Cléa Sá

De carnavais antigos, rolézinhos e da situação geral

Há dias venho pensando em escrever sobre o carnaval e esbarro em dificuldades: primeiro não sei por onde começar; depois acho sem graça o que escrevo e penso que ninguém vai se interessar por essas pequenas histórias. Mas é uma conversa apenas e vamos ver o que sai daqui, apesar de reconhecer que carnaval não é mesmo a minha praia. Não que não goste. Gosto. De ver o povo brincando, da irreverência dos foliões, das marchinhas antigas, dos sambas-enredos das escolas de samba, mas no país da minha memória carnaval traz lembranças ruins e logo que começo a escrever sobre essa festa elas me vêm à mente. E aí o assunto fica pesado.

Éramos muitos irmãos. E o carnaval era a ocasião propícia para “aprontarmos”: um de nós bebia demais, outro arrumava briga, meu pai ficava desgostoso, a fisionomia sombria, minha mãe, aflita, enfim, mesmo quando tudo estava correndo bem havia um medo latente do que ainda poderia vir. Um desassossego.

Tínhamos uma cachorrinha chamada Colombina. Era pequenina, branca, felpuda e carinhosa. O nome foi sugerido por nossa mãe em homenagem a algum carnaval antigo. E vejo agora enquanto escrevo que as lembranças bonitas de carnaval que tenho não são minhas, são as que foram vividas e contadas por minha mãe.

A cidade era Barra do Corda, nos anos 30. O salão da prefeitura ficava como dia iluminado por dezenas de petromax e o assoalho de tábuas corridas brilhava com a cera esfregada durante a tarde. Lá é que se davam os três bailes de carnaval. Os rapazes, se não usavam fantasia, iam de terno e gravata. As moças faziam fantasias diferentes para cada noite: eram arlequins, colombinas, pierrôs, melindrosas, Carlitos (personagem criado por Chaplin) e marinheiros. E brincavam e dançavam ao som de orquestra que tocava marchinhas e que contava entre os músicos com alguns índios formados na Escola de Música dos frades capuchinhos.

Tia Lena fez a fantasia mais linda que se possa imaginar, de sereia. A cauda de peixe, cheia de escamas brilhantes, quase escondia os pés. E ela tinha de andar e dançar em passinhos miúdos. Ai, tia Lena, dos meus encantos! Menina eu ficava admirando seus vestidos e sapatos e sempre que podia neles me metia e ficava brincando de ser ela, andando e fazendo pose de moça. Ela não me ralhava por isso e até achava graça. Era bonita e, diferentemente das moças do seu tempo, precisou trabalhar fora muito cedo para ajudar o pai. Muito discreta não gostava de falar de sua vida e de seus amores. Mas sabíamos que ela tinha sido apaixonada por um primo e o casamento, por razões que não sei, não aconteceu. Ela teve outros admiradores e pretendentes, mas ficou solteira. Diziam dela “está vendo no que dá escolher demais? Vejam a Madalena, terminou sem casar”. Não sei se escolheu demais ou se não esqueceu o primo.

Em Pedreiras, homens comumente sérios se transvestiam e ficavam irreconhecíveis. Mãe Maria brincava nos Cadetes do Samba e nem lembrava a comportada babá de todos os dias. Pessoas conhecidas pareciam outras de tão alegres. Blocos dos quais esqueci os nomes saíam nas tardes do domingo. Havia blocos de sujos, havia bêbados, havia blocos de rapazes. Tudo era bom de ver.

Nesse tempo, a sociedade era dividida. Havia o Clube Pedreirense considerado de “primeira” e a União Pedreirense, de “segunda”. À “primeira” pertenciam os comerciantes, os fazendeiros, os funcionários públicos, os que tinham dinheiro ou, se pobres, pertenciam a famílias consideradas “boas”. Na “segunda” estavam os trabalhadores: estivadores, domésticos, os pobres. Os rapazes de “primeira” frequentavam seus próprios bailes e podiam ir aos bailes de “segunda”, mas nenhum rapaz de “segunda” se atrevia a ir aos bailes de “primeira”. Em certa ocasião houve um princípio de revolta: os rapazes do clube União tentaram impedir a entrada dos rapazes do Clube Pedreirense nos seus bailes e houve briga feia.

Olhando para trás nesse período de carnaval, tenho um pouco de vergonha de não ter me dado conta na época da discriminação existente lá na minha cidade. E fico pensando se agora isso ficou realmente no passado. Não creio que tenha havido muitas mudanças nesse particular. Hoje as crianças têm acesso ao ensino, houve uma melhoria das condições de vida para quase todos, muitos deixaram de ser pobres. Mas os costumes não mudaram muito. Basta ver o horror que tomou conta de muita gente com os rolézinhos dos jovens da periferia em São Paulo e de outras cidades ao tentarem passear nos shoppings. Como se atrevem! Diziam e escreviam em editoriais e redes sociais. Doutores foram chamados para falar sobre o problema e houve até reunião com a presidente da República. Pois é, como a Pedreiras de muitos anos atrás, no Brasil de hoje ainda há gente de primeira e de segunda, infelizmente. E até de terceira. Basta ver o artista que dias atrás por ser negro, sem nenhuma apuração, foi preso como ladrão mediante a acusação de uma mulher apavorada. E há os que estão fora de qualquer categorização: aqueles acima de bem e do mal, acima das leis.

