Cléa Sá

De coisas grandes e pequenas neste começo de ano

Neste começo de 2015, resolvi fazer diferente: nada de planos, nada de objetivos ou metas a serem atingidas, ou promessas que com certeza não serão cumpridas. Só viver. Os dias estão à minha frente, muitos, poucos? Não há como saber. A morte está sempre presente. “Ela já me espreitava de entre as telhas de uma longínqua casa” onde vivi quando menina e continua ao meu lado, ainda à espreita, ainda à espera. Convivo com ela. Às vezes tenho medo, às vezes, não. Sempre sinto pena quando penso no que vou deixar, se é que vou para algum lugar. Teu silêncio, o ligeiro toque da tua mão… A chuva caindo devagarzinho no correr da noite, o cheiro da terra depois de uma primeira chuva, as noite de lua… E os poemas, ah! As vozes, as muitas vozes dos poetas… É, terei pena. E enquanto ando por este vale, não só de lágrimas, aproveito e me maravilho com grandes e pequenas coisas.

Custei a ler Borges. Durante muito tempo me recusei a ler sua escrita motivada por razões ideológicas, do que até hoje me arrependo. Felizmente um dia deixei isso de lado e foi uma grande descoberta. E agora um poema seu, Limites, me acompanha: “De todas as ruas que escurecem ao pôr do sol deve haver uma (eu não sei dizer qual), em que já passei pela última vez sem perceber”. É assim que me sinto. Com Borges também compartilho ter conhecido um assassino, como ele conta em Fama: “Ter conversado em Palermo com um velho assassino”. Pois conheci, quando jovem, um assassino que lia versos e foi quem primeiro nos falou de Omar Khayyan.

Penso nas muitas pessoas que conheci ao longo da vida. Umas não deixaram sombras nem rastros, outras permanecem até hoje em algum recanto da memória, algumas fincaram escoras fundas que permanecem. Vez por outra me visitam. João é uma delas. Veio para nossa casa jovem e ficou por tantos anos que depois era chamado de João Velho. Ele me buscava na escola quando eu era menina e anos depois me ajudou a cuidar dos meus filhos. Foi a mais doce pessoa com quem convivi. Uma lembrança que também me é doce é ter ido com ele, já velho, quando nos visitava em Brasília, a um parque de diversões e ver o seu deslumbramento e medo ao andar no trem fantasma.

Outro é o menino Antônio Carlos, que foi nosso colega no Grupo Escolar em Coroatá. Era filho único de uma mãe que tinha uma pensão e tinha mais dinheiro que qualquer um de nós. Ele nos alimentava de revistas em quadrinhos, que chamávamos então de gibis. Sempre tinha novas revistas e era pródigo em passar para outros. Um tio nosso, que estudava para ser padre, meteu na cabeça de nosso pai que a leitura dos quadrinhos era perniciosa: ela nos impediria de gostar de ler livros e ficaríamos para sempre condenados a nada ler, só quadrinhos. Meu pai acreditou e em um dia de fúria, talvez até com raiva daquele cunhado sempre a martelar em seus ouvidos, fez uma fogueira com nossas revistas, entre quais muitas não eram nossas, eram do Antônio Carlos. Nosso desespero foi grande. Além de perder nossos tesouros, como dizer ao amigo que suas revistas tinham perecido na fogueira da intolerância?

Lembro-me desse longínquo incidente neste começo de ano ao ver o assassinato dos cartunistas de um jornal francês. Todos condenam o ato. Escritores de renome buscam explicar, alguns acham explicações, outros acham culpados além dos assassinos e dependendo da ideologia, a explicação já vem atrelada e a gente, mesmo leiga, percebe nas entrelinhas o real propósito de tal explicação. Um horror seguindo a outro horror. Eu não meto meu bedelho em tão duras e difíceis questões. Não tenho capacidade intelectual, nem formação acadêmica, que me permita entender tantos ismos: terrorismo, colonialismo, islamismo, fundamentalismo, cristianismo. Como explicar o terrorismo? Por que os europeus discriminam os estrangeiros? Apenas pela disputa de postos de trabalho ou existe o medo, como dizem alguns, de perder a identidade nacional? Por que saem contingentes de africanos e árabes de suas terras? Como entender o Islã se católica desde criancinha não entendo o cristianismo? E o fundamentalismo? Não, impossível. O que sei e posso afirmar é que a liberdade é o dom maior e a leitura, de livros a revistas em quadrinhos, é uma bênção nesta dura vida. E embora não seja particularmente chegada às charges, acho que essa é uma forma de mostrar o mundo, de criticá-lo, de mostrar os seus absurdos, e lastimo de coração a morte dos cartunistas.

