Cléa Sá

De costumes, saudades e contra a tirania.

O filme Amor à flor da pele, de Wong Kar Wai, me encantou. Ando com vontade revê-lo por dois motivos: primeiro, é uma bela história de amor tratada com muita sensibilidade e segundo, quero conferir se há mesmo uma cena em que o personagem faz um buraco em uma árvore e com ele conversa sobre a sua dor. Esta cena, se é que ela existe mesmo no filme, me levou a um dia antigo em que Mãe-Titia, ao receber o diagnóstico de câncer na mama, me contou que já ia abrir um buraco na parede para contar do seu medo e sofrimento se eu não tivesse chegado naquele momento. Sempre me pergunto como esse ato de falar com um buraco, que deve representar as entranhas da natureza, pode aparecer em um refinado filme japonês dos dias atuais e faz parte também dos costumes de uma mulher simples do interior do Maranhão. Deve ser desses costumes que se mantêm embora suas origens tenham se perdido no tempo.

Certa vez fiquei observando minha filha com seu filho pequeno. Ela estava arrumando uma gaveta e ele, pequenino, tirava as peças de roupa e as jogava no chão. Ela pacientemente pegava as roupas e punha novamente na gaveta. Ele repetia a ação, ela também, sem uma censura. Acho que ele via naquilo uma brincadeira, e aí me lembrei de uma história. Um jovem médico, amigo nosso, tinha voltado de um trabalho junto aos índios e o que mais lhe tinha despertado admiração era a relação dos índios com os filhos. E contou, entre outras coisas, que viu uma índia fazendo potes de barro e o seu filho pequeno quebrando o pote que ela acabara de fazer. Ela nada dizia. Começava a modelar outro que o indiozinho voltava a quebrar. E assim por muito tempo, sem que em nenhum momento a índia perdesse a calma. A semelhança da atitude de minha filha com a da índia da história me espantou. Para as índias é o modo de tratar os filhos, mas na nossa cultura não é assim que tratamos as crianças. Qualquer mulher branca ralharia com a criança ou arrancaria os próprios cabelos. Mas gostei na hora de ver aquela cena e a lembrança daquele momento perdido no tempo ainda me encanta, embora não saiba a razão da semelhança.

Volto ao jovem médico nosso amigo que trabalhou com os índios. Não me recordo de seu nome, se é que o soube. Mas me lembro de sua fisionomia e também das histórias de tortura que ele sofreu. Isso naqueles tristes anos pós 64. Foi um tempo duro, mesmo para quem, como eu, não tinha envolvimento político. Mas dois irmãos, estudantes da UnB, tinham, e vivíamos sempre, literalmente, com o coração nas mãos. Se um deles ficava dois ou três dias sem dar notícias, já pensávamos no pior. E a procura era dolorosa. Certa vez, após uma passeata, Careca não apareceu. Um dia, dois, ninguém sabia dele. O medo ia tomando conta de nós. Fomos a hospitais, chegamos a procurá-lo no Instituto Médico Legal. Quando apareceu, no terceiro dia, estava tranquilo e contou que para fugir da polícia que desbaratou a passeata, pediu ajuda em um apartamento da 508 Sul. Foi tão bem acolhido que lá ficou até passar o perigo e depois mais um pouco, pois os donos da casa não queriam que ele saísse pensando em protegê-lo. Passado o susto, rimos muito pensando em como ele teria sofrido para conversar com seus protetores por dois dias, já que ele era de um mutismo atroz e só falava de modo solto quando bebia um pouco mais. Apesar de tudo, a juventude nos permitia rir. Outro irmão também nos fez rir ao contar que nesta mesma passeata viu umas senhoras na W3 gritando entusiasmadas. Certo do apoio, ele se aproximou para ouvir o que diziam e o que ouviu foi “bando de comunistas”, “deviam ser todos presos” e outras frases semelhantes, o que o fez sair de perto delas o mais rápido possível.

Morreram muito cedo esses meus irmãos. Mas morreram de doença e felizmente pudemos acompanhá-los no sofrimento, sabemos que não foram torturados embora um deles tenha sido preso e sabemos onde estão sepultados. É o único conforto diante de tão grande perda. E penso nas muitas famílias que ainda sofrem sem saber dos seus mortos, onde estarão seus corpos, quantos sofrimentos passaram. É preciso mesmo rever aqueles anos terríveis como estamos fazendo agora para que, atentos, não permitamos nunca mais ditadura neste nosso país.

Ai, este velho coração assoberbado de saudades! Tantos já se foram e eu aqui, ainda de pé, ainda gostando da vida e me surpreendendo com essa nossa capacidade de continuar, de rir, de encontrar o belo, de saborear um fruto, de mergulhar no mar. Muitos já se foram. Mas de certo modo não se foram de todo, ainda permanecem comigo: ainda outro dia, ao movimento do trem, meus dois irmãos mais novos dormiram e um se apoiava no meu ombro, e ele era terno e doce e querido. E fiquei quieta para não acordá-lo enquanto o trem seguia na longa estrada entre São Luís e Teresina. E quieta também fico agora quando as lembranças me vêm.

2 Responses para “De costumes, saudades e contra a tirania.”

  1. Cléa Sá
    Clea
    30/03/2014 at 20:06 #

    Obrigada, Vinicius. Tomara que você descubra “o enigma do buraco”. Um abraço
    Cléa

  2. vinicius
    30/03/2014 at 14:59 #

    nossa, Clea, que lindo!

    vc jah me emocionou muitas vezes e, agora, mais uma. vou tentar ver se consigo descobrir algo sobre o grito no buraco