Cléa Sá

As gavetas da memória

O homem, internado no sanatório, nos seus raros momentos de lucidez, estranhos e rápidos períodos mais dolorosos que a constante alienação, recordava. Sentia que sua cabeça era um armário cheio de gavetas. Uma palavra, chuva, por exemplo, trazia uma série de lembranças, fatos encadeados a partir da visão inicial da chuva caindo em uma tarde de janeiro, imagem primeira à qual se ligava a corrente das associações e por meio dessas lembranças toda a sua vida se desenrolava novamente. As lembranças criavam no homem um estado de angústia, sendo necessária a aplicação de um possante remédio-choque elétrico? que o mergulharia no sono tranquilo da inconsciência. Depois, outra palavra-chave, novas associações, novo desespero.

Criei esse homem há muito tempo, devia ter meus dezessete anos. Era um conto que pretendia escrever e tinha até nome, “as gavetas da memória”.  Nunca o escrevi. Não consegui saber que lembranças   tão dolorosas eram aquelas que levavam o pobre homem à loucura. E o homem, triste interno de um asilo de loucos, me acompanhou por toda a vida e volta e meia me vejo a pensar nele, sem resolver nunca a incógnita da sua doença.

Por que pensar uma história tendo a loucura como tema?

Talvez a preocupação com a loucura se explicasse pela existência de um louco na nossa cidade. Sempre, naquelas pequenas cidades onde morávamos, havia um louco a andar pelas ruas. Pecuapá era o louco de Pedreiras. Falava sozinho e alto, assustava as pessoas. As crianças gratuitamente lhe jogavam pedras. Criança é cruel, ninguém se engane.

E pensa-se então na loucura, embora sem medo. O medo só vem mais tarde quando se descobre que a loucura ou a doença também são possíveis para nós. Na infância e na primeira juventude pensamos ser intocáveis, temos superpoderes, as coisas ruins não virão para nós. Só quando acontece a morte de um amigo jovem, ou uma doença séria atinge outro, começamos a descobrir a nossa vulnerabilidade, temos brechas, somos mortais como qualquer um. Aí começa o medo.

A loucura, que era vista como coisa possível apenas para o louco da cidade, ou para aquele outro  que por ser rico vive trancado em casa – às vezes o avistamos na janela, ninguém fala nele, nem seus irmãos que são nossos amigos -, agora é possível para nós. É um barco no qual podemos embarcar a qualquer momento se desanimados, cansados, batidos. É real e nos assusta. Como a morte.

A morte quando se é criança nos escapa, não a entendemos. Sabemos que as pessoas morrem, vemos passarinhos mortos, nosso cachorrinho morre. Nós, porém, não morreremos.  A morte até interfere no nosso dia a dia, causa alegria ou tristeza inesperadas, e é só. Não temos medo, ainda não.

Certa manhã, estudávamos no Grupo Escolar, tivemos as aulas suspensas para acompanhar o enterro de uma criancinha, irmã de uma colega, “um anjinho”, como se dizia então. Fomos compenetrados da nossa importância e muito alegres por um dia sem aula e pela bela caminhada ao sol em direção ao cemitério. Na volta, meu irmão e eu, paramos em um sítio e ficamos a apanhar e comer goiabas. Uma festa.

Perto do Carnaval morreu uma tia, irmã do meu pai. Era uma mulher triste, tinha um olho mais baixo que o outro e parece que também outros tipos de desgosto. Não sei quais. Sei que da sua morte só senti a tristeza de não ir às matinês e nenhuma consolação, como por ocasião da morte de outra tia, também irmã do meu pai.

Daquela vez tive a grande satisfação de usar luto pela primeira vez, desejo que trazia de muito tempo. Tinha inveja das crianças vestidas de preto, pálidas e tristes. A mim  parecia que aquele luto fechado dava uma importância especial àquelas crianças e que, apesar da tristeza, elas viviam uma felicidade escondida. Não tenho certeza, mas penso que, por essa época, andei desejando que alguém da minha família morresse.

Nessa segunda morte da família já não havia o desejo do luto. As roupas, estampadinhas de preto e branco, usadas no ano anterior por três meses, tinham se revelado mais quentes do que se imaginara. E não ofereciam nada após a novidade dos primeiros dias e as respostas dadas em tom sério – “estou de luto por uma tia, não sei do que morreu, era irmã do meu pai “-, cansavam ao serem dadas pela quarta vez. Assim, não havia nessa morte nenhum sentimento de tristeza ou perda, só desgosto por não poder brincar o Carnaval. Diga-se em meu favor, para não dar a impressão de grande dureza de coração em pessoa tão jovem, que essas tias eram pouco conhecidas, uma raramente vista morava em outra cidade e a outra só era visitada de raroem raro. Nãohavia mesmo razão para tristeza. Seria fingimento, e isso não nos foi pedido nem cobrado.

O fingimento foi necessário pouco tempo depois. Estava no segundo semestre das aulas, no internato. Fui chamada da sala de estudos para ir ter com Madre Dantas, a Mestra-Geral e de quem eu tinha medo. No gabinete, Madre Dantas, ar compungido, tinha uma carta aberta na mão. Ela lia todas as nossas cartas, as por enviar e as recebidas, o que me enraiveceu por muito tempo. Então, mandando que me sentasse, disse: – “Minha filha, é preciso sempre aceitar a vontade de Deus, a morte…” perdi o fio das palavras, sem fôlego pensei, minha mãe morreu, mal respirava e ouvi… “o anjinho estará melhor na corte do Senhor”, foi quando entendi. Minha mãe estava salva, viva. Tinha morrido o nenen recém-nascido, só o tinha visto nas férias de julho e não o podíamos pegar, porque era pequenino e mamãe não confiava, achava que podíamos derrubá-lo. Tive vontade de rir de alívio, mas olhei Madre Dantas. E vi que ela esperava que eu chorasse, ela cobrava tristeza, estava escrito no seu rosto, na sua expressão. Balancei o corpo num arremedo de soluço e baixei os olhos secos para o chão.

-“Vá, minha filha, vá para a capela, fique o tempo que quiser. Ofereça este sofrimento a Deus, Nosso Senhor”.

Fui. Na capela, rezei pai-nossos e ave-marias tentando lembrar a minha irmãzinha morta.  Lembrei, mas não consegui ficar triste. Era tão pequenina, tanta criancinha morria e minha mãe estava viva. Quando pensei em minha mãe, só aí tive pena.  Ela gostava tanto do bebê, vivia com ele nos braços.

E fui ficando na capela a olhar as imagens dos santos nos altares, a lâmpada acesa no sacrário indicando a presença do Santíssimo Sacramento, saboreando aqueles momentos de liberdade e solidão. Ai me perguntei, será que com a morte da minha irmãzinha posso brincar no recreio?  Ficaria feio rir? Teria de ficar triste, concluí, senão me achariam uma menina desnaturada. Optei por fingir e me preparei para a tristeza.

Aí está. De loucura, Pecuapá, louco da casa grande por onde comecei, vou, como o triste homem da minha história, por outros caminhos: morte, colégio interno, Madre Dantas e fingimento, nessa associação que não sei como se fez. Temos todos um armário cheio de gavetas, de lembranças.

 

 

 

 

 

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