Cléa Sá

Conversa com meu pai ou de cartas, santos e canções

Procuro um tema para nossa última conversa do ano e me perco antes mesmo de achar o caminho. Parece-me que estou sempre falando do passado e já devo estar cansando quem me lê e assim penso em abordar assuntos atuais, contemporâneos. Mas vejo logo que não é uma boa escolha. Por mais que não quisesse, terminaria por falar de guerras, violência, desmandos que estão acontecendo ou já aconteceram, racismo e não quero enveredar por esses penosos assuntos. Já bastam os jornais, a internet, a televisão. Deixo para eles. Continuo a procurar. Quem sabe falar do tempo seja bom? Tem chovido muito e gosto de chuva, penso nela como amiga, durmo feliz com o som das gotas de água nas vidraças do meu quarto. A cidade está verde, verde, o ar está puro e úmido o bastante para nos fazer respirar com gosto e respirar é o nosso primeiro e último ato nesta vida, e respirar é bom. As últimas palavras de meu pai foram o fôlego está longe, contou-nos nossa mãe. Hoje é aniversário da morte de meu pai, e me lembro dessas suas últimas palavras, palavras simples de constatação do seu momento final: o fôlego estava longe. Bom sertanejo até o fim, nada de firula. Simplesmente o fôlego se acabara. E assim encerrou-se a sua vida de trabalho, de alegrias, tristezas, realizações, derrotas. Como qualquer outra vida. Só a que a sua, pai, tem uma significação especial para mim, fruto que sou não apenas de seu sangue, mas de seu desejo. Ai, meu pai, como seria bom conversar com você novamente. Sentados na varanda da casa, tarde da noite, a conversa rolando devagar, um assunto puxando outro… Li em algum lugar que as pessoas só morrem realmente quando deixam de ser lembradas pelos que continuam aqui nesta vida. Só quando findam as últimas lembranças, a pessoa morre realmente. Quem terá dito isso? Nem sei, leio coisas em tudo quanto é canto, mas desse pensamento gostei. E assim digo que você continua vivo, pai querido, e podemos continuar essa conversa, que pode ser como aquelas cartas que trocávamos e dávamos notícias de cada um e de todos. Você escrevia para cada filho e cada um era entregue a um santo protetor no começo da carta. E você nunca se enganava, nunca trocava os santos de cada filho embora fossem muitos os filhos e muitos os santos. Só me lembro de que Frames era entregue a Nossa Senhora das Graças e eu, ao Bom Jesus dos Navegantes. “Que o Bom Jesus dos Navegantes seja teu guia” era como você começava as cartas que me mandava. E nunca lhe perguntei a razão dessa escolha. Agora gostaria de me lembrar a que santo você entregava o Aldenor, o Petrônio, Sá Júnior, Osvaldo e todos os outros. Como agora isso me parece urgente e necessário. E não tenho mais como saber, assim como não poderei mais ter respostas para muitas coisas a que não dei valor no momento devido. Mas por que não lhe perguntei isso quando era possível ter resposta? Não sei dizer. Mas agora, sozinha nesta noite comprida, pergunto-lhe e penso escutar a resposta: para te proteger nos mares da vida, filha, nas estradas, nos caminhos que você vai percorrer. Para te livrar dos tropeços, das quedas, das armadilhas que se encontram na estrada e nas curvas do caminho. Anda de olhos abertos, filha, e “tira consequências dos teus atos”, era o que você dizia e agora me diz novamente. Acho que você me entregou ao santo certo, pai. A caminhada tem sido longa, prazerosa por vezes, tristes outras tantas. Às vezes uma surpresa, um encantamento, um anel mágico. O santo que me protege não pode me impedir de cometer erros e quem sabe me ajudou nos acertos, que também acertei, isso seja dito. E tenho seguido por mares e estradas, amanheceres e pores de sol, madrugadas, noites altas. E sigo ainda. Você se lembra, pai, (espero que não se incomode por eu estar trocando o senhor que usava por você) quando me deu um livro-caixa usado para que nele eu colasse as poesias que recortava dos jornais? Foi assim que começou. Você me deu um livro-caixa usado e um soneto impresso e ficou olhando minha mãe me ajudar a colar. Terá sido assim? Talvez não, mas é como se fosse, é como gosto de lembrar. Mas foi assim que comecei a gostar de poesia, gosto até hoje. Você não podia ter me dado presente melhor. E você se lembra, pai, como gostava de me ouvir cantar? E nós todos cantávamos em noites de lua, na varanda da casa. “Noite alta, céu risonho/ A quietude é quase um sonho/ O luar cai sobre a mata/ Qual uma chuva de prata/ De raríssimo esplendor/Só tu dormes não escutas/O teu cantor/Revelando à lua airosa/ A história dolorosa/deste amor”. E tantas outras músicas de Vicente Celestino, seu cantor predileto, com letras enormes que nós sabíamos de cor e cantávamos em voz alta, em tempos que cantar não incomodava vizinhos, pois se morava em casa, em cidade pequena e ninguém se importava, talvez até gostassem, quem sabe? Você gostava de fazer serenata quando era jovem, a gente até se divertia com a história que você teria conseguido um habeas corpus preventivo para fazer serenata lá em Barra do Corda quando foi ameaçado por alguém que já nem sei quem foi e também isso não interessa. Sei que nas noites de lua, você gostava de cantar “a pequenina cruz do teu rosário”, e a gente fazia um silêncio um tantinho respeitoso e só acompanhava a melodia sem cantar a letra para não atrapalhar o ouvir a sua voz; e você também gostava que eu cantasse um tango chamado Nostalgia e eu dizia que para cantar essa música eu tinha de ter um cigarro na mão para criar o clima e você me dava o cigarro e minha avó fazia cara feia, mas você nem ligava, queria era ouvir o “quero esquecer que te amei porque amar alguém assim só é sofrer só é chorar”. E só uma vez podemos tirar férias em família e fomos para Barra do Meio, uma vilazinha perto de Araioses e lá ficamos em uma casa de taipa, coberta de palha e só tinha um quarto onde dormiam as mulheres, minha avó, minha mãe eu e minha irmã, e você, pai, dormia com os meninos do lado de fora, quase ao descampado, e o céu era azul, o mar imenso era azul, e tinha duna de areia branquinha, e tinha lagoa azul entre as dunas, e a gente rolava pelas dunas e caía na água, e comia peixe assado, e nós encontramos, meu irmão e eu, um peixe-espada na areia e ficamos felizes e orgulhosos com nosso achado, e minha mãe cantava. E minha mãe cantava alto “na aldeia na aldeia quero ver o teu vestido arrastando-se na areia”. E minha avó fumava o seu cachimbo de barro. E a gente era feliz, e ainda sou feliz só de me lembrar, e sempre conto essa história para mim quando estou triste e fico até mais triste quando me conto essa história, pois além da tristeza que estou sentindo, crio mais tristeza por causa da saudade, mas aí já é uma tristeza boa, uma tristeza de gosto bom. E não que é voltei a falar do vivido e do passado? Acho que não há como fugir, sobretudo se o passado é bom, se amamos as pessoas, se ainda gostamos delas e elas ainda nos fazem falta e nos fazem felizes só de pensar que elas existiram, viveram e não são parte de um sonho. E como essa Conversa é de fim de ano, desejo a todos que me leem um tempo presente que se torne doce ao passar, que deixe lembranças vivas e amorosas, que os torne tristes ao lembrá-las de tanto que foram boas e felizes. Assim lhes desejo um Feliz Natal! E até o ano que vem. E para fechar, desejo também que todos vocês sigam sob a proteção do Bom Jesus dos Navegantes. Até!

