Cléa Sá

De casas, mudanças e histórias muito antigas.

Era um pequeno bangalô e ficava no alto de um morro. De lá, por uma estrada que serpentava no meio da vegetação, nós ficávamos olhando nossa mãe descer rumo à cidade. Eu não me continha nos meus quatro anos e chorava um choro desconsolado enquanto dizia a meu irmão, só um pouco mais velho “ela não volta mais, nossa mãe está indo embora, ela não volta mais”. Não me lembro se ele embarcava na minha história como não lembro de nada mais referente a este período. Como era o bangalô? O que fazíamos? De que brincávamos? Alguns fatos são tão fortes que esmagam os fatos adjacentes e deles não deixam vestígios, e é como se ficassem soltos no espaço e consequentemente na memória.

Meu pai era funcionário público e sempre que recebia uma promoção era transferido para uma cidade melhor. Era uma alegria: promoção, melhora no salário, mudança, a imaginação começava a correr solta sobre a nova cidade. Eles tinham um pouquinho de alma de cigano que nós herdamos. Ninguém reclamava da mudança. Decidida a data, meu pai viajava na frente para alugar a casa onde deveria funcionar a coletoria e onde também iríamos morar. Minha mãe ficava arrumando a mudança: se desfazia de coisas, vendia algumas, dava outras, embalava os utensílios e as roupas em caixas, enquanto providenciava o meio de transporte. Pode ser até difícil crer com as facilidades de hoje, mas viajar naqueles anos pelo interior do Maranhão era uma grande aventura. Mudamos de cidade por vários meios, cavalo, trem, caminhão, lancha, mas a mais fantástica foi a mudança que fizemos de balsa, uma grande prancha de toras amarradas que tinha cobertura de folhas de palmeira, quarto para dormir, cozinha. Encomendada por minha mãe. Essa foi a mais bela viagem que fizemos descendo um rio, talvez o Parnaíba, e indo de uma cidade para outra, mas não sei mais que cidades eram e infelizmente não tenho mais como saber.

Mas volto às cidades e às casas. Naquele tempo, em um Brasil antigo e profundo havia costumes que penso não existirem mais. Assim quando se chegava a uma cidade, recebíamos visitas dos vizinhos, do padre, das autoridades como o prefeito, o juiz. Depois meus pais saíam a pagar as visitas, conheciam outras pessoas e as relações se estabeleciam.

Por conta desse costume foi que descobrimos a causa das estranhezas de uma casa onde moramos. A casa era simples, tinha um pequeno jardim, mas nela havia um tristeza difusa. E lá não éramos felizes. Uma tarde entrei no quarto da minha mãe e a vi soluçando abraçada aos punhos de uma rede. Saí de mansinho assustada, sem coragem de querer saber o que era ver minha mãe soluçando abraçada aos punhos de uma rede. Mas volto às visitas. Elas constantemente perguntavam se estávamos gostando da casa, se tudo corria bem. A casa era a casa, não tinha nada de estranho, a não ser um cheiro de jasmim que perpassava nos finais de tarde e não havia nem um pé de jasmim no pequeno jardim. Minha avó andou procurando pelas ruas próximas, nada de jasmineiro. Por conta do cheiro de jasmim, descobrimos a história da casa. Os antigos moradores era um farmacêutico e sua mulher. Aí receberam a visita da prima da mulher, que veio para poucos dias, resolveu ficar uma temporada e foi ficando. A mulher adoeceu, sentia um mal-estar indefinido, começou a definhar. O marido era muito bom com a mulher. Cercava-a de cuidados, tratava-a com carinho, trazia-lhe presentes, preparava os seus remédios. Vizinhos e amigos testemunhavam e admiravam tanta dedicação. Ela tinha uma especial predileção por jasmim e ele saía procurando e pedindo a flor para quem tivesse um jasmineiro em casa a fim de agradar a mulher. Bem, em resumo, a mulher foi definhando, definhando, definhou até morrer. O marido, agora viúvo, deixou passar o tempo de praxe e casou com a prima da mulher. Houve murmúrios, desconfiança de que ele matara mulher. O povo passou a tratar o casal com frieza e só. Eles não puderam permanecer na cidade. Venderam a casa e a farmácia e foram embora, para Floriano ou Teresina, não sei. Castigo da justiça humana não houve que nada ficou provado, ficou só a suspeita. Castigo de Deus, quem poderá dizer? Mas a casa ficou assim, com esse cheiro de jasmim e trazendo desassossego e infelicidade a quem nela morasse. Assim que soube da história, meu pai procurou outra casa e nos mudamos. Só fez um comentário, “por isso é que o aluguel estava tão barato”.

