Cléa Sá

Conversas esparsas no tempo…

 

Em Brejo, a conversa era em volta do rádio, com hora certa para começar e acabar. Eram os tempos da guerra e a bateria do rádio carregada pela força muscular de alguns homens que ficavam a mover uma roda tinha de ser economizada. Meu pai ligava na BBC de Londres na hora do noticiário, findo o qual o rádio voltava a sua mudez e as pessoas comentavam as notícias, sempre terríveis. Sei essa parte pelo que ouvi contar. Como contavam também que todos ao redor do rádio eram pelos Aliados.

Outra cidade, esta Araioses. Algum tempo tinha se passado e acontecia se era noite de lua cheia as pessoas virem para a porta da rua, trazendo cadeiras que arrumavam em semicírculo e começavam a conversar. De saída assuntos locais, a política, o prefeito, o vereador, as poucas melhorias na cidade, tudo dito com cuidado – vá que não vá a conversa chegar a  ouvidos indevidos,  mas depois passava-se a assuntos mais empolgantes para a menina que eu era então. É quando vinham histórias de almas penadas, pessoas que morriam deixando débitos severos por pagar e ficavam a aparecer para os vivos a pedir missa e orações. Sentada no chão, recostada nas pernas do meu pai, eu me garantia do medo que só iria me pegar com jeito mais tarde, já na minha cama. O João recolhia estrume de gado para pôr fogo, do lado da roda, saía uma fumaça de cheiro adocicado fatal para as muriçocas, que assim paravam de nos incomodar. E a conversa ia e ia e lá pelas 10 horas começavam os boas–noites, temos de acordar cedo. E assim terminava mais um dia em um canto do mundo calmo e quieto e aonde as notícias chegadas pelo rádio vinham sem pressa e  parece que a gente se contentava com o pouco que já sabia.

Lá em casa, sempre havia roda de conversa depois do jantar. Mudava a cidade, mudavam as visitas, mas sempre havia a conversa, aí já com mais notícias, parece que o mundo tinha ficado mais próximo, muitos noticiários pelo rádio, as almas penadas já não tinham vez, ficavam mortas e enterradas, e conversar era um melhor final para o dia de trabalho.

Os tempos foram mudando e a certa altura conversar já não era mais uma atividade tranquila. Havia risco. A roda de visita continuava, mas não se podia falar abertamente de vários assuntos. E a certa altura se fazia um silêncio mortal na sala, era a hora da Voz do Brasil e ficávamos todos atentos às cassações que na certa seriam lidas. Não era bom. E depois as surpresas, o estarrecimento, todo mundo comentando baixinho, depois cada um pegava seu chapéu, dava um boa noite meio que encolhido e saía pela rua escura.

Por muito tempo a palavra ficou interditada. Nos ambientes de trabalho e de estudo, havia sempre a suspeita de um possível dedo-duro, alguns pegaram má-fama se justa ou injustamente não se pode saber, o fato é que a palavra, esse bem precioso, tinha de ser tratada com muito cuidado, dado o risco que se corria se alguma desavisada chegasse a ouvidos tortos. Viriam interrogatórios, processos, para não falar de coisas muitos piores como tortura e morte. Que aconteceu.

As notícias que nos interessavam eram faladas já tarde da noite, quase em sussurros, e as esperanças, pobres de nós, estavam fora do nosso alcance. Queríamos   saber dos exilados, o que  faziam lá fora? Organizavam alguma coisa? E onde está o  Brizola? Jango está no Uruguai;  O que tinha sido feito das Ligas Camponesas? Francisco Julião tinha sido apenas uma ilusão. E Arraes, é verdade que ficou mesmo dias e dias dentro de um tonel de água lá na Fortaleza de Fernando de Noronha?  E Lacerda, que tanto fez para derrubar Jango, agora  procura organizar uma tal de Frente Ampla, e até começa a ser visto com outros olhos pelos que antes o odiavam, mas cadê o Juscelino?  Não, não eram tempos bons. Não poder falar das pessoas parece que era uma indução a mais a seu deaparecimento.

Uma noite um irmão trouxe um disco de Violeta Parra e ficamos escutando bem baixinho na calada da noite, aqueles sons amigos e poéticos vindos de tão longe, de um povo que sofria a mesma opressão que nós. Gracias a la vida, Volver a los diecisiete. E como nos doeu a morte de Victor Jara, de quem não se conhecia uma só música então, só se sabia do seu trabalho.  E era sempre assim. Histórias e mais histórias tristes e conversar  era uma arte apurada de deslize, encobrimento e disfarce.

Lembro essas diversas rodas de conversas em tempos vários,  como temos a nossa roda mensal para discutir um livro previamente escolhido, que é um dos grandes prazeres a que nos dedicamos.  Infelizmente uma infecção  causada por um vírus atacou um das minhas cordas vocais e estou impossibilitada de falar, de participar de qualquer conversa, e logo agora que as conversas são livres. Claro que tem muita conversa boba, um tanto de fanatismo, machismo, preconceito e outras tantas mazelas, mas isso não impede que tirando os escolhos, os blocos de lama, as ideias se tornem claras e possamos delas desfrutar com gosto. Menos eu, que estou aqui atacada de mutismo. Mas já comecei a trabalhar com um fonoaudiólogo e estou esperançosa de breve, muito em breve, voltar de novo a blocar meu bloco na rua.

3 Responses para “Conversas esparsas no tempo…”

  1. Dina Brandão
    09/03/2016 at 00:21 #

    Oi Cléa! tomara que já estejas recuperada. Torço por tua saúde. Cuide-se. Espero um dia poder ir a tua casa em uma tarde vazia, tomar um café e prosear um pouco. Gosto muito de tuas estórias, e contadas por ti tem uma atmosfera cinematográfica. Beijos. Saudades.

  2. Chico
    15/02/2016 at 10:56 #

    Estamos torcendo para que você se restabeleça o mais breve possível. Sinto falta das suas opiniões faladas que normalmente me enriquecem muito, e como sempre, agradeço a mais este belo texto seu.
    Beijos e parabéns.
    Chico

  3. Vicente Sá
    12/02/2016 at 08:13 #

    Se meu médico fosse daqueles que proíbem as emoções fortes para pessoas sensíveis, provavelmente já me teria proibido de ler estas crônicas de Cléa. Mas eu as leria assim mesmo, com o coração mais acelerado ainda pela emoção da leitura e do proibido.
    Obrigado minha irmã.

Deixe um comentário para Chico