Cléa Sá

Amor pelo cinema, uma viagem

Gosto de cinema. Amo cinema. E resolvi fazer um passeio por filmes e artistas que me têm acompanhado desde quando me entendo por gente. Mas aviso de antemão, não esperem que eu visite os clássicos. Não, nada de nouvelle-vague, de néo-realismo italiano, de cidadãos kanes, kurosawas e encouraçados potenkins. Não que eu não goste dos grandes filmes. Gosto, e muito. Mas não sou uma cinéfila no sentido puro  e a minha viagem de hoje é mais sobre o meu encontro com o cinema e sobre os filmes que, independente do valor artistico,  me proporcionaram grandes emoções.  E me fizeram amar o cinema.

Por onde começar? Volto no tempo e me lembro de filmes que vi antes mesmo de conhecer cinema. E digo vi porque  minha mãe contava os filmes de Chaplin Chaplin, com o vagabundo Carlitos, de um jeito que era como se os estivéssemos assistindo. Assim, Tempos Modernos, Em busca do ouro, Luzes da cidade, quando os vi no cinema foi como se os revisse. E gostei mais ainda.  E até hoje vejo os filmes de Chaplin  com o mesmo encantamento.

O Cine Pedreiras,  durante as nossas férias escolares, era o melhor lugar do mundo. Naquele escuro, o coração apertado, aguardávamos o seriado A deusa de Joba, que passava nas matinées de domingo. Uma cidade perdida, homens voadores, um gorila amigo, um menino das selvas, um aventureiro corajoso, apaixonado e disposto a tudo por uma bela mulher…A sessão terminava sempre com nossos heróis em uma situação de grave perigo, debaixo de um silêncio mortal. Antes tínhamos enchido a sala   com assovios, palmas, batidas de pés e gritos de incentivo a eles,  nossos heróis, nas suas lutas gloriosas.

A internet me propiciou a alegria de resgatar esse que foi talvez o meu primeiro encontro real com o cinema e que me acendeu o gosto pelo gênero aventura, que mantenho até hoje e compartilho com os netos. Estão aí  O senhor dos anéis,  A guerra dos tronos. Pode ter coisa melhor? Duvido.

Tinha onze ou doze anos quando vi À noite sonhamos, uma biografia de Chopin que me levou para um mundo inimaginável até então, o da música clássica. Começou aí o meu amor por Chopin e por piano. Soube depois, pelos entendidos, que Cornel Wilde, que fazia o  Chopin, era um canastrão, que o filme era fantasioso, fraco, mas isso não tirou meu encanto pelo filme, que mantive por anos. Descubro agora  que posso revê-lo  aqui,  no meu computador. E é o que pretendo fazer. Ah! as maravilhas da internet.

Ver Humphey Bogart foi uma revelação. O seu ar impassível, a dureza da sua fisionomia, o seu gestual contido  despertaram em mim uma paixão nunca saciada. Começou com Uma aventura na Martinica  e continuou filmes afora. O falcão maltês, que aqui teve o título de Reliquia macabra, onde vive o detetive Phiph Marlowe, é insuperável. Ver  Sabrina, e principalmente Casablanca, não foram simplesmente filmes vistos, foram experiências marcantes. De Casablanca gosto de tudo, até do que não aconteceu, como a frase famosa e não pronunciada Toque de novo Sam! (no original: Play it again, Sam!).

O filme Sangue do meu sangue, um melodrama assistido no Cine Pedreiras, inaugurou meu gosto por melodramas. Da história de um banqueiro que subiu na vida praticando uma série de atividades ilegais e que é preso e abandonado pelos filhos, nada ficou. Porém ainda vejo a  triste cena: noite de Natal, a família reunida e  o banqueiro (Edward G. Robinson)  que havia saído da prisão observando por uma janela, enquanto a neve cai…

Desse filme para os de Douglas Sirk foi um pequeno passo. Sublime Obssessão, Imitação da Vida, Tudo o que o céu permite, ai!, era tudo tão triste, mas  por sorte, no final, terminava tudo bem.

Não sei quando, mas sei que foi em São Luís, no Cine Éden,  que vi Suplício de uma saudade. Filas imensas, pessoas chorando na saída, um marco. Quem já tinha visto,  avisava: não deixe de levar lenço. E precisava de lenço, sim. E lenço de cambraia, provavelmente com monograma, indispensável então a toda moça que se prezasse. Não era prático como os lencinhos de papel, mas que tinha o seu encanto,   tinha.  Pois bem,   o enredo do filme é bonito e a música imbatível. Aqueles dois  que tanto se amavam, que desafiavam as convenções, são separados por fim, e sem perdão.  Jenifer Jones,  minha atriz predileta então,  me fez desejar ser médica. Antes, por causa dela em a Canção de Bernadette, tinha desejado ser boa.

Agora eu precisava de gongos tocando para anunciar a entrada dos grandes ídolos da minha juventude: James Dean, Montgomery Clift e Marlon Brando. E que só fizeram filmes bons. Revolucionaram o cinema americano e a arte de representar.

Ver Juventude Transviada era entrar e sair  definitivamente da adolescência. Víviamos com  Jim Stark (James Dean), Judy (Natalie Wood) e   Platão (Sal Mineo) os mesmos problemas. A morte de James Dean, depois de apenas três filmes, causou abalo no mundo inteiro e nos deixou a nós, jovens  desse tempo, sem aquele que nos representava. Mas temos aí À leste do Éden e Assim caminha a humanidade para conferir o grande ator que ele era e matar as saudades.

 

Como esquecer Marlon Brando vivendo o ingênuo Terry Malloy  em Sindicato de ladrões ?   E Stanley Kowalski, o bruto polonês de Um bonde chamado desejo ou Uma rua chamada pecado? e o paraplégico Ken de Espíritos indômitos? Talvez o maior ator da sua época, já que James Dean e Montgomery Clift morreram jovens, Marlon Brando era um modelo de contestação, de luta contra o status quo.

Quem viu  Montgomery Clift em a  A Um Passo da Eternidade , Tarde Demais A Tortura do Silêncio não pode esquecê-lo. Ele é o soldado que se recusa a lutar box enfrentando tudo e todos,  ele é Morris Townsend o  aventureiro a cata  de uma herdeira que a engana e a nós também, ele é o padre Michael Logan que sofre horrores mas não quebra os seus votos. Não, nada se fez igual.

A minha viagem pelos caminhos de amor pelo cinema não termina aqui. Esta é apenas a primeira parte.

Fonte fotos: internet

2 Responses para “Amor pelo cinema, uma viagem”

  1. Raquel Sá
    Raquel
    06/05/2013 at 12:03 #

    Tia, ótimo texto! Deu vontade de rever os filmes e atores citados. Gosto muito da filmografia do genial Charles Chaplin e do trio rebelde dos anos 50. Beijos

    • Cléa Sá
      clea
      06/05/2013 at 13:30 #

      Oi, Raquel, bom ler seu comentário. Eu amei fazer este texto. Ficar buscando na memória. E também procurar fotos de filmes e atores na internet. Quando voltar da viagem, vou escrever uma continuação. Beijos Cléa