Cléa Sá

Da velhice

Minha mãe cuidou, e cuidou bem, de seus velhos. Quando seu pai ficou pobre e não pode mais manter a casa, ela o acolheu com carinho. Cuidou de Vovó, sua mãe de criação, até sua morte já bem velhinha; cuidou de Mãe-Titia, uma tia que de tão querida era também chamada mãe e que perdera o seu único filho. E esses cuidados eram dados de forma leve, não havia o peso de reclamações, de caras feias, de contas de despesas. Para isso, ela contava com a ajuda de meu pai, generoso também. Já, quando ficou mais velha, não precisou de ninguém para cuidá-la. Ela mesma se cuidava, e bem. Já eram outros tempos, ela tinha sua aposentadoria e gostava de ter sua casa, onde recebia amigos e filhos. Solidão era uma palavra que ela não conhecia. É preciso saber envelhecer. Saber se adaptar aos novos tempos. Aquelas famílias grandes, pai, mãe, filhos, avós, todos morando na mesma casa, já estão extintas e não voltarão. Agora, por razões diversas, as pessoas, depois dos filhos criados quando os têm, moram e envelhecem sozinhas, e devem criar seus próprios mecanismos para viver bem. Para começar, é preciso ter renda. Os que não têm, esses precisam necessariamente contar com a ajuda dos filhos e, se isso não ocorre, há que contar com o apoio do Governo ou de organizações que os ajudem. Não é fácil. No meio rural de determinadas regiões, no Nordeste, por exemplo, são os velhos que ajudam os novos. A aposentadoria recebida complementa, quando não é a única fonte de rendimentos de muitas famílias. Lá talvez ainda continue o sistema das famílias grandes de antigamente vivendo juntas e se ajudando mutuamente. Nas cidades grandes normalmente não é assim. Domingo passado algumas coisas chamaram minha atenção para esse tema. Fui ao cinema e no filme “Goodbye, Solo” o personagem Solo, que é originário do Senegal, conta como os velhos são tratados entre seu povo. São cuidados e quando perdem os dentes, os seus amassam ou desfiam a comida com suas mãos e os alimentam. Em tempo, o filme é muito bom. Depois, no toilette, conversei com uma senhora que precisava muito conversar, me pareceu. Ela me contou que tinha dois filhos, que um morava em outra cidade e que com o outro não tinha relações muito boas.  Ela tinha assistido a esse mesmo filme e já estava com a entrada comprada para ver outro, logo em seguida. Aquilo me fez pensar. Seria falta de tempo em outro dia para vir ao cinema? Seria um amor tão grande por cinema que um filme só era insuficiente? Ou seria a maneira de preencher uma tarde de domingo solitária e vazia? Não sei.  Naquele mesmo dia li uma entrevista com a atriz Cleide Yaconis, de 85 anos, falando de trabalho, de perdas, da velhice e da vida. Saliento alguns trechos que me fizeram refletir: “as coisas benéficas da idade são todas interiores, o corpo é que é o problema”; e mais, “ não tenho medo da morte e preencho a solidão com minhas lembranças”; e, ainda, “eu era euforicamente feliz. Hoje, eu sou serenamente feliz. Muda a cor, muda o tom da felicidade”. Cleide Yaconis está sendo homenageada. Vai ser nome de uma casa de espetáculos em São Paulo.Também octogenária, Jeanne Moreau é homenageada no Festival do Rio, e tem muito o que falar sobre sua vida e, sobretudo, sobre os filmes que fez. E nós, que a vimos em Jules e Jim, Joana Francesa, Os amantes, como esquecê-la?

Fiz a mim mesma muitas perguntas. Como não ter medo da solidão? Como aproveitar bem os anos da velhice? Será mais fácil para os artistas envelhecer? Ou não?  Por enquanto estou só com as perguntas. As respostas virão. Ou não. Como diria Caetano Veloso.

 

 

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