Cléa Sá

Das coisas pequeninas

“Aqui onde um gato conclui
seu abandono, cria-se a tarde
e o seu vento. O sol
ilumina o secreto ofício
das cousas, o mar está longe
mas seu existir nos banha. E naves
de silêncio iniciam viagens para trás
para dentro de mim e do tempo.

A paisagem se cumpre sobre
velhas casas que sustentam
séculos no ar”.
José Chagas (1924-2014)

Esses versos do poeta José Chagas me induzem a fazer longa viagem de volta no tempo buscando encontrar nas minhas lembranças e nas que passaram a ser minhas por me terem sido contadas conforto e talvez alguma significação.

Caminho na ponte sobre o rio Mearim que separa Pedreiras da Trizidela. Sou menina, feliz, e vou visitar mãe Amância. O rio enchera, subira, tomara ruas e casas da Trizidela, entre elas a nossa. Meus pais foram para a casa de um amigo e voltaram poucos dias antes do meu nascimento. Minha mãe contava que a casa ainda estava úmida e pequenas rãs saltitavam sobre o cortinado do meu berço. Mãe Amância foi quem me trouxe ao mundo. Fui trazida por aquelas mãos negras e fortes e recebida com um sorriso amigo que depois conheci quando a visitava, única obrigação que meus pais me impunham nas férias. E o que começava como obrigação, tornava-se uma alegria ao ser recebida por aquela mulher que até parecia feia de início, mas que ao me reconhecer sorria e ao seu sorriso o sol aparecia e tudo ficava bom.

Agora ando a cavalo, mas não estou só. Sou bem pequena e viajo na lua- da- sela do cavalo do meu pai. É um passeio, há muita alegria, vozes altas, mas sinto dor no estômago quando o cavalo galopa, seguro a dor o mais que posso até que não consigo mais e começo a gemer. Aí acontece o inevitável: meu pai volta e me deixa em casa entregue a minha avó. Choro tanto da dor como de ter sido deixada para trás.

Minha avó nos contava histórias. Uma princesa, para fugir de perseguições, se disfarçava vestindo uma casca de árvore. Acho que era a versão cabocla para a ”Pele de asno”, de Perrault.  Essa princesa a tudo que lhe perguntavam respondia “não me lembro, não me lembro”, e nossa avó balançava energicamente a cabeça em negativa ao falar, o que nos fazia rir. Outra, totalmente fantástica, contava de um jovem que atravessava o oceano de navio e a certa altura tinha de romper cadeias de ferro atiradas ao mar para impedir sua passagem e, em outro trecho da história, precisava alimentar um monstro e  na falta de alimentos cortava nacos da própria coxa. Um horror!  De meter medo também eram duas histórias sempre repetidas e sempre causando o mesmo medo: a da mulher gigante que assustava o caçador que dormia na árvore ao lhe oferecer o peito dizendo: quer mamar? Quer mamar? E as vozes da casa mal-assombrada perguntando posso cair? E quando o homem corajoso, que se atrevera a passar a noite naquela casa que já afugentara tantos,  dizia que sim, caía uma perna, nova pergunta, resposta afirmativa, e aí caía outra perna, e depois um braço, outro braço, até que se formava um ser. O homem era premiado por sua valentia com uma panela cheia de moedas de ouro que estavam enterradas naquele quarto e nós respirávamos aliviados.  As aventuras de João e Maria, abandonados pelos pais na mata, me faziam olhar com desconfiança para meus pais por um dia ou dois; e a mais triste de todas, a da menina enterrada viva que cantava e nos fazia chorar com o seu canto triste:
“Jardineiro do meu pai
não me corte meus cabelos
minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou 
pelo figo da figueira
que o passarinho beliscou”.
E pensar que eu ia viver para ver esta história acontecendo de verdade. Ai, é uma tristeza só.

Procuro esquecer, volto para minha nave de silêncio e mergulho novamente. A canoa vai devagar, estamos em um alagado e palmeiras de buriti se alteiam e conduzem o nosso olhar para o alto e há um silêncio que só é quebrado pelo suave barulho dos remos na água. Não sei para onde vamos, nem sei onde fica este lugar que parece de sonho. Mas sei que existiu, disso tenho certeza.

Como existiu Barra do Meio, o lugar mais lindo que já vi. Foi lá que vivemos a nossa primeira e única viagem de férias em família e para lá retorno sempre que a dor me pega. As pequenas lagoas entre as dunas, o azul das águas, a noite estrelada… Lá encontramos um peixe-espada morto e o levamos como um troféu. Ainda o tenho, não o peixe real, mas a emoção da descoberta e da alegria que sentimos, meu irmão e eu.