Mas volto ao carnaval. Do que mais gosto são dos blocos. Da criatividade e irreverência dos seus nomes e da maneira como desafiam o que é politicamente aceito como adequado. Aqui em Brasília temos o Pacotão, que saiu pela primeira vez em 1978 e que tem seu nome derivado do “Pacote de abril” de 1977, quando o então presidente da República Ernesto Geisel, penúltimo general a comandar o país durante a ditadura, lançou um conjunto de leis para alterar as regras das eleições. A partir daí, desfilando sempre pela contramão da W3, a Sociedade Armorial, Patafísica e Rusticana – nome oficial do bloco – criticou a distensão lenta, gradual e segura do regime e até hoje ironiza governos e fatos. E temos aqui muitos outros. Entre eles o Babydoll de Nylon, que este ano fez furor, e o Galinho de Brasília, alegria da criançada.
Andei passeando pelo Google procurando nomes de blocos para melhorar esta conversa. Vejam alguns que encontrei:

No Rio de Janeiro,

– Parei de beber, não de mentir (Curicica)
– Já comi pior pagando (Tijuca)
– Se não guenta por que veio? (Tijuca)
– O negócio tá feio e seu nome tá no meio (Engenho de Dentro)
– Velozes e Furiosas (São Conrado)
– Eu choro curto mas rio comprido (Rio Comprido)
– Meu bem, volto já (Leme)
– Me beija que sou cineasta (Gávea)
– Ninguém é dono de ninguém (Recreio)
– Volta, Alice (Laranjeiras, na Rua Alice
– Largo do Machado mas não largo do copo (Largo do Machado)

Em Pernambuco

– Antes Aqui Que Na UTI
– Big Brocha Brasil
– As Loucas do Cemitério
– Eu tô Liso, mas tô na Mídia
– Faça Amor Não Faça a Barba
– Quanta Ladeira
– Eu acho é pouco
– Eu acho é pouquinho
– Bacalhau do Batata
– O galo da madrugada
– O homem da meia noite
– As Traquinas de São José
– As velhas debaixo da cama
– Batutas de São José
– Flor da Lira

E pra não deixar de falar em minha terra, lá em São Luís o bloco Os Vampiros ganhou o carnaval.

Recomendo que leiam esta pequena conversa ao som da música Anda Luzia, cantada por Sílvio Caldas, que postei aqui no blog. É uma das primeiras marchinhas que aprendi e é linda. Mas podem ouvir qualquer outra, contanto que seja de carnaval. Até!

Em tempo: Alguns nomes são inventados. Quando não me lembrava direito, inventava.

8 Responses para “De carnavais antigos, rolézinhos e da situação geral”

  1. Beth Fernandes
    10/03/2014 at 18:32 #

    Clea, adorei o texto (gostoso de ler) que me trouxe à lembrança meus carnavais de menina, em São Paulo. As matinês no Clube Tietê e, depois dos 16, os bailes noturnos sempre acompanhadas de uma das mães que, coitada, enlouquecia nos acompanhando com os olhos rodeando o salão. Faziamos blocos com fantasias costuradas por uma das mães, costureira do bairro, e nosso maior pecado era fugir do salão para fumar escondido ou dançar alguma marchinha com um dos rapazes que cercavam o grupo.. Era tão ingênuo e tão bom

    Mas logo que “virei” jornalista e peguei uma cobertura de carnaval deixei os clubes pra lá. Daí para a frente foi o Nós sofre mas nós goza (bloco de Sampa) e o Pacotão, desde que cheguei a Brasília.

  2. Francisco Pestana
    07/03/2014 at 10:05 #

    Aqui no Rio, o carnaval de rua parecia o mesmo, apenas algumas fantasias novas e música de estilo funk, rock, jazz de Nova Orléans…saí na banda da Glória, era ruim mas foi bom. Interessante foi a escola de samba de Tubiacanga, puro “luxo” e muita auto-estima, fiquei animado com ela.

    • Cléa Sá
      Clea
      07/03/2014 at 10:20 #

      Chico querido
      Que bom você ter brincado carnaval. Deve ser interessante essas misturas de ritmos e estilos. Beijos
      Cléa

  3. David
    07/03/2014 at 01:57 #

    Adorei seu texto, sua sensibilidade e contestualizaçao perfeita com o nosso atual e triste mundo de julgamentos e apedrejamentos . Saiba, em tempos de sentimentos de honra pelo obscurantismo do fascismo, pessoas como vc dão força. Valew mesmo.

    • Cléa Sá
      Clea
      07/03/2014 at 10:20 #

      Obrigada David por suas belas palavras. Valeu!
      Um abraço
      Cléa

  4. josenita
    06/03/2014 at 20:59 #

    Clea, eu tb gosto do blocos e das marchinHas.
    E, na minha terra, no Recife, tem o Vassourinhas.Aliás, acho que é um clube, não sei.
    Mas, tem o bloco da Saudade, Q

    • Cléa Sá
      Clea
      07/03/2014 at 10:22 #

      Josenita, o carnaval da sua terra é o melhor para mim. Já vi um de perto, há muitos anos. Sou encantada com a criatividade e irreverência dos blocos. Agradeço os acréscimos. Enriquecem o texto. Beijos
      Cléa