “mau-olhado”. Minha mãe pediu ao dito homem que a ajudasse a descer do cavalo pegando a criança que trazia na lua da sela. O homem rapidamente virou o rosto para outro lado e se desculpou: não podia ajudar, faria mal para a criança.

. Meu pai estava longe de sua terra e teve um sonho ou visão. Sua mulher esperava o primeiro filho e ele em pensamento entrou no quarto, viu um berço com o cortinado de filó e quis olhar a criança. Aí despertou. A cena era tão vívida que ele anotou a data e a hora do acontecido. Algum tempo depois já em casa, a mulher lhe disse: “cheguei a pensar que você tinha morrido. Entrei aqui no quarto e vi você debruçado sobre o berço. Achei que era sua alma”. Impressionado perguntou quando tinha se dado o fato e ao conferir na sua caderneta verificou que coincidia exatamente com a data e a hora da sua visão.

. E gente que põe mau-olhado em planta? É olhar e a planta murcha. E quem vê disco voador? Uma pessoa muito séria que conheci garantiu que viu. E minha avó que viu um homúnculo no telhado da sua casa em uma noite de lua? Um E.T. minúsculo ou um anãozinho perdido de algum circo? E as pedras que cairam sobre as mulheres que tomavam banho no Rio Corda em uma noite? Atiradas de onde? por quem? Minha mãe era menina e não estava presente, mas garantia que só mulher de respeito contava a história. E a reza forte de Dona Chiquinha que fez o marido voltar para casa andando por léguas até que chegou com as solas dos pés cheios de bolhas? E sair do corpo como eu já saí e fiquei me vendo lá do alto, estirada na cama? E o menino que vi passando pelo corredor aqui de casa quando não tinha ninguém? E a sensação de estar sendo observada quando estou sozinha que me faz olhar para trás pensando ver alguém?

Tudo alucinação. Mas que é bom pensar que algumas dessas coisas poderiam ser verdadeiras e de fato apontam para o desconhecido, é. E acreditar, mesmo contrariando a ciência, que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Assim, entre o cientista e o poeta, fico com Shakespeare.

7 Responses para “De ilusões ou pequenas alucinações”

  1. josenita
    22/04/2015 at 12:05 #

    Que bom,Cléa, seu texto. E que bom tb que
    apesar dos neurologistas continuemos acreditando nas
    lembranças, nas histórias que nos contaram . No amor, no
    sorriso e na flor.
    Afinal nós não somos só neurônios, músculos e vísceras.
    Somos bem mais complexos pois somos seres de linguagem
    e isso faz a maior diferença. E depois de Freud sabemos que não
    somos os senhores em nossa própria casa,n ão somos seres da razão.
    . O inconsciente que o diga.
    Um bj, Josenita.

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      22/04/2015 at 12:28 #

      Nada a acrescentar, só a agradecer por ler e enriquecer o texto com seu comentário. Falou! Um abraço
      Cléa

  2. maria eugenia
    21/04/2015 at 14:00 #

    tia,

    Que lembrança linda, lembro da vovó contando essa história do vovô debruçado no berço..é de arrepiar!!
    Realmente acho que há uma delicada fenda entre como nosso cérebro trabalha e a existência de fatos inexplicáveis, nesse caso estou contigo, fico com o poeta !!! 🙂

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      21/04/2015 at 17:17 #

      É bom lembrar as nossas histórias, não é Eugênia? É uma forma dos nossos queridos permanecerem conosco. Beijos
      Cléa

  3. Regina Motta
    Regina Motta
    20/04/2015 at 23:28 #

    Oi, Cléa, muitos fatos/ alucinações que você relata são explicados pela doutrina espírita. Gostei muito do texto. Beijos, Regina

  4. Marcello Sá
    20/04/2015 at 23:18 #

    Mais um belo texto. É, Cleita, parece que mais e mais o avanço da ciência vai reduzindo o espaço do sobrenatural em nossas vidas. Será que um dia saberemos tudo sobre o cérebro humano e acerca do Universo? E se esse dia chegar ainda poderemos recorrer à transcendência? Quem sabe se não será a própria ciência que estimulará a nossa imaginação e fé com novas descobertas sobre o mundo quântico e coisas afins. Como não estaremos mais aqui, tudo é elucubração. Fiquemos com o belo texto que o próprio Oliver Sacks escreveu recentemente ao se descobrir muito doente: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-cancer-terminal-de-oliver-sacks-gerou-sua-belissima-carta-de-adeus/

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      21/04/2015 at 11:06 #

      Oi, Marcello
      Boas perguntas para as quais não temos respostas. Me parece que perguntar é o caminho. Vou ler o artigo do Oliver Sacks. Obrigada!
      Cléa