No Poema Sujo, Ferreira Gullar diz “e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta estarão esquecidas para sempre”. E assim é. Quando morremos, morrem as pequenas coisas que guardamos, as que nos fazem, nos compõem e sem as quais nada somos. Somos um rio que corre, uma lancha cheia de redes atadas que segue de Pedreiras para Barra do Corda, somos o trem que nos leva de São Luís para Coroatá, os meninos que oferecem pratos para o almoço na estação de Cantanhede, a rua que foi fechada lá em Pedreiras para que coubessem todos os que queriam ver Luiz Gonzaga cantar, somos a primeira vez que votamos e nosso candidato perdeu, somos meu pai, minha mãe, somos os irmãos, somos muitos, somos só.   Somos nossos filhos nascendo, somos a mãe que os parem. Ah! Quantos somos! Somos a noite no Sereia, somos aqueles que ouvem jazz e desejam se dar as mãos, somos o gosto do cigarro depois do café, a cerveja gelada, o primeiro mergulho no mar.

E a morte que nos ronda encerrará um dia esta pequena odisseia e dará por finito os amores, as dores, os anseios, as esperanças e as pequeninas coisas que vivemos e guardamos e é para afugentar o medo que escrevo nesta hora.

16 Responses para “Das coisas pequeninas”

  1. Vilmar R Freitas
    30/05/2014 at 10:09 #

    Olá, Clea. Belo texto. Ao lê-lo lembrei da conversa que tive com Wilson Pereira na reunião do Sindical, quando perguntei do porquê ele não participar do nosso clube do livro. Após responder que estava em outro clube de leitura me perguntou e a Clea continua escrevendo? Respondi, claro e como!

    Vilmar

    • Cléa Sá
      Clea
      30/05/2014 at 13:14 #

      Oi, Vilmar,

      Obrigada pelo que você escreveu e também disse ao Wilson. Estou toda, toda…
      Um abraço
      Cléa

  2. vicente sá
    21/05/2014 at 12:01 #

    Devo ser mesmo um manteiga derretida pois não consigo te ler sem muito me emocionar. Esta prosa poética é tão suave, é tão pungente. Não sei se agradeço ou se reclamo ainda com os olhos marejados.
    Bjs
    Vicente Sá

    • Cléa Sá
      Clea
      21/05/2014 at 21:34 #

      Já eu me emociono com teu comentário, querido irmão. E agradeço.

      Cléa

  3. Carmen
    17/05/2014 at 14:31 #

    Adorei, Cleíta. Quanta sensibilidade!

    • Cléa Sá
      Clea
      18/05/2014 at 02:23 #

      Obrigada, Carmencita. Beijos

  4. Ines
    16/05/2014 at 17:05 #

    Gostei muito!!!! Somos feitos de milhares de coisas pequeninas que logo tornam-se pequeninas lembranças nos outros.

    • Cléa Sá
      Clea
      16/05/2014 at 17:34 #

      É isso aí, Inesinha. Obrigada pela leitura prévia. Valeu! Beijos
      Cléa

  5. Francisco Pestana
    16/05/2014 at 12:52 #

    Que maravilha de texto … voltei ao passado mais de cem anos, galopei e senti o vento e o calor do sol no meu rosto, revi velhas casas, senti medo, virei criança de novo… seu texto é mágico… parabéns e beijos

    • Cléa Sá
      Clea
      16/05/2014 at 13:35 #

      Oi, Chico querido,

      Obrigada. Fiquei feliz com o que você escreveu. Bjs
      Cléa

  6. Regina Motta
    Regina
    15/05/2014 at 23:09 #

    Clea, este texto daria um livro encantado de memórias. Gostei muito!

    • Cléa Sá
      Clea
      16/05/2014 at 00:22 #

      Obrigada, Regina. Você me lê com bondade. Bjs
      Cléa

  7. Bené
    15/05/2014 at 18:22 #

    Belíssima crônica, Cleíta; O fecho é redentor.

    • Cléa Sá
      Clea
      16/05/2014 at 00:21 #

      Oi, Bené, que bom que você gostou. Um beijo
      Cléa

  8. HAMILTON LEDA
    15/05/2014 at 17:40 #

    Minha prima Cléa, em mais um voo poético impulsionada por suas leves asas do amor…

    • Cléa Sá
      Clea
      16/05/2014 at 00:20 #

      Agradeço suas gentis palavras, Primo. Abraço
      Cléa