Cléa Sá

De A festa de Babette, reis da Idade Média e Pelé

A baronesa dinamarquesa, Karen Blixen (1885-1962), escrevia com o pseudônimo de Isak Dinesen. Baseada em sua obra foram feitos dois belos filmes: Meus dois amores, com Meryl Streep e  Robert Redford, direção de Sydney Pollack e A festa de Babette, com Stéphane Audran, de Gabriel Axel. Quem não se lembra daquele filme que nos deixava com água na boca, literalmente? Pois bem, ela escreveu também uns contos maravilhosos. Num deles, autobiográfico, conta a história de uma carta que  recebeu do rei da Dinamarca por algum motivo muito especial. Pois essa carta,  imaginem, vez por outra era pedida emprestada por algum nativo africano, entre os quais vivia, para ajudar na cura de alguém doente. Claro que ela emprestava e a carta era sempre devolvida religiosamente e com mil agradecimentos. As tribos talvez fossem massais, somalis, não sei ao certo, pois li essa história há muito tempo. Hoje me interessei pelo assunto e, pesquisando, descobri que na Idade Média  havia a crença na Cura pelo Toque do Rei, uma prática que ocorria nos reinados europeus, quando as pessoas levavam seus doentes para serem tocados pelo monarca. Isso ocorreu do século XIII até meados do século XVII. Dizem que na Inglaterra o rei Eduardo I tocou mais de mil doentes e o rei Carlos II, no século XIII, atendeu a mais de 90 mil. Que caminhos essa crença percorreu para chegar até a África do início do século XX? Mal posso imaginar. Vocês devem estar se perguntando aonde pretendo ir com tal história e me explico. Quero chegar ao nosso Rei, ao Pelé, que hoje aniversaria, está fazendo belos 70 anos. Pois leio no jornal de hoje (Folha de São Paulo) que ele em entrevista à revista Playboy, em 1993, relatou que “diversas vezes visitou crianças desenganadas em hospitais e as viu se recuperar diante de sua simples presença”. E conta mais, que “pais pediam que visitasse seus filhos em hospitais,  criança que estava sem comer nem falar com a mãe há 10, 15 dias, quando me vê muda tudo.” Estão vendo? Temos um Rei e temos a nossa Cura pelo Toque do Rei. Você duvida? Eu, não. É pra gente ficar feliz: temos o maior jogador de futebol do mundo, de todos os tempos, e  um Rei que também cura.  Parabéns, Pelé!

 Adendo a essa crônica

 Em 1994, em Ruanda, houve um grande genocídio, o massacre dos tutsis e hutus moderados pelo grupo étnico majoritário, os hutus. Mais de 500.000 pessoas foram massacradas. Na ocasião o fotógrafo Sebastião Salgado estava lá e se viu  cercado pelos tutsis, que pensando que ele era francês, iam matá-lo. Para convencê-los que não, que era brasileiro, falou o nome de Pelé. O nome foi sua salvação. Foi imediatamente reconhecido e conseguiu sair ileso.

Ele contou esse fato no Programa do Jô Soares dessa semana,  o que me fez lembrar desse texto já publicado em outubro de 2010 no meu blog antigo. Resolvi republicá-lo para confirmar: Pelé está sempre fazendo  milagre.

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