Cléa Sá

Chuvas de outubro?

Acompanho apreensiva mas sobretudo esperançosa as diversas manifestações que estão ocorrendo no país. Muitos grupos se mobilizam e buscam apoio da sociedade. O Movimento Passe Livre – MPL é o mais visível, pois está à frente da luta para que não haja aumento nas tarifas dos transportes públicos. Mas vemos imagens de muitas tribos, como são chamados agora. Vejo jovens com a máscara de V, do filme V de Vingança (assisti e gostei) e descubro que são os Anonymus, outros distribuindo flores lembram os tempos do movimento hippie, punks, e aqui em Brasília o copapraquem organiza uma passeata em frente ao Mané Garrincha no início da Copa das Confederações. São movimentos políticos, claro. E quando as autoridades dizem isso, como se houvesse algo menor em ser político, não sei onde eles têm a cabeça. Tudo o que fazemos é político. Escolher este tema para um “Conversa vai, conversa vem” é um ato político, como o não escrever também seria. E se houver partidos por trás dos movimentos? O que tem de mais? Partido político é para fazer política e não se faz política apenas em campanhas precursoras de eleições e nos programas autorizados pela Justiça Eleitoral na TV. Será necessário ser deputado, vereador, prefeito ou candidato a esses cargos para fazer política? E quem não tem interesse em participar da política convencional não poderia se manifestar? O homem comum, os estudantes, os trabalhadores só poderiam tomar posição dentro de compartimentos pré-estabelecidos, -sindicatos, organizações estudantis e outras? Há um desentendimento quanto a essas questões. E pode haver, como tem havido, algum quebra-quebra. Mas me parece impossível que com mais de 15.000 pessoas nas ruas, falaram até em 20.000 em São Paulo, se possa impedir que algumas vidraças sejam quebradas e alguns ônibus pichados. Não é o fim do mundo, embora se possa e deva lastimar. Mas muitos de nós aguentamos no nosso dia a dia muita injustiça, sofrimento, desconforto, cansaço extremo e tantos outros males.

Me lembro de 64. O golpe dado pelos militares já estava consolidado e lá no Maranhão, em São Luís – era um tempo em que as notícias corriam devagar-, os estudantes e trabalhadores ainda estavam na rua, lutando para impedir a queda do Jango, que por sinal, já estava no Uruguai. E aí foram vinte anos de silêncio e opressão. Mas aquela luta não foi perdida. Ter participado ou apoiado a legalidade deixou-nos bem com a nossa consciência, e nos deixou coragem para enfrentar os difíceis anos, sem adesismo e sem aplausos aos donos do poder. Seguimos, e vimos a luta de muitos tornar-se vencedora e ser restabelecida aqui o Estado de Direito, a democracia. Só que não está ainda tão de direito assim e a nossa democracia, ai! a nossa democracia, penso que há muito ainda por fazer. Quem fala por nós? Quem fala pelos índios? para ficar só neles, os injustiçados de sempre.

Não vou para as ruas e não me envergonho, mas invejo os jovens e velhos que, como Plinio de Arruda Sampaio, leio hoje, se arriscam. Confesso que sou medrosa, sempre tive medo de multidão. Na luta pelo direito a voto em Brasília ainda me arrisquei e participei de uma manifestação no Setor Comercial Sul. Estávamos ouvindo os oradores – Leonel Brizola, Ulisses Guimarães e outros que não lembro agora quando começaram a chegar aqueles carros enormes, cheios de policiais armados, ai meu Deus! Fomos sendo empurrados para dentro de prédio, minha filha, grávida, e nem sei como conseguimos uma passagem e nos vimos fora, e fomos para casa, um pouco trêmulas mas com a alma cheia de alegria. Me lembro também de um outro dia: o Congresso estava reunido para eleger um dos presidentes militares e na hora da votação saí de carro sozinha e segui pela Esplanada dos Ministérios. Tudo deserto, nenhum vivente, nenhuma manifestação. Parei o carro em um estacionamento e fiquei olhando aquele cenário, um cemitério. Talvez tenha chorado, não sei mais. Assim, digo com toda convicção, prefiro o movimento em volta do Mané Garrincha ao silêncio da esplanada dos ministérios na época da ditadura. E quem não prefere?

Meu querido professor e amigo Maximiro, comunista de carteirinha, que esteve presente em todas as lutas por um Brasil melhor até sua morte (começou vendendo bônus de guerra na sua juventude), me dizia quando eu estava desesperançada: “o povo é como a grama de Brasília. Veja, pode estar tudo seco, quebradiço, mas basta vir uma chuva e tudo renasce” . Agora, esperançosa, me pergunto, serão as chuvas de outubro que estamos vendo?

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