Em Brejo moramos em um sobrado enorme. As lojas do coronel ficavam no andar térreo, agora lacrado. O coronel José Guilherme, que devia ter sido um homem muito rico, mas àquele altura estava decadente, nos alugou o primeiro andar e nele a gente quase se perdia. Quartos, salas, salões, cozinha antiga com um enorme forno de barro. E passando o quintal, uma fábrica abandonada. Em uma de suas dependências, descobrimos um caixão de defuntos. Ainda pensamos em brincar de morto, entrar no caixão e ficar lá com a tampa baixada. Mas não houve quem tivesse coragem e a brincadeira nem foi tentada.
Minha mãe colocou os retratos da família nas paredes de um dos salões. Pais, mulher, filhos que já tinham morrido e era um horror. Aqueles retratos de gente morta nos seguiam com os olhos e só se conseguia passar por aquele salão correndo. E certa vez entrando na cozinha vi duas meninas vestidas à moda antiga. Elas me chamaram para brincar. Andei um pouquinho na direção delas e aí lembrei que eu era a única menina da casa. Saí correndo em disparada. Alucinação? Visagem?

Foi por esse tempo que peguei medo de morte, dos mortos, de alma. À noite era um sofrimento andar por aqueles salões, cheio de sombras, eu me agarrava à saia da minha avó e só queria dormir no seu quarto. Um belo dia, o medo passou. Do jeito que veio, foi embora.

Em Araioses moramos em uma casa com um grande quintal cheio de árvores, e lá no fundo tinha um pequeno curral com uma vaca e um bezerro, que repartia seu leite conosco e ainda aguentavam nossos gritos. Mas apesar de ter a vaca e bezerro em casa, eu tinha desejo mesmo era pela casa de uma amiga cujo quintal terminava no rio Santa Rosa e de um galho de árvore podíamos pular dentro da água.

Já a de Pedreiras foi a última das muitas casas onde morei com meus pais. Perdida já a infância adentramos no temeroso e por vezes tenebroso período da juventude. Aqui paro porque seria necessária uma lauda ou duas só para esta casa e agora o cansaço me pegou. Fica para outra vez. Até!

9 Responses para “De casas, mudanças e histórias muito antigas.”

  1. Regina Motta
    Regina Motta
    28/09/2015 at 19:34 #

    Cléa, não faça assim conosco! como é que você interrompe a fascinante história de suas moradas? Vamos, quero saber mais! estou como uma criança que aguarda mais mistérios!
    Grande beijos, recupere-se logo.
    Saudades,
    Regina

  2. Marcello Sá
    07/09/2015 at 22:10 #

    Querida Cleita, que dom maravilhoso esse o seu! Claro que burilado por anos de sólida formação literária e das experiências de vida. Você consegue nos transportar para um Maranhão antigo e sempre misterioso. Que delícia de viagem! Beijos e parabéns!

  3. Vicente Sá
    07/09/2015 at 12:39 #

    Que delicadeza. Viagem pela sua mão.Obrigado.

  4. josenita
    04/09/2015 at 23:33 #

    Cléa, que memória! Reais ou versões conservam
    uma pureza sem cerimônia. Só vc Cléa para nos deixar
    na expectativa de outra narrativa.

    Bj.,Josenita.

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      06/09/2015 at 11:33 #

      Não sei o que me deu para revisitar as casas da minha infância. Claro que tem real e inventado junto, mas me fez bem escrever. Obrigada!

  5. Hamilton Leda
    04/09/2015 at 16:59 #

    Meus cumprimentos Cleíta, por este seu singelo texto repleto de doces recordações de um passado ainda tão presente. Que venha muito breve as laudas da mudança para a casa de Pedreiras, a única que pessoalmente conheci e suponho ainda algo recordar. Bjs do primo!

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      06/09/2015 at 11:34 #

      Oi, Primo, obrigada por suas palavras. Enfrentar lembranças de Pedreiras é a parte mais difícil. Que sabe? Um abraço

  6. Daniela Melo
    04/09/2015 at 14:49 #

    Delicia de leitura. Lembrei das minhas, e muitas, histórias de infância. Bj, Dona Cléa!