Cléa Sá

Amor pelo Cinema – Viagem

Volto ao Cinema. E convido vocês para um passeio por filmes de viagem, gênero da minha predileção. Isto se deve, creio, ao prazer que sinto em viajar: conhecer países, vislumbrar culturas, visitar cidades, viver situações novas, sentar em cafés em uma cidade estranha e ficar vendo pessoas passarem, imaginar histórias, ver obras de arte que só se conhecia de fotos, desfrutar das paisagens que antes apenas imagináramos. Poucas coisas são tão boas!

Quando falo de filmes sobre viagens não tenho em mente os documentários, por vezes excelentes. Penso nos filmes que contam histórias e tratam a viagem e seus acontecimentos como uma metáfora da vida. Tenho meus filmes prediletos no gênero. Talvez não sejam os melhores, mas são aqueles que me permitiram fazer a mesma viagem – ou outra bem parecida, e com os personagens andei por aqueles novos mundos, fiz descobertas, me enriqueci. Vou falar de alguns desses filmes.

Easy Rider

Acho que meu interesse por esse gênero foi despertado pelo filme Easy Rider, de 1961, assistido aqui em Brasília em um cinema da W3 Sul, cujo nome me escapa. Foi uma revelação, foi estonteante. Nós, meus irmãos e eu, amantes de cinema, ficamos por dias discutindo o filme. A América que nos é apresentada é a que se mostra aos olhos dos dois jovens que atravessam parte dos Estados Unidos nas suas motocicletas. Billy e Wyatt deixam Los Angeles a caminho de Nova Orleans para assistir a uma festa, mas o objetivo maior é viver a liberdade. E vemos com eles o movimento hippie, os drogados, as paisagens sociais, a vida comunal, os assuntos e tensões na América da década de 1960. O jovem advogado alcóolatra que também se aventura é ninguém menos que Jack Nicholson no seu primeiro papel de destaque e nos toca com seu desempenho.

Thelma e Louise

Thelma e Louise, vividas por Geena Davis e Susan Sarandon, é um filme de Ridley Scott, de 1991, que retoma o tema de Easy Rider trinta anos depois e, como ele, se torna um clássico. As duas amigas saem de carro para um fim de semana em que pretendem fugir da monotonia e do tédio de suas vidas, mas um imprevisto as leva para um caminho sem volta. Uma tentativa de estupro contra Thelma faz com que Louise cometa em sua defesa um assassinato e isso as impele a uma fuga desesperada. Precisam chegar ao México. As experiências que vivem são intensas, e cada vez mais se tornam violentas. Perseguidas e desesperadas, mas ao mesmo tempo exultantes, sente-se nelas o gozo pela liberdade que é vivida até as últimas consequências. Ação, velocidade, aventura, características do gênero road movie, e ao mesmo tempo uma aguda denúncia da situação da mulher e do machismo da sociedade de então. De então? Infelizmente, não. Não há grandes mudanças de lá para cá.

Estranhos no Paraíso

Estranhos no Paraíso, de Jim Jamusch, não é um road movie. Mas é como gosto de pensar este filme: há uma viagem, há descobertas, há mudanças. Os três jovens personagens, Willie, um húngaro que mora em Nova Iorque, seu amigo Eddie e sua prima Eva, saem de Nova Iorque para o oeste americano, em um carro roubado. Querem ir para a Flórida. Não me recordo bem de todo o filme, mas penso nele como sendo uma viagem incompleta, de pessoas que vivem às margens de um mundo que desejam mas não conseguem alcançar. É uma história de estranhamento, de desajuste. Os três jovens são estrangeiros, estão fora, olham o mundo americano sem o entender, vivem um constante isolamento, uma profunda solidão. Mas o final do filme sugere que de algum modo a viagem ocorreu: Eva consegue arrumar emprego e vê a possibilidade de montar uma vida naquele país e Willie pega um avião para a Hungria voltando às suas origens. É um belo e triste filme.

Cinema, aspirinas e urubus

Nós aqui no Brasil temos grandes filmes que tratam de viagens. Começo por um que me encantou, Cinema, aspirinas e urubus. Primeiro filme do pernambucano Marcelo Gomes, o filme mostra a viagem de dois improváveis companheiros, Johan (Peter Kenath), um jovem alemão que foge da guerra e Ranulpho (João Miguel), um nordestino pobre que só deseja fugir da pobreza do sertão. Embora a história se passe em 1942, muito do que se vê naquele árido sertão ainda persiste nos dias de hoje. O alemão segue pelo interior do nordeste brasileiro vendendo aspirinas. O paraibano passa a ajudá-lo. E é no caminhão e nos caminhos que percorrem que vai se montando a amizade entre aqueles dois homens tão diferentes e tão próximos. O filme é também uma declaração de amor ao cinema. O alemão apresenta às pessoas dos vilarejos por onde passa o comercial sobre as aspirinas que vende em um improvisado cinema cuja tela são lençóis, e vemos o encantamento daquelas pessoas que nunca antes tinham visto um filme. É a magia do cinema. É um road movie sem velocidade e sem grandes aventuras, mas fundamental.

