Cléa Sá

De colégio interno, medo do inferno e outras lembranças

A escola não era risonha e franca. Era severa, com horários rígidos, muita reza e pouca brincadeira. Era o Colégio Santa Teresa, onde passei longos anos, mal saída da infância.
Lembro-me deles. E a primeira imagem que me vem é a da fila de meninas vestidas de modo igual, andando em silêncio pelos pátios, entrando de maneira ordenada na capela, indo também silenciosamente para o refeitório. Pouco se podia falar: quinze minutos pela manhã no intervalo das aulas, meia hora depois do almoço, outros quinze minutos à tarde em intervalo dos estudos e uma hora de recreio depois do jantar. Claro que se falava mais do que isso, mas baixinho e às escondidas.
Tristes meninas! Lá vão elas, as saias pregueadas de casimira azul, blusas de popelina branca de mangas compridas, meias de algodão e sapatos fechados. Naquele calor maranhense, lá vão as pobres meninas enfileiradas, prisioneiras.
Mas não era só tristeza. Também jogávamos bola, brincávamos de roda cantando canções e de pega-pega nos animados recreios.

“Vim aqui que meu rei me manda
Falar para vossa mercê
Das sete filhas do conde
Mandai uma pra ele ver

Eu não mando minhas filhas
No estado em que estão
Nem por ouro nem por prata,
Nem por sangue de alazão.”

Ah! Ainda me lembro dessa especialmente, a minha preferida entre tantas. E também tinha as aulas de Geografia, Madre Martins era bonita de dar gosto e por ela me apaixonei. Madre Cartaxo contava histórias no recreio da noite, sempre histórias tristes de meninos roubados por ciganos, um pedaço a cada noite. Davam um pouco de medo e vontade de chorar. E à noite, depois de termos rezado o terço na capela íamos para a sala de estudos e aí ouvíamos a leitura por uma das Irmãs de um trecho da Imitação de Cristo. Trata-se do diálogo de uma alma com Deus em linguagem antiga, talvez medieval. Era difícil de entender. Era preciso desprezar o mundo e se entregar inteiramente a Deus. O que era o mundo, eu me perguntava. É lá fora desses muros? O mundo é lá em casa? É a cidade? O que há de errado com o mundo? Não, eu não consigo entender o que é esse mundo tão ameaçador. O que sei é que a leitura é opressiva, eu sou pequena e tenho medo de Deus, que me parece rancoroso e mau. E tenho saudades da minha casa, do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos. Um dia pensei que seria bom se Deus não existisse, ficaria tudo mais fácil e logo me horrorizei por ter tido tal pensamento, era um pecado grave, com certeza eu iria para o inferno.

Uma das freiras, a Mestra-Geral gosta de mim. Minha mãe me entregou a ela quando me deixou no internato: – “ É a primeira vez que me separo da minha filhinha, tome conta dela”. Ela levou a sério e me adotou. E disse:- “quando precisar de alguma coisa venha conversar comigo, estou quase sempre no meu gabinete”. Eu também levei a sério e quando estava muito triste pedia para falar com ela à Irmã que estava na nossa sala de estudo (sempre havia uma freira conosco). O pedido causava espanto, mas eu conseguia a permissão. E lá ia eu pelos pátios vazios e silenciosos até o seu gabinete. Bato na porta, ela me manda entrar. Aí vem a conversa, que na verdade não é bem uma conversa, pois nada tenho a dizer, só estou triste. Então ela pergunta e eu respondo sobre as aulas, o que gosto de estudar, se minhas notas estão boas, se estou doente. Esgotados os poucos assuntos, ela se levanta, abre um armário e põe um pouco de licor em um cálice que bebo e me dá um calor gostoso. Depois me manda de volta para a classe, bate afetuosamente na minha cabeça e fica olhando enquanto me afasto feliz com o doce sabor do licor ainda na boca. Estranho, mas extremamente confortador, eu sentia então. E sinto até hoje.
No segundo semestre, quando retornei das férias, Mestra-Geral não estava mais no Colégio. Havia sido transferida e Madre Dantas, falsa e de cara fechada, era a nova ocupante do cargo. Foi a minha primeira perda.

6 Responses para “De colégio interno, medo do inferno e outras lembranças”

  1. Cléa Sá
    clea
    06/11/2013 at 15:12 #

    Oi, Comadre

    que bom ver este comentário. Me visite mesmo. Fico feliz que você tenha gostado. Mais histórias virão, espero
    Beijos
    Cléa

  2. Maria Helena Bogea
    06/11/2013 at 00:43 #

    Cléa,
    Gosto muito de suas histórias. a dr. Flávio me lembrou a nossa querida Pedreiras e levou as lágrimas.
    Também a do Colégio Santa Teresa. Visitarei sue blog mais vezes.
    bjs,
    Maria Helena.

  3. fabrízio
    25/10/2013 at 13:56 #

    Cléa, obrigado pelo texto. Quis ser padre quando criança, estudar em internato. Talvez só pra poder escrever, um dia, algo assim, singelo e puro.

    • Cléa Sá
      Clea
      25/10/2013 at 16:46 #

      Que bom ler seu comentário, Fabrizio. Estou grata.

  4. Cléa Sá
    Clea
    24/10/2013 at 22:52 #

    Querido Bené

    agradeço teu comentário, ele sim bonito. É bom partilhar essas lembranças de um tempo que às vezes parece que nem existiu, tão longe está. E também tão perto.

  5. Bené
    24/10/2013 at 22:13 #

    Muito bem escrito, Cleíta. Triste, mas bonito, como às vezes acontece com as lembranças do entardecer, nos fins de tarde de antigamente.