Cléa Sá

De Finados, pequenas histórias e poemas

Hoje fui ao cemitério visitar os túmulos dos meus mortos. Vou todos os anos por ocasião de Finados, não no dia, vou antes ou depois. Vamos de carro, eu e uma amiga, pois os endereços não são próximos e são vários. Vamos de túmulo em túmulo: observamos se estão bem cuidados, fazemos uma breve oração, depositamos flores e saímos com o coração leve.
Me sinto bem em manter esse costume cristão, já abandonado pelos meus. Sei disso porque em todos os túmulos que visitei não havia nenhuma marca de visita anterior. Não os critico. Eu também só bem tarde comecei a viver o dia dedicado aos mortos. Apenas depois das perdas é que senti essa necessidade. Mas essa conversa não irá por esse caminho. Não. Não falarei das minhas perdas e dores. Elas já se incorporaram em mim e se não quero esquecê-las, delas não quero falar. Só que cuido e visito os túmulos dos meus mortos.

Sempre me sinto em paz quando faço essa peregrinação. Este ano, foi um ano especial. Andamos pelas aleias devagar e com cuidado. O silêncio, o vento balançando as folhas das árvores, pássaros aqui e ali, túmulos bem cuidados, outros tristemente em abandono, tudo me levava à reflexão. Talvez pelo cansaço de tanto barulho dessa peleja eleitoral – vozes discordantes, debates, controvérsias -, o silêncio do cemitério me fez bem. Tudo passa. Aqui estão enterradas figuras ilustres da nossa República e milhares de pessoas anônimas. Todas tiveram sonhos, tristezas, alegrias e amores e agora dormem no silêncio, e estão, – onde estão? No céu dos católicos? No paraíso dos muçulmanos? No nada dos ateus? Nos vivos, com certeza estão.

Na infância, a morte não existia. Só na adolescência, ao ler os poetas românticos comecei a entrevê-la.
“Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!”

Então, plagiando Álvares de Azevedo escrevi: “Se eu morresse amanhã, terei algum irmão que me feche os olhos como ao poeta? Não sei. Que minha mãe chorará tenho certeza. Não morrerá, porém.” Eu devia então estar então muito descrente da amizade dos meus, como todo adolescente. Felizmente esqueci o resto deste rancoroso poeminha.

Mas de certo modo me enamorei da morte.

Por essa época li Sparkenbroke, livro de Charles Morgan, história de um poeta que, quando menino, é trancado no túmulo da família pelo irmão mais velho, e vive uma experiência incomum, não explicada na história. Entende-se que é espiritual, forte, pois dela sai pálido e mudo. A partir daí procura reviver o que sentira e faz isso através das experiências da poesia e do amor. É desse livro o poema:

“Esta noite eu pousei na árvore da morte.
Mas o vento do mundo arrebatou-me, vivo.
E, no pouso tristonho da gaiola,
Vi-me de novo pássaro cativo.
Chegaram novas de um país distante
E tanto palpitou meu coração,
Que, com certeza, sem que eu mesmo o saiba,
Meu bem e meus tesouros lá estão…
Chegaram novas! E minh’alma veio,
Num véu de sonhos, esperar à porta.
Sustendo as esperanças contra o seio,
Ela olha… ”

E assim por anos a morte acompanhou a minha vida, mas de uma maneira abstrata, poética, quase irreal.

Só quando da morte de minha mãe, fiquei frente a frente com a “indesejada das gentes”, na expressão de Manoel Bandeira. Senti muito a dor da sua perda e também me vi desarmada sem o anteparo que nos é dado pelos nossos mais velhos. Quando eles se vão ficamos na linha de frente, sem alternativas. É a nossa vez. E como dizia minha avó “quem de novo não morre, de velho é que não escapa” é o lugar em que me encontro agora. Pronta para o embate final. Que demore ainda é o meu desejo, pois também sou enamorada da vida.

Minha avó vez por outra aparece nessas minhas conversas. Ela teve muita importância para nós e venho descobrindo isso aos poucos com o passar do tempo. Foi interessante a sua vida. Casou-se cedo e foi com o marido para o Pará, nos tempos áureos da borracha. Lá moravam dentro da floresta e estavam sempre armados temendo ataques de índios. Ficaram ricos. Logo o marido morreu e ela voltou para sua terra, Barra do Corda. Casou-se novamente, teve dois filhos, mas não teve sorte nos casamentos. Dessa vez não enviuvou, mas o marido perdeu a razão e teve de ser levado para São Luís, amarrado, coitado! e lá foi internado em uma clínica que consumiu todo o seu dinheiro. Por lá morreu. Só, ela criou os filhos costurando dia após dia. Depois dos filhos criados, passou a cuidar de doentes e de mulheres que iam dar à luz e as acompanhava no resguardo de trinta dias, como era praxe nos tempos antigos. Nada cobrava. Assistiu ao parto da minha avó verdadeira, mãe de minha mãe, viu sua morte e ficou cuidando da recém-nascida, por quem se tomou de amores. Assim criou minha mãe e entrou em nossas vidas. Minha mãe contava que muitas e muitas vezes ela a acordava de mansinho no meio da noite, a embrulhava e levava para a casa vizinha onde morava uma sobrinha sua e dizia “fique aqui que vou ver quem está gemendo”. E saía na sua missão caridosa.