10 Responses para “Conversa com meu pai ou de cartas, santos e canções”

  1. Maria Luiza Medeiros
    10/12/2014 at 11:31 #

    Oi, Clea, Feliz Natal e um otimo 2.015!!! Como dizem meus aparentados bolivanos ( tenho uma neta

    filha de boliviano), ” Que boa charla!!!) Obrigada!!!!Bjs.!!!

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      10/12/2014 at 12:19 #

      Obrigada, Maria Luiza. De coração também lhe desejo um Feliz Natal e um maravilhoso 2015 com livro novo. Abraços
      Cléa

  2. Inês
    08/12/2014 at 16:47 #

    Mais uma conversa enternecedora. Parabéns!

  3. Regina
    08/12/2014 at 11:47 #

    Tão boa a sua ‘Conversa’, Cleíta! Sempre me emociono com elas. Obrigada! Bjs

  4. Lindo!!Como canta!!!
    06/12/2014 at 19:24 #

    Incrível!!! Parece até que vivi nessa época!! Adoro seus contos. Obrigada por compartilhar comigo. Tenha também um Santo Natal na graça de nosso Senhor Jesus .

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      06/12/2014 at 22:46 #

      Obrigada.Jucy. Você é sempre gentil e amorosa nos seus comentários a meus pequenos textos. Um santo Natal é o que desejo a vocês também.
      Cléa

  5. Francisca Zulene S. Santos
    06/12/2014 at 09:06 #

    Cleita querida… Como eu amo e admiro você e suas histórias lindas! Você pode falar do passado e do presente com a mesma desenvoltura e competência. Eu amo muito o que você escreve. Boas Festas para você também, e que você viva agora, nesse tempo presente, muitas outras histórias para nos contar em um futuro próximo. Feliz Natal.

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      06/12/2014 at 10:05 #

      Dona Zu

      É sempre feliz que leio seus comentários a respeito do que escrevo. De coração, agradeço. Beijos
      Cléa