Cléa Sá

Começo de ano

É assim o poema que está na minha cabeça há dias

“veio o homem

falou pra mim

pra mim

deitar no chão

dormir

dormir

que amanhã vou ser atendida

na

meia-noite”

É do poeta Francisco Alvim e se chama Muito ótimo. Pois bem, a Adailda, uma moça que já trabalhou aqui em casa, me contou que foi atendida por um médico tão bom, tão bom, que até deu a mão para ela descer da cama da consulta. Foi “muito ótimo”, disse.  Poeta sabe.

Assim, com votos de que este ano que começa seja muito ótimo é que reinicio as atividades deste nosso blog nesse conversa vai, conversa vem. E começo contando que consegui escapar quase ilesa do Natal. Deus que me perdoe, mas Natal é de tirar qualquer um do sério: as emoções ficam à flor da pele, você, queira ou não, pensa em outros natais e em todos os que já se foram, você convive mais com a família e aí qualquer coisa vira uma tragédia grega, a gente pensa que não, mas descobre que está carente e quer mais do que as pessoas estão dispostas a dar, todo mundo quer muito de todo mundo, não há como saciar tanta fome e aí se come demais, se bebe demais… Não, Natal é só para criança que tem a imunidade da inocência. Eu já fui criança e penso que gostava do Natal. Até acreditei por algum tempo em Papai Noel. Minha mãe, que foi criança, e pura, e inocente até morrer, acreditava no Natal. E nos proporcionou belos natais. Se tínhamos dinheiro, era uma árvore enorme cheia de presentes, ceia farta, casa cheia. Mais para trás, quando meninos e em tempos duros, era um pequeno presépio armado por ela e os presentes, pequenos presentes inventados – bonecas de pano para nós, meninas, e jogos modestos – pega varetas, bolinhas de gude, dama e bola de futebol para os meninos. Mas sempre tínhamos a ceia, a casa iluminada com petromax, e jogos como “impugno”, charadas e conversa na roda de adultos até que nossos olhos se fechavam de tanto sono. E em um ano de grande escassez apenas ganhamos balinhas em saquinhos de papel de seda.

O presépio que minha mãe armava a cada ano ficava mais bonito. As figuras eram guardadas envoltas em papel de um ano para outro e sempre eram acrescentadas novas peças, casas, pequenos animais, anjos. Em certos anos havia até campos verdes, que eram fruto do arroz em casca plantado um mês antes do Natal e nele eram colocadas ovelhinhas brancas. Tinha também um lago com patinhos de celuloide, que na verdade era um espelho, mas a gente se esquecia disso, e só ficava encantada de ver aquele laguinho com patos. A gruta, as pedras, as montanhas, as casas, era um pequeno mundo feito de papel amassado e pintado, que ajudei a construir embora não me lembre como. Era bom assim mesmo ou é só a saudade que faz tudo parecer tão bonito? Sei não. Tenho minhas dúvidas:  eu  que nem gostava muito de ser criança, como gostaria tanto de Natal? De uma coisa apenas não tenho dúvidas: gostava de ganhar presente. E disso gosto até hoje. Até!

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