Central do Brasil

Central do Brasil, de Valter Hugo Sales, conta a história de Dora, uma mulher que escreve na estação Central cartas para pessoas analfabetas e nem sempre as manda para seus destinatários, e Josué, menino de 9 anos que perde a mãe. O acaso os junta, e juntos eles iniciam uma longa viagem para o interior do Brasil em busca do pai de Josué. É simples, é bem feito, é bom. Não me atrevo a falar da técnica, para tal não tenho competência. Mas tomo tudo por bom, que é o efeito que nos causa.
O que amo neste filme é a recuperação da humanidade de Dora, antes uma mulher cínica e descrente, mas que ao lado de Josué começa a enxergar o mundo de um modo diferente e por meio de pequenas coisas: a generosidade de um itinerante que lhe oferece um pouco de sua parca refeição, a gentileza de um caminhoneiro.
Vemos também o Brasil triste e despossuído. A pobreza, a vida dos migrantes, a ausência do Estado – apenas entrevista a sua ação em um conjunto habitacional postado no meio do nada, a religiosidade.
Viajamos pelo Brasil com Dora e Josué e saímos melhor dessa viagem. Assim como eles.

Pequena Miss Sunshine

Pequena Miss Sunshine é um divertido road movie. Uma família muito estranha atravessa o deserto em uma kombi amarela com defeito, para levar a caçula até a Califórnia onde será disputado um concurso de beleza para crianças.
A família é composta pelo pai obcecado pelo sucesso, o tio – gay, erudito e suicida, um adolescente revoltado, o avô viciado em heroína, a menina que sonha em vencer o concurso e a mãe que luta para manter o precário equilíbrio entre eles. Seis personagens prontos para juntos fazer explodir mais do que uma kombi. E acontecem cenas inusitadas, divertidas, dramáticas. O filme aborda temas pesados (adolescência problemática, fracasso profissional, homofobia, suicídio, desilusão amorosa e drogas) sem perder o senso de humor. Isso se deve ao trabalho dos atores, ao roteiro bem construído e aos excelentes diálogos. E é também diversão, que bem precisamos dela.

Filme vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1958, Morangos silvestres, de Ingmar Bergman, é um dos mais belos filmes é um dos mais belos filmes já feitos. Isak Borg é um professor de medicina que viaja de carro com sua nora Marianne de Estocolmo a Lund, para receber uma distinção honorária. Nessa viagem, pelos acontecimentos reais que acontecem, por seus sonhos, por sua memória, Borg recompõe a trajetória de sua vida, traça uma espécie de road movie existencial. Ele sente a proximidade da morte e busca entender o que foi sua vida. Ao final, há uma mudança e ele sente que conseguiu superar um pouco a frieza e o egoísmo que até então pautaram a sua vida.
Não resisto. Vou rever esse filme.

Nebraska

Woody Grant é um homem idoso que acredita ter ganho US$ 1 milhão após receber pelo correio uma propaganda. Decidido a retirar o prêmio, ele resolve ir a pé até a distante cidade de Lincoln, em Nebraska. Seu filho mais moço sabe que é uma propaganda enganosa, mas resolve levar o pai até Nebraska. Nebraska é uma melancólica história de sonhos desfeitos e de perseverança, acompanhada por um amor muito especial. Com os protagonistas, viajamos por uma América abandonada, desencantada e sem esperança. Um delicado road movie, rodado em preto e branco, e com um final soberbo. Quem ainda não viu, procure ver. Vale a pena!

Poderia falar de muitos outros filmes com essa temática, mas o post ficaria muito longo e não quero cansar as pessoas de boa vontade que porventura nos leiam. Mas cito alguns:

Bye bye Brasil, de Cacá Diegues
A estrada da vida, de Federico Fellini
Priscilla, a rainha do deserto – Stephan Elliott
Fuga à meia noite – Martin Bret
Paisagem na neblina – Theo Angelopoulos
Ela vai – Emanuelle Bercot
Uma história real – David Linch

Uma opinião para “Amor pelo Cinema – Viagem”

  1. Chico
    09/09/2014 at 17:13 #

    Tem vários que não vi… ainda. Valeu a dica!