Era fácil quando menina entender o porquê de estarmos no mundo. Bastava repetir o ensinamento do Catecismo: para amar e servir a Deus. À medida que crescemos, as perguntas continuam as mesmas, as respostas, porém já não fáceis de dar. Estamos no mundo para amar e servir a Deus? Já não sei. Deus é imenso, todo poderoso, é tudo, de nada precisa. Por que precisaria então de nosso amor e devoção? Nós é que Dele precisamos como precisamos do amor dos nossos iguais, de ajuda, de solidariedade. É, viver não é só perigoso, como dizia Riobaldo, é também difícil.

É difícil escolher caminhos, é difícil aceitar as perdas, como é difícil entender o porquê de uma menina de dez anos ter explosivos atados a seu corpo e ser obrigada a morrer e matar outros. É difícil aceitar a impossibilidade de paz entre israelenses e palestinos, povos irmãos, como é difícil constatar que as duas grandes guerras e os horrores do nazismo não foram suficientes para ensinar aos homens de hoje a importância da paz. E ver que os judeus que tanto sofreram então, hoje, israelenses, não enxerguem a situação dos palestinos, tão parecida com a deles no começo do século passado. E mais difícil que tudo é constatar que as mortes de pessoas têm peso diferente se elas são europeias ou africanas.

Os indianos, que têm deuses para tudo, têm o “deus das pequenas coisas”. Li isso num romance, nem sei se é verdade. Sei que é nesse deus que busco inspiração, pois para as grandes coisas não vejo saída. Assim, neste começo de ano arrumo com vagar meus livros, limpo meus armários, penso no que fazer para o almoço, olho o céu, vejo os macaquinhos que agora moram nas árvores que vejo da minha janela e nessas pequenas coisas encontro conforto. Assim, para todos os que me leem, desejo um ano bom, cheio de coisas pequeninas e reconfortantes. Até!

10 Responses para “De coisas grandes e pequenas neste começo de ano”

  1. Vicente Sá
    14/01/2015 at 11:55 #

    Esta prosa poética que tens me faz tanto bem. Acho que podíamos começar a pensar em uma publicação destes teus textos.
    Obrigado e um beijo
    Vicente

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      14/01/2015 at 22:51 #

      Obrigada, caro irmão! Fico feliz que você tenha gostado. E fico também um pouco envaidecida. Bjs
      Cléa

  2. maria eugenia
    14/01/2015 at 08:34 #

    Tia, quando leio o que a senhora escreve ganho o dia…agradecemos a Deus por sua presença em nossas vidas!!!! D+

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      14/01/2015 at 09:33 #

      Oi, Eugeninha, que coisa linda de ler. Vocês, sim, são a alegria da minha vida. Muitos beijos

  3. Lindo!!Como canta!!!
    13/01/2015 at 20:14 #

    Cléa, parece incrível, mas andei pensando nessas coisas nestes dias. Como sempre, você soube traduzir muito bem o que gostaria de escrever no meu humilde “!aos que amo”, que semanalmente envio aos filhos, sobrinhos e algumas amigas. Mais uma vez muito obrigada por seus textos maravilhosoa. Grande abraço.

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      13/01/2015 at 23:20 #

      Obrigada, Juci, é bom saber que não estou pensando sozinha. Traz consolo. Também gosto muito dos seus textos, e também das mensagens que nos transmitem. Agradeço estar entre os que os recebem. Um grande abraço
      Clea

  4. Lia
    13/01/2015 at 14:41 #

    excelente companhia para este comecinho de ano já tão complicado…

  5. Inês
    13/01/2015 at 14:24 #

    Sempre sensível, sempre tocante, sempre um texto delicioso. Que o Deus das pequenas coisas nos acompanhe a todos nesse 2015.