Cléa Sá

De belas e boas lembranças

Meu pai tinha pé chato. O que significava pouco equilíbrio, andar cambaleante e suspeita de que bebesse. Certa vez, nos primeiros anos do seu casamento com minha mãe, chegados a uma nova cidade onde ele ia exercer seu trabalho de coletor de impostos do estado, uma senhora da cidade comentou com minha mãe: “tenho pena da senhora, tão jovem, casada com um homem tão mais velho e que ainda por cima bebe”. Minha mãe ficou indignada, mas contou essa história por anos e anos, sempre achando muita graça. Pois bem, o andar de meu pai me vem à lembrança agora: era véspera de uma das minhas viagens de volta a Brasília, com minhas quatro crianças e estávamos saudosos, tanto meu pai como eu. E aí, lá vinha ele com uma xícara de leite morno para me dar, uma coisa surpreendente, pois ele por costume sempre era servido e não servia nunca. Mas, digo, lá vinha ele, cambaleando, o leite se derramando no pires, só recebi metade na xícara, mas foi o leite que tomei agregado de tanta ternura e afeto que se não sinto mais o seu sabor depois de tantos anos, sinto ainda, pela lembrança, a certeza do seu amor por mim. Certeza que me ampara e tem me dado força sempre.

Meu filho, que me visita agora, pensa e me diz que vivo muito só. Engano e grande. Moro só, mas tenho sempre muita companhia: família, amigos, meu cachorro, livros para ler, filmes para assistir, o mundo pela internet e, sobretudo, as lembranças que guardo e que são a minha melhor companhia. Elas vêm assim sem mais nem menos. Ou motivadas por algo que é dito, visto, sei lá. Sei que vêm e são bem-vindas. Das ruins, que também existem, corro rápido. Enxoto-as com vigor. Basta tê-las vivido.

Lembro-me do título de um livro de muitos anos atrás: As amargas, não. Fui conferir no Google e era de Álvaro Moreyra. Um livro de lembranças, que como diz bem o título, deve se debruçar apenas sobre as boas. Não me lembro das histórias que eram contadas. Acho que o li para o título vir tão presto à minha memória. E é assim que sempre faço: recebo bem as boas lembranças, que fiquem, passeiem, encompridem-se, aprimorem-se. Quanto às más, deixo-as de lado. E se insistirem em ficar, troco de afazeres, me ocupo e com elas não perco meu tão querido e quem sabe curto tempo.

E assim me vem um acontecimento que estava perdido lá atrás, vivido nos meus tempos de estudante e que deve ter voltado à cena ao ver os jovens peregrinos no Rio de Janeiro na Jornada Mundial da Juventude. Eu era jovem de dar gosto e gozava a liberdade de quem acabara de sair do colégio interno para viver em um pensionato, quase dona do meu nariz. Digo quase, pois havia horários rígidos para as refeições e para a hora de entrar à noite. Mas isso não nos impedia de dormir até tarde se se quisesse (desde que não nos importássemos de perder o café da manhã), de matar aulas, de ir ao cinema à tarde sem companhia, de vaguear pela cidade. Os bondes e lotações estavam ali e custavam pouco. Pois bem, numa dessas andanças conheci um rapaz, quase da minha idade, italiano que tinha, não sei como nem por que, vindo parar em São Luís. Acho que nos conhecemos tomando caldo de cana e comendo pastel na Praça João Lisboa, em um ponto de bonde. Começamos a conversar, simpatizamos um com o outro, voltamos a nos encontrar e ficamos amigos. Foi a segunda pessoa de outro país que conheci de perto e ele me causava um misto de curiosidade e preocupação. Tão novo e sozinho em terra estranha, eu pensava. E queria saber da sua vida, da sua terra, por que tinha emigrado. Ele, por sua vez, buscava em mim certo abrigo, queria aprender coisas do Brasil, do Maranhão, da língua, e também precisava não se sentir tão só. Nossa convivência terá durado um semestre, se tanto. Fui de férias para Pedreiras e na volta não o encontrei mais. O que terá sido feito do meu amigo italiano, emigrante de tempos difíceis? Quando e por que foi embora? Terá voltado para seu país? Mudado de cidade? De nada sei. Mas, para meu próprio espanto, embora não me lembre do seu nome, ainda me lembro da sua figura: pequeno, cabelos  louros e cacheados e, apesar das dificuldades por que devia passar,  alegre de dar gosto. E tocava acordeom.

Taí. Essa foi uma boa lembrança. É com gosto que a acolho e sei que veio na onda dos muitos jovens que enfeitaram e alegraram  o Brasil por estes dias.

5 Responses para “De belas e boas lembranças”

  1. maria eugenia sa
    09/09/2013 at 10:31 #

    lindo, tia

  2. Marcello Sá
    14/08/2013 at 00:05 #

    Oi, Cleita! Além de estar curtindo muito o seu texto, estou compartilhando o link do seu site com os amigos do Facebook. Parabéns mais uma vez.

    • Cléa Sá
      clea
      14/08/2013 at 09:39 #

      Marcello, obrigada , tanto por ler (e gostar) como pela divulgação. É bom ter novos leitores do do nosso blog. Beijos Cléa

  3. Bené
    03/08/2013 at 21:38 #

    Belíssimo texto, Cleíta, como sempre trazendo uma vista cálida sobre o passado…

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      04/08/2013 at 11:29 #

      Obrigada, Bené. Por ter lido e gostado. Beijos