Cléa Sá

De futebol de várzea à Copa do Mundo

A cidade era pequena e por ela passava um rio que me parecia muito grande e largo. Era o Santa Rosa. Havia casas em que os quintais chegavam até as suas margens e em uma delas uma grande árvore tinha seus galhos caindo sobre o rio e nela nós subíamos para de lá nos atirarmos dentro da água. Ah! Não podia existir coisa melhor e nem precisava ter muita coragem: o tempo era quente, a água era tépida, nós éramos crianças.

Nessa cidade, Araioses, foi onde vi pela primeira vez um jogo de futebol. Domingo à tarde saímos todos nós, eu zanzando entre meu pai e minha mãe, os meninos-homens correndo na frente, para ver o futebol de várzea. E lá dois times da cidade, ou talvez de cidades próximas, quem sabe se Araioses e Conceição, uma vila próxima, disputavam uma partida. Havia entusiasmo, gritos de incentivo, xingamentos, comentários. Se o time da cidade ganhasse, haveria foguetes estourando e muita conversa entrando pela noite.

Minha experiência com futebol na infância foi apenas essa, assistir aos jogos domingo à tarde e por um curto período. Futebol era para os meninos, isso era coisa assentada, e não desejei participar de nenhuma pelada com meus irmãos. Eles viviam em um universo fechado, só de homens. As conversas sobre os jogos me pareciam cifradas e as discussões e brigas inexplicáveis. Meus irmãos, muitos, depois de crescidos formaram um time só deles. Vez por outra algum amigo completava, e o goleiro era sempre o Veludo, amigo até hoje. E haja conversa depois. Eu não me interessava nem um pouco. Mas por força do costume tive de escolher um time para torcer e escolhi o Flamengo, e por uma razão menor: pensando simplesmente em evitar brigas com meu irmão mais próximo em idade, já flamenguista. Por qualquer coisa nós brigávamos, até descobrirmos, passada a adolescência, o tamanho do nosso querer bem e deixar as desavenças para trás.

O tempo foi passando e nem sei como me vejo interessada em futebol e gostando de verdade do Flamengo. Por ocasião da compra do Romário foi preciso fazer uma vaquinha, eu mais que depressa fiz uma pequena doação por telefone e me senti orgulhosa de ter participado. Não me arrependi, gostava do Romário como jogador e gosto dele como deputado. Vamos ver se como senador, pois acho que ele será eleito, continuará fazendo bonito.

Mas tem um tempo em que o futebol, goste-se ou não, entra de vez em nossas vidas: é nas Copas do Mundo. Aí não tem homem ou mulher, criança ou velho: todos se animam, todos torcem, todos sofrem, todos vibram. Parece até que fomos nós e não os ingleses que inventamos o futebol. E este ano temos a Copa aqui em nosso país, em nosso chão. E tem sido uma Copa até aqui muito boa. Havia um medo claro de que teríamos grandes aborrecimentos no seu decorrer, em face das sucessivas manifestações contra os gastos excessivos com a Copa, os superfaturamentos, as obras malfeitas, as suspeitas de corrupção. Mas aconteceu o imponderável. Na medida em que começaram a chegar delegações estrangeiras, em que a seleção brasileira conquistou a simpatia do povo, essas questões foram esquecidas – ou adiadas – e entramos todos no clima de festa. Nossa tradição de hospitalidade – é só lembrar a alegria dos índios ao avistar as primeiras caravelas que aportaram aqui e o modo como os portugueses foram recebidos – prevaleceu e estamos todos felizes de ouvir línguas que não sabemos traduzir, rindo do encantamento dos estrangeiros com nossas belezas, satisfeitos de ver pessoas vindas de países que não sabemos nem onde estão localizados, não estranhando ou censurando nenhum comportamento. Belo e querido país este nosso. Um orgulho só.

E a Copa começa e começa cheia de surpresas. De repente um país pequeno como a Costa Rica, o patinho feio no meio dos cisnes Itália, Inglaterra e Uruguai, ex-campeões do mundo, surpreende e vence. A Espanha perde de goleada e vai para casa cabisbaixa. O Uruguai tem um herói, Luis Suárez, que se recupera de uma doença, faz um gol crucial e leva seu time a vencer a Itália e, logo depois, tem esse herói, por um gesto impensado e um pouquinho louco, estigmatizado, expulso e punido de forma exagerada pela onipotente FIFA. E o episódio ganha conotação política, a luta de potências poderosas contra um pequeno país. Teoria da conspiração? Sei não, não duvido de nada.

