Cléa Sá

De histórias de amores impossíveis – reais e inventadas, filmes românticos e muitas citações.

A conversa é tranquila e versa sobre assuntos simples. Aí vem à baila o nome de uma família daquela terra. Esse nome toca fundo na alma da mulher envelhecida, que relembra um primeiro amor vivido há mais de cinquenta anos. E ela, que não casou nunca, relembra uma festa quando tinha quinze anos, um bilhete que recebeu e confessa – ainda o tenho guardado, está amarelecido. E diz o conteúdo do bilhete, palavra por palavra. Depois sorri encabulada.

Uma história triste que me contaram ontem. O homem já pelos setenta anos se toma de amores por uma jovem de vinte e sete. Ela não o quer. Ele insiste e insiste. Ela recusa sempre. Desesperado, ele põe gasolina no corpo e toca fogo. Morre uma morte horrível.

Ai, que o amor não tem idade! Volta-se aos dezessete anos, já o disse Violeta Parra. Ouço que Maité Proença cria no teatro uma mulher de mais de oitenta anos na qual a jovem e a mulher que foi convivem não sei se de modo doce ou aflito. Não vi a peça, só fiquei curiosa, mas sei que é verdade. Nós somos muitos.

Dina Brandão canta “o amor e seus descabelos”, Florbela Espanca diz para o amado que “podem voar mundos, morrer astros, que tu és como Deus: princípio e fim!…” e Camões explica que o amor “é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer”.

Das muitas histórias de amor, reais ou imaginárias, gosto particularmente da história de Abelardo e Heloísa, esta real e que se passou na França, no século XII. Ele, filósofo e professor; ela, sua aluna. A paixão os dominou. Foram separados, reuniram-se novamente, tiveram um filho e um casamento secreto, foram perseguidos, e Abelardo mutilado a mando do tio rancoroso de Heloísa. Desesperado, ele tornou-se monge; ela também tomou o hábito. Nunca mais se falaram, mas se corresponderam pelo resto da vida. Segundo o Google, eles repousam juntos no Père Lachaise, em Paris. E é verdade, vi a foto do túmulo.

Das inventadas, nenhuma melhor que a de Romeu e Julieta. Na sacada do quarto de Julieta, eles se perguntam se quem canta é o rouxinol ou a cotovia, pois se for o rouxinol ainda é noite e ele pode ficar um pouco mais, se for a cotovia já é manhã e Romeu precisa partir. Como se amam! Como não querem se deixar! Como se arriscam! Como Shakespeare é grande!

Dos tempos recentes, acho lindo o amor de John Lennon e Yoko Ono. Os fanáticos dos Beatles parecem que não perdoam a pobre/rica Yoko. Mas eles se amaram de verdade, isso é um fato.

Entrando no cinema, temos histórias e mais histórias. Imbatível para mim é o filme Tarde demais para esquecer, com Cary Grant e Deborah Kerr. E também Suplício de uma saudade, que só os antigos como eu viram, com a maravilhosa Jenifer Jones e William Holden. Maravilhoso é O Segredo de Brokeback Mountain, filme dirigido por Ang Lee, que conta uma bela e triste história de dois cowboys que se amam por anos e anos e que termina tragicamente. E aquele filme, parece que baseado em uma história verdadeira, Nunca te vi, sempre te amei? É de um encanto sem par ver aquele sisudo editor inglês e a escritora norte-americana a trocarem cartas de amor sem saber que o estavam fazendo. No cinema brasileiro, um dos mais belos, na minha opinião, é Inocência, baseado no livro de Visconde de Taunay e realizado por Valter Lima Júnior. Quem não viu, alugue. Vale a pena.

Eu poderia ficar ainda enumerando outras histórias de amor: lidas, vistas, ouvidas. As que vivi, não conto. Mas paro por aqui. E para fechar essa Conversa vai, conversa vem de hoje, nada como um soneto de Vinicius de Moraes que fala de amor como só um grande poeta pode e sabe. Até!

Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Vinicius de Moraes

2 Responses para “De histórias de amores impossíveis – reais e inventadas, filmes românticos e muitas citações.”

  1. Cléa Sá
    Clea
    07/11/2013 at 17:45 #

    Obrigada, Dina. Fico feliz por isso. E você viu que foi citada? Um grande abraço
    Cléa

  2. dina
    07/11/2013 at 16:42 #

    Gosto muito de ler teus escritos. Obrigada. Um abraço.