Cléa Sá

Da falta de inspiração a belas páginas de autores queridos

Ai, que tristeza, não tenho mais a menor inspiração. Busco um assunto, qualquer assunto e esbarro em impossibilidades: encontrar um tema, entendê-lo, achar palavras, concatenar ideias. Difícil demais. Sinto-me perdida, sem poder fazer uma coisa que gosto, escrever. Que fazer? já perguntava Lenin. E me pergunto também. Mas como de um jeito ou de outro preciso escrever para o blog, coisa que não faço há tempos, resolvi dar uma de Macunaíma, entrar na antropofagia, e dos de que sabem escrever me apropriar: procurarei belos e instigantes trechos de bons autores e farei uma colagem que desperte em vocês o desejo de ler o original. Para alguma coisa servirá a minha falta de inspiração. Espero que gostem das minhas escolhas. Vamos lá!

1984

“Já não corria nem dava vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol, acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada. Levantou a vista para o rosto enorme. Levou quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gin escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente vencida a batalha contra si mesmo. Amava o Grande Irmão.”

George Orwell

Um conto de duas cidades

“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era tal medida semelhante ao pesente que algumas de suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau supelativo de comparação.”

Charles Dickens

O filho de mil homens

“Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo.
Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das penas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metadedas palavras para se explicar às pessoas.
Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companha. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços undos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.
Um dia, depois de ter comprado um grande boneco de pano que encontrou à venda numa feira, o Crisóstomo sentou-se no sofá abraçando-o”.

Valter Hugo Mãe

É isto um homem?

“Quando chove, a gente desejaria poder chorar. É novembro, faz dez dias que chove, a terra é um lodaçal. Qualquer objeto de madeira cheira a fungos.
Se eu pudesse dar dez passos pra a esquerd estaria ao abrigo, há lá um alpendre. Já me contentaria com um saco para cobrir-me os ombros ou só com a esperança de uma fogueira onde me secar ou de um trapo enxuto para pôr entre a camisa e a pele. Penso nisso, entre um movimento e outro da pá; sim, creio mesmo que dispor de um trapo seco seria, concretamente, a felicidade.
Mais molhado do que isso, impossível; só posso tratar de me mover apenas o indispensável e, acima de tudo, nãofazer movimentos diferentes, para evitar que uma nova porçção de pele fique em contato com a roupa encharcada e gélida.
Sorte que hoje não há vento. É estranho: de alguma maneira, sempre tem-se a impressão de ter sorte: de que alguma circunstância, ainda que insignificante, nos segure à beira do desespero, nos permita viver. Chove, mas não está ventando. Ou, chove e venta, mas a gente sabe que à noite nos toca o suplemento de sopa e então, hoje também, encontra-se a força para chegar à noite. Ou ainda: chove, venta, a fome é a de sempre; então a gente pensa que se precisasse mesmo, se já não tivesse nada em seu coraçai a não ser sofrimento e tédio (como acontece, às vezes, quando parece mesmo que chegamos ao fundo) …bem, ainda pensamos quem querendo, em qualquer momento podemos tocar a cerca eletrificada ou jogar-nos debaixo de um trem em manobras, e então pararia de chover”.

Primo Levi

As pequenas memórias

“Chamava-se Francisco Carreira e era sapateiro.A sua loja era um escuro cubículo sem janelas, com uma porta por onde só crianças podiam entrar sem se curvarem, pois pouco mais haveria de terque um metro e meio de altura.Sempre o vi sentado no mocho, atrás de uma banca em cima da qual dispunha os utensílos do ofícioe onde se viam, emergindo de uma imemorial camada de rerriço, pregos tortos, aparas de sola, alguma agulha romba, um alicate sem serventia. Era um homem doente, gasto antes do tempo, com a coluna vertebral deformada. Toda a sua força se lhe juntaranos braços e nos ombros, potentes como alavancas. Com eles batia a sola, dava cera na linha, repuxava os pontos e apontava as cardas com duas pancadas secas que nunca lhe vi falhar. Enquanto eu me entretinha a fazer buracos num pedaço de cabedal com um vazador ou remexia na água a que a sola do molho dava o toque adstringente do tanino, contava-me histórias da sua mocidade, difusas conspirações políticas, a pistola que lhe havia sido mostrada como tenebroso aviso e que, palavras do avisador, se destinava a quem traíssse a causa…Depois perguntava-me como ia nos estudos, que notícias tinha do que se ia passando em Lisboa, e eu desenrasca-me o melhor que podia para satisfazer-lhe a curiosidade. Um dia encontrei-o preocupado. Alisava os cabelos ralos com a sovela, suspendia o movimento dos braços ao puxar a linha, sinais que eu bem lhe conhecia e que anunciavam uma pergunta de especial importância. Daí a pouco o Francisco Carreira inclinava para trás o corpo torcido, empurrava os óculos para a testa e disparava à queima-roupa: “O amigo acredita na pluralidade dos mundos?” Ele tinha lido Fontenelle, eu não, ou só de ouvido gozaria de alguma escassa luz sobre o assunto. Engrolei uma resposta sobre o movimento dos astros, deixei cair à vcentura o nome de Copérnico, e por aí me fiquei. De todo o modo, sim, acreditava na pluralidade dos mundos, a quetão era saber se havia lá algfuém. Ele deu-se por satisfeito, ou assim me pareceu, e eu respirei de alívio. Muitos anos depois escreveria sobre ele duas páginas a que daria o título, obviamente inspirado em Lorca, de “O Sapateiro Prodigioso”. Que outra palavra poderia usar senão essa? Um sapateiro da minha aldeia, nos anos 30, a falar de Fontenelle…”

José Saramago

2 Responses para “Da falta de inspiração a belas páginas de autores queridos”

  1. shelma
    19/08/2015 at 10:28 #

    Muito bom Cléa, até quando lhe falta inspiração você, teimosa, a encontra e nos brinda com trechos lindos, inclusive o seu, beijo

  2. Marcello Sá
    19/08/2015 at 02:09 #

    Oi, Cleita! Obrigado por nos apresentar trechos dessas obras. Algumas delas não conhecia e outras pude recordar. E não fique triste, porque a nossa inspiração às vezes tira uma folga sem nos avisar, mas logo volta. Seja como escritora, seja como uma guia pelo mundo das letras, seu talento e sensibilidade estão sempre presentes.

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