É, a Copa tem tido seus momentos trágicos, Espanha e Uruguai que o digam. Mas esta Conversa não é para falar dos jogos, o que eu bem que gostaria de fazer se entendesse de técnica e estratégia de futebol, mas sim das coisas bonitas e inusitadas que tenho visto pela televisão.

E quero falar das pessoas de várias partes do mundo que aparecem fantasiadas com as cores das suas bandeiras, postiças cabeleireiras imensas e cacheadas amarelas, azuis, verde-amarelas, laranja;

das arquibancadas com manchas azuis, ou vermelhas, ou laranja, marcando os torcedores dos times que estão disputando jogos, e essas torcidas cantam hinos e lançam ao ar gritos que parecem de guerra;

e do meu gosto por ver os jogadores entrando em campo acompanhados de crianças que têm a felicidade estampada nos rostos, as equipes sul-americanas cantando seus hinos a cappella desafiando as rígidas ordens da FIFA;

da diversidade dos povos, da beleza dos homens, dos cortes de cabelo fantasiosos, dos jogadores comemorando seus gols com abraços, uns pulando sobre os outros, rolando no chão, e depois executando passos de danças de seus países;

da educação dos japoneses recolhendo lixo nas suas arquibancadas, de ver os sul-americanos invadindo o Brasil em carros velhos, ônibus caindo aos pedaços e acampando nas praias do Rio;

e quero falar também dos holandeses batendo palmas para o pôr do sol em Copacabana, dos alemães confraternizando com os índios pataxós que fizeram até festa de aniversário para Klose, dos argentinos ocupando Porto Alegre e do orgulho dos vencidos uruguaios;

e do meu gosto por ver os jogadores rezando ao entrar ou sair de campo, a confraternização após os jogos daqueles que pouco antes se engalfinhavam, a tensão dos técnicos, uns bem à vontade e andando quilômetros na beirada do campo, outros mantendo a seriedade e vestidos sobriamente de terno e gravata, sabe-se lá a que custo neste nosso calor;

e tenho até vaidade com nosso tamanho e nosso clima. Temos tido jogos com calor acima de 30 graus e outros com temperaturas abaixo de 12 e vá saber quantos quilômetros os times viajam para jogar na Amazônia, no Sul, no Nordeste. Ah! Criança, não verás país nenhum como este! já dizia Olavo Bilac.

E é preciso ainda falar de gol que é a coisa mais linda que pode existir, mesmo quando fortuito, discreto ou devido ao acaso. E tem aqueles gols frutos de cabeçadas em homens que desafiam a lei da gravidade e ficam como que parados no ar, ou os decorrentes de chutes que mudam a trajetória desafiando as leis da natureza e entram em cantos impensáveis, ou os de cobranças de faltas a distâncias inauditas, ou aqueles pênaltis impossíveis de serem defendidos. É bonito, é bonito! É bonito demais.

E finalmente é preciso falar da nossa alegria, dos estádios todos verde-amarelos e do desejo parece que unânime de nossa vitória, esquecidos todos nós por alguns dias dos problemas diários, da dificuldade de cuidar da nossa saúde, dos ônibus insuficientes, das nossas dívidas, da inflação, das convenções partidárias.
Mas é Copa do Mundo e é isso que temos de fazer agora: torcer, vibrar, rezar e nos alegrar se formos mais uma vez campeões do mundo de futebol e se não formos, o que também é possível, nos alegrarmos por ter sabido, apesar de todos os percalços, fazer uma bela festa.

4 Responses para “De futebol de várzea à Copa do Mundo”

  1. Regina Motta
    Regina Motta
    02/07/2014 at 14:44 #

    Lindo poema!

  2. Lindo!!Como canta!!!
    30/06/2014 at 21:35 #

    Como gosto de jeito que escreve. tudo fica envolvente e parece que vejo o fato acontecendo. Parabéns. Um grande abraço.

    • Cléa Sá
      Clea
      02/07/2014 at 17:41 #

      Jucy, você sempre dizendo coisas bonitas. Agradeço. Um grande abraço