Cléa Sá

Conversando com uma amiga morta

Quem pode explicar como se dão as amizades? Como, entre tantas meninas, saber que serás tu a amiga de toda vida? Acho que existem explicações de experts em psicologia ou de quem entende de vidas passadas, mas de nenhuma delas estou convencida. Mas não importa. Importa lembrar que quando te vi pela primeira vez estavas bordando, séria, tinhas o olhar um tanto severo e não sabíamos então que seríamos amigas por toda vida, e que eu sentiria tua falta até hoje, tantos anos passados da tua morte. Ah! A amizade é apenas um entre os muitos mistérios que nos cercam. Por que escolhemos ou somos escolhidos por uma determinada pessoa? Depois, no convívio, vamos descobrir que gostamos de comer pizza, ou de ler o mesmo autor, ou de alguma coisa especial na nossa religião e discordamos de outra, que amamos cinema, que gostamos do mar. Mas no começo não, nada sabemos um do outro. Por que então? Não sei. O que sei é que hoje com um avião de passageiros derrubado na Ucrânia, vendo pela televisão Israel invadindo a Palestina com tanques a perder de vista, me dá vontade de voltar no tempo, te reencontrar e te contar coisas que aconteceram depois da tua morte. Aí te digo que já escapei duas vezes de morrer, que continuo gostando de ler, que não consigo parar de fumar embora tente, que ainda tenho vontade de me apaixonar, o que vais considerar uma loucura, tu que continuas, aí onde estás – se é que ainda estás em algum lugar – ajuizada como sempre. E sei que vais me alertar para os perigos da minha imaginação e reprovar os exageros da minha fala. E eu vou ficar muito feliz por ter alguém que me alerte e me corrija, agora que, pela idade, já não tenho mais quem o faça.

E volto pela imaginação a ser quase menina, a andar de bonde pela Rua Rio Branco, a ir ao cinema em dia de semana, a atravessar a baía de barco para ir à Ponta d’Areia tomar banho de mar, a matar aula, a viver um primeiro amor. São Luís e seus sobrados, a Praça Gonçalves Dias onde nos reuníamos nas noites claras, e o Jenipapeiro onde, escondidas, íamos comer camarão seco com farinha. Deus! Como era bom. E lembro também as longas discussões sobre aulas e professores, as conversas sobre tudo, sobre nada. Descobrir a vida e a liberdade, as possibilidades, as incertezas do agir e o desamparo de ser jovem e mal dar conta de tanto anseio. Mas a gente conversava e conversava.

E é nessa conversa que te digo que têm acontecido mudanças por aqui e nem todas para melhor. Há uma predominância do mercado: tudo se traduz em números, porcentagens, estatísticas, pibes e pibinhos. Há um ganho em termos de coisas que as pessoas podem ter: carro, casa, roupas, calçados. Mas o que as pessoas podem ser? Não está evidente para mim. Ter coisas é o dominante. De certo e bom temos que as vacinas fazem efeito, que a AIDS está contida e é muito raro ouvir falar que uma mulher morreu no parto. Há uma nova epidemia, contudo: a busca pela vida saudável. O que comer, como se exercitar, como manter as taxas do organismo em níveis cada vez mais baixos, e os perigos comprovados do fumo, o mal do álcool, e das gorduras, e do açúcar branco, do sal, e mais, a quantidade imensa de água que se precisa beber… Um inferno! Tomar caldo de cana e comer um pastel, como se fazia no Abrigo da Praça João Lisboa, é impensável, tornou-se pecado e pecado mortal. Ser magro é o desejo universal, embora nunca se tenha visto tantas pessoas gordas. Por falar em pessoa gorda, não sei nem se posso falar assim. Há uma busca permanente por correção e temos de ter muito cuidado com o que falamos, pois qualquer descuido de linguagem nos leva a ofender gravemente pessoas ou categorias. Lembras que quando jovens nos preocupávamos com pecar ou não pecar? Então tínhamos a confissão dos pecados, os arrependimentos, o desejo de ser bom, e alguns exaltados até queriam ser santos. Hoje ninguém mais quer ser santo, embora todos queiram ser magros, tenho de brincar. E o que temos de maior são o desejo e a necessidade de ser politicamente correto. Todos tememos a censura dos nossos pares.

E quanto à política hoje? Lembro-me de que naquele tempo tua família acompanhava o Ademar de Barros e meu pai era do PSD, e isso não afetava em nada a nossa amizade. Nós gostávamos de política estudantil, de votar nas eleições para a União Maranhense de Estudantes, filiada a UNE. Eram tempos de Guerra Fria. Muitos de nós fazíamos restrições aos Estados Unidos, não queríamos saber da Aliança para o Progresso, tínhamos horror ao acordo MEC/USAID. Tu não simpatizavas nem um pouco com a União Soviética, tinhas horror ao comunismo e dizias que a Doutrina Social da Igreja, exposta nas encíclicas papais, tratava melhor do assunto do que Marx, que nós só conhecíamos de nome, e mal.

Tenho pena que não tenhas visto o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim. Mas pelo menos não viste a nossa derrota na Copa do Mundo para a Alemanha por sete a um. E para teu governo, continuo gostando da Rússia, mas já não desgosto dos Estados Unidos. Coisa do Obama. E estou amando, de coração, o Papa Francisco, que também amarias, tenho certeza.

E em um gesto de rebeldia, afinal somos da mesma idade, acho que estavas errada quando consideravas a minha imaginação e meus voos fantasiosos um risco para minha vida. Posso te afirmar, agora por experiência, que são o que tenho de melhor: me ajudam a enfrentar o medo e a solidão. E se não fosse pela imaginação, como poderíamos estar tendo esta conversa?

6 Responses para “Conversando com uma amiga morta”

  1. Regina Motta
    Regina Motta
    22/07/2014 at 12:59 #

    Cléa, Muito bonito, sereno, profundo.
    Bjs
    Regina

    • Cléa Sá
      Clea
      22/07/2014 at 18:28 #

      Obrigada, Regina. E vamos ao Museu?
      Um abraço
      Cléa

  2. Julieta Monteiro
    21/07/2014 at 22:27 #

    Cléa, esta é uma bela reflexão sobre o tempo que passa rápido na nossa vida. Sempre lembro de você como uma pessoa doce, emotiva. Eu a respeito e admiro. Grande abraço.

    • Cléa Sá
      Clea
      21/07/2014 at 23:47 #

      Oi, Julieta,
      Bom ter notícias suas. Obrigada por suas gentia palavras. Um abraço
      Cléa

  3. Cléa Sá
    Clea
    21/07/2014 at 11:06 #

    Obrigada, querida Odette. Vale a pena escrever para receber um elogio desse. Bjs

  4. odette, a maciel e não a chacachiro
    21/07/2014 at 10:51 #

    Cleinha. Hoje de manhã precisava ler algo bonito. muito treno, com a profundidade que você dá aos seus temas.. Abri o computador e lá estava a crõnica. Foi presente recebido num dia triste. Odette