Cléa Sá

Das manifestações atuais aos políticos antigos

Em recuperação de uma cirurgia, impedida de maiores esforços, fico aqui no meu canto assistindo ao mundo pela internet e pela tv. E o que vejo só em parte me espanta e surpreende, já que estou nessa longa estrada há bastante tempo. As manifestações de junho que se espalharam por todo o país e causaram frisson chegaram, na minha modesta opinião, em boa hora. O País estava quieto demais. E agora é ver no que vai dar. Muita coisa aconteceu em pouco tempo: No Congresso, projetos foram rapidamente desengavetados e votados, os governos estaduais e municipais correndo atrás dos prejuízos, atenderam às demandas mais urgentes e o Judiciário mostrou serviço ao determinar a prisão de um um deputado, o que já havia passado do ponto. O governo central também se mexeu, não tão rápido porque precisava tomar pé, mas se mexeu por fim. E agora é esperar.
Enquanto isso, leio e observo: a parcialidade das opiniões, os enviesamentos a partir da posição em que está o que escreve, os argumentos que são paixão, engano, artíficio, arremedo, tudo, menos argumento. Pois destituído de um mínimo de isenção. Isenção que também me falta, pois tendo a acolher com mais benevolência aqueles pontos de vista que mais se aproximam dos meus.
Mas são bons tempos, não há como negar. E como sempre faço, mesmo tentanto me ater ao presente, meus pensamentos voltam para o já vivido, para velhos acontecimentos e chego até meu pai, que era um político às antigas, com os defeitos comuns aos políticos de então, de cidade de interior, que aceitava o lema “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”, e que zombava um pouco de um irmão que queria fazer tudo da forma mais correta possível e o chamava pejorativamente de “Dr. Pureza”  (às suas costas, naturalmente). É, meu pai. Tinha um cuidado especial com os pobres e as viúvas, fazia favor para os amigos, conseguia nomeações, transferências, fechava os olhos aos desmandos do seu partido e quando reclamávamos de sua aceitação, respondia: “É melhor assim com o PSD, que já está há muito no poder. Se entrar a UDN, vocês vão ver: vão com mais sede ao pote”. Pois esses eram os dois grandes partidos daquela época. E quando, muito jovens, nós nos entusiasmávamos com uma sonhada revolução, com a reforma agrária, com as Ligas Camponesas de Francisco Julião, com a Lei da remessa de lucros, ele, meu pai, vinha pondo água fria na fervura: “andei um tempo com a coluna Prestes e a certa altura não sabia de quem tinha mais medo, se do Exército que nos perseguia, se dos companheiros que arrancavam até dentes de ouro dos defuntos”. Era pragmático. Mas  sincero e bom, não perseguia ninguém, isso lembro e afirmo em sua memória. Em 64, era deputado estadual e foi encarregado, pelos seus chefes, de organizar na sua cidade o diretório do MDB, então criado por decreto. Ao lado da ARENA. Andou em muitas portas, falou com muita gente, amigos, pessoas influentes na cidade e não conseguiu arregimentar o número de membros necessários para instalar o diretório. Diziam os que eram por ele procurados: ” MDB? Não, o senhor me desculpe, mas aí é contra o Exército e não posso me arriscar”. Aí, sim, eram tristes tempos. E quando chegou a data de eleição do novo presidente da Câmara de Deputados do estado do Maranhão, foi o fim para ele. Ele voltou para casa, cabisbaixo: “um tenente estava à porta da sala e nos passava um papel com um nome escrito:’este é o nome em que o senhor deve votar'”. Votou, mas não se conformou. Foi a gota d’água pra ele. Abandonou o fazer político. E não muito depois, morreu.
Tenho medo de ditadura. Como tenho medo da expressão “controle social da mídia”, tão em voga atualmente. Não sei como se daria tal controle, que rumo tomaria. Em nome de um bem maior, não teríamos um mal maior? Não sei opinar a respeito, mas pela estreiteza das opiniões que leio, pela má fé dos argumentadores, tanto dos favoráveis ao PT como dos seus contrários, só penso no pior dos mundos. Parece que voltamos aos tempos de PSDxUDN, mas pior.

 

Li, pretendo reler e recomendo o livro: A Mistificação das Massas pela Propaganda Política,
clássico da análise política do século XX de  Serge Tchakhotine, em  tradução atribuída a Miguel Arraes.

Uma opinião para “Das manifestações atuais aos políticos antigos”

  1. vinicius souza
    08/07/2013 at 19:47 #

    querida,

    tb acho que voltamos ao PSD e UDN, talvez pior. Como disse antes, tb temo um golpe (nao no estilo 64, mas no modelo recente paraguaio). Soh nao temo, como vc, o tal “controle social da midia”. essa eh uma discussao tao inviesada como a do plebiscito. o que os movimentos ligados aa esquerda (e nao necessariamente ao PT, que tem hj um traidor no MinCom) quer eh “democratizacao da comunicacao”, ou seja, pluralidade de vozes. exatamente para tirar o poder que 6 famiglias tem de se comunicar com 99% da populacao brasileira calando todas as vozes alternativas cujo unico microfone, por enquanto, eh a Internet. vc certamente se lembra bem como foi a grita da imprensa, especialmente do Lacerda, em favor da UDN e contra as reformas de base prometidas por Jango, reformas que nao vieram nem mesmo depois de 10 anos de governo “de esquerda” (entre aspas gigantes) do PT. Perguntinha basica: na grita atual da imprensa contra o plebiscito, quantas vezes vc ouviu na Globo (ou viu na Band, Folha, no Estadao, no CB…) a expressao “financiamento publico de campanhas” e sua relacao com a “corrupcao”, tao alardeada por eles como “grande motivo por tras das manifestacoes”???