Pois é. Esse preâmbulo todo é para contar que quando chegou sua hora nem doença tinha, só mesmo o desgaste trazido pela vida vivida. E durante os dias e noites em que permaneceu acamada sempre havia alguém se adiantando para lhe enxugar o suor da testa, abaná-la com um leque, trazer suco ou água. Minha mãe pensava que isso era recompensa por sua vida anterior dedicada a cuidar dos outros. E, surpreendendo a todos, minha avó daquele leito que era o seu leito de morte chamava as mocinhas da casa e dizia, “já fizeram café para as visitas? Sirvam com biscoitos. E lavem as mãos!” Acho bonita a forma como minha avó morreu e por isso a incluo nessa conversa.

Espero que não achem triste isso de que falo. Pode até parecer, mas não é. Estou escrevendo sobre um tema que me atrai e escrevendo com real prazer. Acreditem.

E para terminar, uma pequena história:

Uma noite sonhei com o poema Que pena de um poeta húngaro, György Petri e que escrevia uma poesia. Acordei no meio da noite e rascunhei o que me pareceu o poema no papel que estava à minha cabeceira. Quando acordei pela manhã, vi que só havia escrito algumas palavras, não havia conexão entre elas. O sentido tinha se perdido. Mas perseverei e com elas, as palavras, escrevi este que aqui vai e que me deu uma grande alegria pois foi um poema nascido em sonho.

“Que pena

É uma pena morrer justo agora
que me sinto tão bem.
Os dias estão claros, translúcidos mesmo,
e  a grama que recobre as encostas e os passeios está verde como nunca.
As chuvas já se foram e nos deixaram esse verde presente.
Não irei sem lamento.
Sinto que o cão, o pobre cão, nada entenderá.
Vocês terão de ajudá-lo.
E também é preciso que cuidem do meu pé de antúrio,
o da flor tardia e miraculosa. Sei que o farão.
Mas tu,  tu, com quem conversarás?

15 Responses para “De Finados, pequenas histórias e poemas”

  1. Francisco Pestana
    06/11/2014 at 10:50 #

    O meu desejo mesmo é que, depois de morrermos, eu continue a ter a chance e o privilégio de ouvir suas histórias. Beijos
    Chico

    • Cléa Sá
      Clea
      06/11/2014 at 12:17 #

      Quem sabe, Chico? Já pensou…Beijos, filho, e agradeço
      Cléa

  2. vicente sá
    05/11/2014 at 11:28 #

    Estas suas crônicas são emocionantes demais, lindas até demais. Eu gosto e me emociono muito com elas. Valeu.
    Vicente Sá

    • Cléa Sá
      Clea
      05/11/2014 at 15:49 #

      Oi, Regina, você bem sabe como gosto de contar histórias…Fico feliz por você gostar. Bjs
      Cléa

    • Cléa Sá
      Clea
      05/11/2014 at 15:50 #

      Obrigada, querido Vicente. É um elogio e tanto esse seu, poeta. Bjs
      Cléa

  3. Regina Scorpione
    05/11/2014 at 09:58 #

    Gosto demais dos seus textos, Cléa! “Escuto” você me contando a história e fico com pena quando acaba, querendo mais.
    Obrigada, querida. Bjs

    • Cléa Sá
      Clea
      05/11/2014 at 15:48 #

      Oi, Regina, você bem sabe como gosto de contar histórias…Fico feliz por você gostar. Bjs
      Cléa

  4. Regina Motta
    Regina Motta
    05/11/2014 at 08:26 #

    Alegre, comovente, um ensaio. A Cléa poetisa, cronista, ensaiata, acima de tudo, minha amiga de muitas vidas….e mortes!
    Gostei demais.

    • Cléa Sá
      Clea
      05/11/2014 at 09:23 #

      OI, Regina, querida amiga

      Grata por suas palavras. Sim, seremos sempre amigas por vidas …e mortes. Bjs. Cléa

  5. Gláucia
    04/11/2014 at 22:11 #

    Sempre “viajo” nas leituras de seus textos. Fico com pena quando chega o fim.

    • Cléa Sá
      Clea
      04/11/2014 at 22:32 #

      Oi, Gláucia querida, que coisa boa você me disse. Obrigada! Bjs
      Cléa

  6. inês
    04/11/2014 at 20:55 #

    Belo. Terno. Triste. Tocante. Mais uma vez seu texto me emociona muito. Obrigada.

    • Cléa Sá
      Clea
      04/11/2014 at 21:07 #

      Obrigada, querida Inês. Bjs
      Cléa

  7. ana maria
    04/11/2014 at 19:18 #

    Doces palavras. Beijos
    amiga